Frente Ampla não tem projeto, por Andre Motta Araujo

No propósito de montar uma frente ampla contra a ameaça autoritária da ultradireita, potenciais participantes colocam como condição da frente o embandeiramento de projetos.

Frente Ampla não tem projeto

por Andre Motta Araujo

A pobreza de pensamento estratégico das elites políticas brasileiras não consegue entender a lógica do conceito de uma frente ampla, instrumento de luta política contra um inimigo comum, de vários partidos unidos em uma frente com o único propósito de dar combate a um inimigo de todos e NÃO para realizar um projeto de futuro.

Quem deve lutar por ideias, programas e projetos são os PARTIDOS POLÍTICOS permanentes, a frente é por definição um instrumento temporário de batalha contra um inimigo maior, que ameaça a todos os partidos, é a ameaça maior acima de divergências temáticas, é o navio que afunda levando ao naufrágio todas as classes.

No propósito de montar uma frente ampla contra a ameaça autoritária da ultradireita, potenciais participantes colocam como condição da frente o embandeiramento de projetos, algo que não faz parte dos alvos de uma frente que se desfaz quando o inimigo comum é derrotado, o mecanismo histórico tem longa trajetória no campo político e militar.

A FRENTE POLÍTICO MILITAR CONTRA O NAZISMO

Na Segunda Guerra, o conceito de FRENTE uniu adversários históricos, a União Soviética, o Império Britânico e os Estados Unidos, cujos líderes tinham objetivos conflitantes e antagônicos, mas que se sentiam todos ameaçados pelo nazismo como perigo mais próximo e maior. Derrotado o inimigo comum, a frente imediatamente se desfez dando início à Guerra Fria, dias depois da Conferência de Potsdam, que foi o fecho do conflito e acerto dos despojos de guerra.

O conceito de ALIADOS foi a frente clássica, união contra um inimigo comum que oferece maior e mais imediato risco a todos, às grandes potências se uniu uma força sem território, a França Livre do General De Gaulle, que saiu do conflito como líder de uma ideia de França anti-colaboracionista, mas que imediatamente ganhou território acompanhando os exércitos anglo-americanos após o desembarque na Normandia. Foi De Gaulle, e não os anglo-americanos, quem aceitou a rendição do General von Choltitz na Gare du Nord em Paris, operação de grande significado simbólico. Patton já estava às portas de Paris e se viu obrigado a parar para que De Gaulle fosse o libertador, operação duramente bancada por Eisenhower, que teve que ameaçar Patton de demissão para que ele estacionasse suas tropas, permitindo a passagem à frente da divisão gaulllista Leclerc, libertadora de Paris.

O simbolismo da frente aí atingiu o máximo, se De Gaulle não libertasse Paris os comunistas o fariam antes de Patton e ganhariam o poder no pós guerra.

A LÓGICA DA FRENTE AMPLA

Frentes amplas se formam com a reunião de um arco de forças heterogêneas para evitar um naufrágio do País frente a um claro perigo maior que os projetos de cada partido.

O atual governo errático, caótico, sem capacidade de administrar por falta de experiência, inteligência, conexões, orientado por um charlatão, criando atritos com outros países e organismos multilaterais, sem projeto, sem credibilidade, sem mecanismos de ação e reação, pode DESCONSTRUIR a administração pública e, em consequência, a economia, não é uma crise resultante de um mau governo, é algo muito maior, uma economia em frangalhos, abalada nas suas raízes, relações internacionais esgarçadas ao máximo, especialmente se, como se prevê, Trump perder as eleições nos EUA, o governo do Partido Democrata não dará respiro a um governo inconsequente no Brasil.

CONTRA A FRENTE AMPLA

Uma frente ampla no Brasil tem inimigos naturais, o grande capital financeiro, as FIESPES da vida, os politiquinhos com projetinhos pessoais fisiológicos, a elite Miami, os bispos caça-níqueis, os boçais do rádio, os grileiros e madeireiros ilegais da Amazônia, há sim uma frente de apoio ao desgoverno contando com o suporte fundamental do PT.

Lembrando que o governo de Vichy manteve amplo apoio mesmo depois do desembarque dos Aliados na Normandia, regimes, qualquer um, têm arco de apoiadores.

O PAPEL DO PT

A não adesão do PT a uma frente ampla é a maior defesa do atual Governo e pode levá-lo à reeleição. A lógica do PT é anti-frente ampla porque se coloca como contraponto isolado contra a ultradireita e vê, nesse isolamento, uma oportunidade de vencer sozinho, o que a análise das forças mostra ser quase impossível.

A não renovação de lideranças do PT pode levá-lo ao isolamento e decadência, partidos históricos sem renovação vão para o arquivo morto porque a política é dinâmica e mutante.

Ao se manter como contraponto à ultradireita, o PT justifica estar no comando como salvação contra o petismo, a ultradireita liderando uma FRENTE AMPLA DO CONSERVADORISMO contra o PT, quer dizer, o instrumento da frente ampla será usado pela ultradireita para se manter no poder, usando o PT como o inimigo a manter longe.

Ao não aderir à uma frente ampla contra o desgoverno, o PT destrói seu papel histórico em benefício de uma hipótese remota de voltar SOZINHO ao poder, um delírio.

O Brasil está em um momento de inflexão, como a Inglaterra em 1939, quando o Partido Conservador mantinha férreo controle do Governo, mas os acontecimentos obrigaram o gabinete Chamberlain a aceitar um controvertido e indesejado político, Churchill, como Primeiro Ministro, deslocando Chamberlain para um Ministério sem pasta como consolação, os acontecimentos moldaram a política partidária, os ultra conservadores como Lorde Halifax detestavam Churchill mas não tiveram saída, era ele ou o caos.

O PT está em um momento de inflexão, sem candidatos viáveis para as grandes prefeituras do Sudeste, ou adere a uma frente ampla ou irá fenecendo para a irrelevância.

Apenas para registro, o PTB já foi o partido central da política brasileira, chegou à Presidência e hoje, sem renovação, é um fantasma histórico e ainda de má reputação.

Em 2018 o PT conseguiu o apoio de todas as forças progressistas que viram o perigo da ultradireita populista, mas esse apoio foi eventual e acidental, hoje seria muito mais difícil.

Há no Brasil um amplo arco de forças civilizadas de muitos partidos políticos com programas diferentes, mas que precisam da democracia e das instituições funcionando para sobreviverem, todos estão ameaçados pela ultradireita agressiva e é hora de todos se unirem contra o grande risco anti-democrático, o PT não pode ser exceção.

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