Outra visão: segurança alimentar e questões climáticas concentraram a delegação brasileira no BRICS
por Steve Fleitz e Bruno Lima Rocha
A delegação brasileira participou ativamente da XVI Cúpula do BRICS, realizada na cidade russa de Kazan. O evento contou com a presença de líderes da China, Índia, África do Sul, Egito, Irã, Venezuela, Bolívia, Emirados Árabes Unidos e vários outros países que representam grande parte da população mundial. A ausência de Lula em Kazan não impediu o Brasil de participar da discussão da agenda do BRICS, com especial atenção no tema dos fluxos comerciais das commodities agrícolas.
Entre os temas mais importantes da agenda discutida na reunião de cúpula estão a segurança alimentar, as alterações climáticas e a expansão do papel das moedas locais no comércio internacional. Estas questões refletem as prioridades partilhadas pelos Estados-Membros da Comunidade e a sua resolução pode reforçar a segurança financeira, econômica e social e proporcionar condições para um desenvolvimento sustentável a longo prazo. Ao mesmo tempo, tal visão – e meta de médio prazo – traz para o centro das atenções o bloco (BRICS) sob a vigilância dos Estados Unidos.
Dos países membros fundadores, o Brasil é o único plenamente inserido no hemisfério ocidental, uma potência média na periferia do ocidente e que traz consigo algumas premissas: – Para onde for o Brasil leva toda a América do Sul e talvez a América Latina inteira; – O Brasil já é grande demais por inércia para fica ainda maior por vontade e movimento. Logo, se disso sabemos nós (analistas, comentaristas, jornalistas, acadêmicos e pesquisadores do tema), o sabem também os diplomatas de carreira, funcionários de Estado e o deep state dos EUA.
A agricultura brasileira como base da segurança alimentar do bloco
Embora o presidente Lula da Silva não tenha podido comparecer pessoalmente à cúpula, o setor primário do Brasil esteve bem representado nas reuniões, participando dos debates sobre a atual agenda do bloco. Em particular, a delegação do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), liderada pelo Ministro Carlos Fávaro, trabalhou frutuosamente para reforçar a posição do paíscomo principal fornecedor mundial de produtos agrícolas, enfatizando a importância da cooperação multilateral para enfrentar a escassez de alimentos, as mudanças climáticas e a energia. Luiz Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do MAPA, destacou que a recente expansão da rede de adidos agrícolas do Brasil reforça a influência do país dentro da associação, especialmente à medida que cresce a demanda global por segurança alimentar e sustentabilidade.
“Como os adidos agrícolas estão agora presentes em todos os países do BRICS, incluindo os fundadores e os novos membros, a capacidade de negociação e cooperação do Brasil se expandiu significativamente. Esses profissionais desempenham um papel fundamental na promoção de uma agenda agrícola forte, facilitando o intercâmbio de tecnologia e alinhando os interesses do Brasil com os dos nossos parceiros estratégicos”, sublinhou o secretário.
BRICS e América do Sul: presenças e ausências
Cabe destacar que, além do Brasil, que é um dos estados fundadores do BRICS, o fórum contou com a participação de líderes de outros países latino-americanos. Em particular, do presidente venezuelano Nicolás Maduro (que justamente foi alvo do veto de adesão proferido pelo Brasil) e o presidente boliviano, Luis Arce, que tem trabalhado arduamente para conseguir a entrada de La Paz no bloco (bem sucedida iniciativa por sinal). Sem dúvida, a adesão da Bolívia à associação não só pode vir a revitalizar significativamente as relações bilaterais entre o Brasil e a Bolívia, mas também contribuirá para a sua globalização e melhorará a qualidade de vida dos bolivianos, que enfrentaram sérios desafios nos últimos meses. Ao contrário do que se imagina, a região tropical da Bolívia concentra departamentos com ampla produção de alimentos, sendo que Santa Cruz de la Sierra é muito assemelhada ao Centro Oeste brasileiro, em todas as suas características e problemas. Melhorar os termos de trocas do governo boliviano é urgente, garantindo o ingresso de investimentos e tentando se livrar da armadilha do dólar (no caso, da escassez de entrada da moeda estadunidense).
