17 de junho de 2026

Caminhada dos desaparecidos políticos deste ano rompeu silêncio: “Sem Anistia”

Projeto que perdoa os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro reacendeu a importância da memória da ditadura brasileira
5ª Caminhada do Silêncio - Foto: Elineudo Meira / @fotografia.75

O avanço do projeto que perdoa os envolvidos nos atos de tentativa de golpe de Estado, de 8 de janeiro de 2023, reacendeu a importância da memória da ditadura brasileira e do regime autoritário. Na última semana, centenas de pessoas alertaram para este risco no emblemático evento “Caminhada do Silêncio”, em São Paulo, organizado por familiares das vítimas da ditadura militar.

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Por que é preciso Memória

Os ataques de centenas de bolsonaristas à Praça dos Três Poderes, pela vitória eleitoral do presidente Lula, no que configurou o maior episódio de atentado contra a democracia e o resultado eleitoral desde a redemocratização, hoje correm o risco de serem perdoados.

Na última semana, lideranças do partido de Jair Bolsonaro, o PL, não mediram esforços para acelerar o projeto de anistia na Câmara. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), um dos principais aliados de Bolsonaro no Congresso, foi em busca de assinaturas para votar a lei em “urgência”.

Apesar de ainda não ter obtido a quantidade de deputados suficientes para votar a anistia em caráter de urgência, o líder informou ter angariado 165 apoiadores e que a campanha por mais coleta de assinaturas continuaria nesta semana.

Paralelamente, o ex-presidente Jair Bolsonaro – que é acusado no Supremo Tribunal Federal (STF) por golpe de Estado – também avança com articulações para isentar as centenas de bolsonaristas que tentaram implementar um golpe, invadindo e depredando as sedes dos Três Poderes há dois anos.

Mas há muito mais tempo, os resistentes e familiares das vítimas da ditadura brasileira (1964-1985) já vinham adiantando este alerta: é preciso memória para que episódios de repressão e golpe não se repitam.

“Ainda estamos aqui”

Foi assim que, há 5 anos, a primeira Caminhada do Silêncio foi realizada, em São Paulo, com familiares, instituições e representantes da sociedade civil escancarando o passado ditatorial em frente ao antigo Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-Codi, na capital paulista, onde os presos eram torturados e assassinados.

5ª Caminhada do Silêncio – Foto: Elineudo Meira / @fotografia.75

Na edição deste ano, com a tentativa atual de anistiar os protagonistas do 8 de janeiro, ganhou novo tom de manifesto, e o endosso da destacada premiação internacional do filme “Ainda Estou Aqui”, sobre a história de Eunice Paiva, viúva de Rubens Paiva.

“Ainda estamos aqui” e “Sem Anistia”, ecoavam os familiares dos desaparecidos políticos e apoiadores do evento. O ato reforçava a continuidade da luta por memória, verdade, justiça e reparação.

Rompendo o silêncio

Para Camilo Vanucchi, jornalista e escritor, cujo pai foi preso pelo Doi-Codi de São Paulo e o primo, Alexandre Vannuchi Leme, foi torturado e morto também pela ditadura, a conjuntura política atual, marcada pelo julgamento dos golpistas de 8 de janeiro, pela memória da ditadura militar e pelas discussões sobre anistia e impunidade, conferiu à Caminhada do Silêncio um significado profundo como um ato de exigência de justiça.

“A caminhada, que é do ‘silêncio’, rompeu a regra do silêncio, para ecoar um único e importantíssimo, fundamental, grito que é o ‘Sem Anistia’. O ato reverberou esta preocupação com uma nova e agressivíssima, inaceitável impunidade”, manifestou Vanucchi.

O pesquisador, que é autor do livro “A vala de Perus: uma biografia” (Alameda Editorial), disse que o evento também serviu de um alerta à Justiça brasileira para se respeitar os tratados internacionais contra atos antidemocráticos, destacando que tais crimes não podem ser anistiados.

Camilo Vanucchi na 5ª Caminhada do Silêncio – Foto: Elineudo Meira / @fotografia.75

“A mensagem dessa luta chega com alerta de que o Brasil não pode se deixar permitir e se colocar a imagem de um país que se torna um pária por não respeitar os tratados internacionais, a orientação internacional de que a tortura, o desaparecimento forçado não podem ser anistados. É um atraso impressionante em relação a outros países, inclusive países vizinhos.”

Para o ex-deputado Adriano Diogo, que presidiu a Comissão Estadual da Verdade em São Paulo, o projeto de anistia aos golpistas de 8 de janeiro é “incompreensível”.

“A covardia em relação [à anistia] aos crimes cometidos pelos ditadores, no meio dos 21 anos da ditadura, a covardia para enfrentar essa parte até se justifica. Agora, a covardia diante do enfrentamento da atual tentativa de golpe de Estado, de não levar às últimas consequências, inclusive a tentativa de assassinar o presidente da República, é incompreensível. É incompreensível.”

Ele ressalta como a Caminhada do Silêncio se estabeleceu, ao longo destes 5 anos, como “uma das coisas mais importantes, sinceras, puras e respeitadas dos direitos humanos no Brasil”, com a participação dos familiares de desaparecidos, o autofinanciamento do evento e o papel crucial da procuradora Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), que reassumiu a pasta este ano, após o engavetamento das investigações dos mortos da ditadura durante o governo de Jair Bolsonaro.

Adriano Diogo na 5ª Caminhada do Silêncio – Foto: Elineudo Meira / @fotografia.75

“A Caminhada do Silêncio é uma das coisas mais importantes dos Direitos humanos no Brasil. É uma das coisas mais sinceras, mais puras, mais respeitadas. Todos os familiares de mortos e desaparecidos políticos acreditam nessa atividade. Ela é praticamente totalmente autofinanciada, não tem ajuda de governo e, com todas as dificuldades inerentes que o núcleo da preservação da memória têm, é um papel importantíssimo.”

Atuante no trabalho de preservação da memória, Adriano Diogo elogiou, ao longo de todos estes anos, a atuação do Instituto Vladimir Herzog e da procuradora Eugênia Gonzaga. “Com todas as dificuldades pessoais que ela passou, ela nunca desistiu. Nós somos eternamente gratos ao trabalho das identificações das ossadas de Perus e de outras valas que ainda estão sendo investigadas, graças ao trabalho incansável da doutora Eugênia, que agora foi conduzida à Comissão Especial novamente.”

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Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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  1. Lênin and The Ulianovs

    9 de abril de 2025 6:22 pm

    É muito triste assistir essa auto imolação de pessoas que têm muito o que resolver.

    Esse país de m$rda não lhes permitiu o luto adequado, o processo, a sentença, a reparação.

    Sem Anistia?

    Como assim?

    Seus mortos de 1979 ainda não foram enterrados, e nunca poderão ser honrados adequadamente.

    Eles não romperam silêncio algum.

    O máximo que se ouve é o grunhido abafado pelas mordaças do esquecimento, do “deixa disso”.

    Parem, por favor, parem de exibir esse sofrimento indigno desses pobres coitados.

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