Buenos Aires, 28 de janeiro, de 2024
por Maíra Vasconcelos
É uma incógnita tentar saber como se sobrevive a um governo de ultradireita na Argentina. As ameaças sociais e culturais são muitas. Nesse espaço, me aproprio da palavra fantasia. Jogo luz sobre uma palavra, porque cuidar de uma palavra, digamos, é o oposto a tudo o que se vê, escuta e vive em um governo autoritário de extrema-direita. Então, sobre a fantasia, há essa dose de fantasia que carregamos junto aos dias, algo que é sempre um pouco insondável. E esse insondável que nos escapa é o que talvez torne mais interessante as nossas tentativas de decifrar como realmente vivemos. Quer dizer, estamos sempre tocados pela fantasia. Aliás, o esforço é o contrário, como se despegar da fantasia para ver isso que chamamos de realidade. Mas pretendo falar sobre a fantasia que advém das expressões culturais, essa fantasia que se revela quando lemos uma novela, escutamos música, vamos ao cinema.
Essas fantasias que buscamos e provamos e que nos transportam a um faz de conta, sonhos e desejos que rompem um pouco com o cotidiano. Isso que é como tentar viver, em certa medida, com um pouco de prazer e beleza. Mas esses modos de vida são facilmente ameaçados por um governo de ultradireita. E aqueles que já vivem privados desses espaços, do despertar da íntima fantasia, passam a estar ainda mais impedidos de ter acesso a qualquer resquício de abstração e deleite.
A atitude de desejar a fantasia deve ser protegida como um bem, já que é possível dividir uma sociedade entre aqueles que podem sonhar ou não. Entre aqueles que podem gozar de fantasias e aqueles que não. Ao percebermos que para muitos a fantasia é um bem negado, vê-se assim a sua função vital. É como entender a literatura como um desfrute a que todos possam ter acesso. É o tão falado direito à literatura. A fantasia é o oposto àquilo que nos apresentam os regimes autoritários e violentos de extrema-direita, tão em voga em outras partes do Globo, além da Argentina como laboratório de um libertarismo com poucos precedentes no mundo, se é que há.
Permitir-se às paixões argentinas, seja por Juan Gelman, por Piazzolla, pela leitura de um poema de Olga Orozco ou Alfonsina Storni, por qualquer livro que sempre recordamos em que momento foi lido, e até a roupa que vestimos naquele então. As sensações que nos causam ver determinadas exposições de arte. A excelência dos filmes argentinos. Toda manifestação artística nos remete a mundos sonhados, são disparadores de fantasias que aliviam o simples ato de viver. Claramente falo aqui da arte para além de seus mecanismos eficientes de conscientização social.
Viver sem esses disparadores de tantas fantasias, tal como aspiram as políticas públicas e o desenho de país das direitas radicais, é gerar cada vez mais modos de vida resumidos ao que se pode ou não consumir.Quando as sociedades latino-americanas já cambaleiam entre seus abismos sociais. A fantasia é um bem, ao menos essa fantasia à qual aspiramos, projetamos e desejamos, também, como descanso para se viver melhor. Mas a fantasia perdeu as últimas eleições argentinas democraticamente.
Maíra Vasconcelos – jornalista, mora em Buenos Aires, escreve artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
Deixe um comentário