10 de junho de 2026

A maldição dos juros e do câmbio, por Luís Nassif

O Banco Central acompanha diariamente o carry trade do Brasil e dos seus competidores. A meta inflacionária é jogo de cena.
Tan Tan Bo Puking

A economia começa a se recuperar. Caem os indicadores de desemprego, melhora o desempenho dos setores, aumenta a previsão de crescimento do PIB. Deu ruim. A planilha do Banco Central dirá que aquele nível de atividade pressionará os preços, tirando a inflação da meta. E toca aumentar a Selic, emperrar o crédito às empresas, reduzir os investimentos (justamente o que aumenta a oferta). Deu bom.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O jogo de cena é fantástico por vários fatores:

  1. O impacto dos juros sobre o nível de atividade é inverso: reduz os investimentos e pouco impacta o consumo. O aumento de 1 ponto na Selic, impacta em 7% o custo de um investimento de prazo de 12 anos. E impacta em míseros 0,4% o valor de uma prestação em financiamento de 12 meses.
  2. Eu sei, o Banco Central sabe, o mercado sabe que o impacto da Selic sobre o nível de atividade é mínimo. E afeta muito mais a oferta do que a demanda.
  3. O efeito direto do aumento de juros é sobre o câmbio. Aumentando a Selic, aumenta a entrada de dólares. Com mais dólares, há uma valorização do real e uma queda, em reais, dos preços dolarizados, dos chamados comercializáveis (os produtos com cotação internacional).

As contra-indicações são terríveis. E os movimentos do câmbio acabam condicionados por uma operação de nome carry trade.

Trata-se de uma jogada de tomar financiamento em moeda forte – em geral em dólar ou yuan -, a taxas baixas e aplicar em títulos brasileiros, a taxas mais elevadas, ganhando a diferença, dependendo da variação do câmbio.

Além disso, há uma competição entre países emergentes, especialmente Brasil, México, África do Sul e Indonésia. Se o carry trade de um país está melhor do que outro, os capitais voam de um lado para outro. Foi o que ocorreu em dezembro passado, provocando uma explosão na cotação do real em relação ao dólar. Por isso, o BC acompanha diariamente o carry trade do Brasil e dos seus competidores. A meta inflacionária é jogo de cena.

E, aí, se chega ao segundo ponto. Um dos grandes fatores de instabilidade inflacionária e do nível da Selic é a volatilidade do câmbio. Confira na tabela. Se houver uma desvalorização do real, haverá uma redução no valor dos dólares a serem remetidos. E vice-versa. Caso houvesse previsibilidade na variação do dólar, a Selic poderia ser substancialmente menor.

Mas como reduzir a volatilidade? Este é o grande desafio no qual está envolvido o Banco Central e economistas de várias áreas.

Há quem sugira controle de capitais, bandas cambiais, IOFs e quetais. O busílis é outro, como tem alertado há tempos Manfred Back – inclusive em artigos aqui no GGN. Trata-se do mercado de derivativos.

Nesse mercado, dois investidores fazem apostas em torno da cotação futura do dólar. As apostas são em reais. O mercado é regulado pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), não pelo Banco Central.

Há vários formatos:

  1. Contrato futuro de dólar
    • É o mais negociado.
    • Padrão: US$ 50 mil por contrato.
    • Liquidação exclusivamente financeira: no vencimento, compara-se o valor contratado com a PTAX (taxa de câmbio oficial do Banco Central).
    • Usado para hedge (exportadores, importadores, empresas endividadas em dólar) ou especulação.
  2. Mini-dólar (WDO)
    • Mesmo conceito do contrato futuro, mas em lotes de US$ 10 mil.
    • Muito usado por traders pessoas físicas pela alavancagem e menor tamanho.
  3. Opções de dólar
    • Funcionam como seguro cambial: o comprador paga um prêmio e adquire o direito (não a obrigação) de comprar ou vender dólares a uma taxa futura.
    • Úteis para empresas que querem proteção, mas com flexibilidade.
  4. NDF (Non-Deliverable Forward) – mercado de balcão
    • Contrato a termo sem entrega física, liquidado pela diferença entre taxa contratada e taxa de referência.
    • Muito usado por multinacionais.

Há várias ferramentas para tentar reduzir a volatilidade, de swaps cambiais oferecidos pelo BC e circuit breaks (mecanismo para interromper pregões em momentos de oscilação extrema).

O que interessa é que, qualquer tentativa de tornar o país menos vulnerável às oscilações do câmbio, passa necessariamente pelos mercados futuros. É por aí que deve se iniciar a tentativa de escapar da armadilha das metas inflacionárias.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

5 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Theo

    4 de setembro de 2025 5:25 am

    Nassif, não se esqueça da desnacionalização da economia com as privatizações do Temer para cá, que resultam em remessas cada vez maiores de dividendos para o exterior e as big techs e casas de aposta, ambas grandes extratoras de dólares do país.

    Sem um movimento de reestatização de ativos estratégicos e mudanças tributárias para manter lucros e dividendos no Brasil, o país vai afundar.

    1. Rodrigo Grimaldi

      4 de setembro de 2025 6:19 pm

      Mercados futuros também reduzem volatilidade, por mais bizarras que certas “apostas” pareçam e obviamente um conjunto de regras deve ser imposto para evitar falhas de compensação e defaults dos próprios fundos envolvidos. Isso foi provado empiricamente já no mercado de cripto, que ficou anos sem mercado futuro e cuja implementação suavizou muito a curva do Bitcoin.

  2. Stalingrado

    4 de setembro de 2025 10:00 pm

    Galipolo,o Sumo Sacerdote do Deus Mercado está feliz, vai continuar com a elevação da SELIC e ferrando com os brasileiros.

  3. Marcos Lima

    5 de setembro de 2025 9:10 am

    O problema não é esse. O problema é o déficit cronico do Balanço de pagamentos. O uso da Selic atrair dólares e controlar inflação, era bem conhecido na era FHC. Parece que todo mundo esqueceu. Agora que o Arcabouço começa a fazer água, o Belluzzo (referencia desse jornal) dá explicações “técnicas” sobre o câmbio. Mas a causa é a velha desnacionalização. Belluzzo é só um pouquinho melhor do que o resto. Mas de certa forma é pior pq ilude até comunistas.

  4. Roland Matt Rola

    7 de setembro de 2025 3:59 pm

    Estabeleça o controle de capitais e problema resolvido!
    O lance é que se isso for feito, uma das atividades lucrativas da banca financeira desaparece, a operação das mesas de câmbio (compra na baixa e vende na alta).
    Mas como esse governo tem compromisso com os banksters, ele não realizará.

Recomendados para você

Recomendados