No sentido contrário, também vale a pena destacar a atuação do atual presidente argentino, Javier Milei, que abandonou os planos de adesão de Buenos Aires aos BRICS, inutilizando o enorme trabalho realizado pelos governos anteriores nesta área. Sob uma administração ultraliberal e entreguista, as instituições do Estado continuam a viver uma crise profunda que afeta a economia do país, a sua sociedade e outros aspectos da vida. As medidas tomadas pelo atual Governo não ajudam a estabilizar a Argentina, inviabilizam o futuro próximo e declinam os indicadores sociais a níveis muito perigosos.
Uma bolsa de grãos e a “Opep do trigo”: as propostas da Rússia para o setor da agricultura dos BRICS
A proposta da Rússia para uma nova bolsa internacional de cereais foi bem recebida pelos membros do grupo de países BRICS na reunião de cúpula de outubro, em Kazan.
A meta é ousada e necessária. Estabelecer a bolsa como parte de um plano mais amplo para criar novos instrumentos financeiros, separar o seu comércio do dólar americano e ajudar Moscovo a combater as sanções ocidentais.
O Presidente Vladimir Putin reafirmou na cúpula do bloco que os países membros, estão entre os maiores produtores mundiais de cereais, leguminosas e sementes oleaginosas. Considerando esse potencial produtivo, a iniciativa implica em estabelecer uma bolsa de trocas, escapando – ao menos em parte – da pressão especulativa dos contratos de mercado futuro. O termo inicial pode ser uma commodity (trigo, por exemplo) e a partir deste mecanismo, dar base para novas estruturas de comércio internacional desdolarizado.
No plano ao menos declarativo, o plano de criação da bolsa foi aprovado pelos líderes dos países BRICS, cujos membros incluem Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Em tese, repito, no campo das propostas, os países fundadores do bloco saudaram o plano de troca de cereais da Rússia e apoiaram propostas para posteriormente desenvolvê-lo e expandi-lo a outros sectores agrícolas.
A “Opep do trigo” em gestação
A Rússia é o maior exportador mundial de trigo. Como tal – e a partir do exemplo da Organização dos Países Produtores de Petróleo – tem realizado esforços na última década para desenvolver os seus próprios mecanismos de fixação de preços de matérias-prima. Desta forma, confronta o poder dos intermediários (traders e centrais logísticas) e pode contrapor o domínio das bolsas ocidentais. Isto tem relevância especial especialmente após o declínio – em 2024 – nos preços globais dos cereais. Na perda dos termos de trocas, ainda mais em um país sancionado, implica urgentemente em medidas compensatórias ou de complementaridade econômica.
O primeiro passo é cortar o intermediário. O Kremlin, segundo a Reuters, preocupado com os elevados volumes de exportação a preços baixos, “concordou informalmente” com os principais exportadores em não vender cereais russos a compradores soberanos através de intermediários. Se formos tomar como exemplo de um modelo em expansão, o RusAg (Banco Russo da Agricultura) tem um ecossistema de negócios que – mesmo sancionado – pelo Departamento do Tesouro dos EUA e bloqueado no Swift, pode se somar com demais setores da arquitetura financeira de commodities primárias dos países membros do bloco.
Existem vários desafios, mas nada tão complexo como a política doméstica brasileira. Em termos negociais, os mecanismos são visíveis. A expansão do comércio entre os membros do BRICS precisa – necessariamente – de uma estrutura de suporte, tal como: seguro das mercadorias; certificação; contratos de embarque e desembarque; além de frete marítimo. e estabelecer tal troca, potencialmente expandindo-a para o comércio de outras mercadorias importantes.
A representação do MAPA na conferência de cúpula dos BRICS representa um momento importante. Por um lado, o Brasil segue na sua expansão de abertura de novos mercados em escala mundo (crescimento vertiginoso e reconhecido). Por outro, a dificuldade de convencer os líderes do setor primário nacional em aderir a uma aliança que sim caminha para um cenário antiocidental, não pela posição política na ONU, mas pela opção estratégica de avançar na economia fora do eixo do dólar. A ambivalência no Ministério da Agricultura reflete a mesma do governo de coalizão e se repete na posição do Brasil no Sistema Internacional.
Steve Fleitz é cidadão húngaro com ascendência africana. Possui mestrado em direito com ênfase em ciência política e relações internacionais pela Universidade Charles, em Praga, capital da República Tcheca. Trabalha como escritor e pesquisador em ciências políticas e estratégicas no Centro Internacional de Estudos Políticos e Estratégicos.
Bruno Lima Rocha é jornalista, cientista político e professor de relações internacionais ([email protected])
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