10 de junho de 2026

A Argentina de Milei: Entre o Dogma e o Desastre, por Luís Nassif

Hoje, o país se vê refém de um modelo que privilegia o mercado financeiro em detrimento da produção, do emprego e da soberania econômica.
Foto: Gage Skidmore - Flickr

A Argentina vive hoje um dos momentos mais dramáticos de sua história econômica recente. Sob o governo de Javier Milei, o país não apenas enfrenta uma sucessão de escândalos políticos, mas também mergulha em uma espiral de desmonte econômico que ameaça suas bases produtivas, sociais e institucionais.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

No primeiro trimestre de 2025, os números falam por si: mais de 100 mil empregos perdidos nos setores de manufatura e construção civil, desemprego em alta, empresas em retirada e uma moeda sobrevalorizada que sufoca a indústria nacional. A promessa de uma “libertação econômica” se converteu em um experimento radical de ortodoxia fiscal e monetária, cujos efeitos colaterais são cada vez mais visíveis.

A fuga de multinacionais — como Procter & Gamble, Mercedes-Benz, Telefónica, HSBC e ExxonMobil — revela um ambiente de negócios marcado por incerteza jurídica, instabilidade regulatória e custos operacionais crescentes. O país, historicamente dependente do capital estrangeiro, vê agora esse capital bater em retirada, deixando um rastro de desemprego e desindustrialização.

O governo aposta no RIGI, um programa de incentivos a grandes investimentos, oferecendo benefícios fiscais e cambiais por 30 anos. Mas a atratividade de tais medidas esbarra na realidade: reservas líquidas negativas, escassez de insumos, queda nas receitas do agronegócio e uma valorização artificial do peso que favorece importações e penaliza a produção local.

A flexibilização cambial, saudada pelo FMI, não trouxe o capital externo prometido. Pelo contrário, acelerou a fuga de divisas e aumentou o risco-país, que permanece acima de 700 pontos — um patamar alarmante para qualquer economia emergente. O crédito em pesos perdeu atratividade, e os títulos indexados ao dólar dispararam para taxas de 11% ao ano, inviabilizando o financiamento de empresas, especialmente as de médio porte.

O resultado é uma onda de inadimplência corporativa sem precedentes desde a pandemia. Setores estratégicos como agricultura, energia e manufatura enfrentam dificuldades, e o mercado local sofre com baixa liquidez e alto risco de refinanciamento.

A Argentina de Milei parece caminhar para um colapso anunciado. A fé cega na ortodoxia econômica, sem considerar os impactos sociais e produtivos, está desmontando o que resta de uma economia que, no fim do século XIX, era vista como a mais promissora da América Latina. Hoje, o país se vê refém de um modelo que privilegia o mercado financeiro em detrimento da produção, do emprego e da soberania econômica.

A pergunta que fica é: até quando a Argentina suportará esse experimento?

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

5 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Lênin and The Ulianovs

    2 de setembro de 2025 7:47 am

    Entre? Tem alternativa ao dogma da “ortodoxia-nazi-liberal” econômica senão o desastre?

    Onde deu certo?

    Ou melhor dizendo, antes que alguém recite algum mantra fiscal, onde a vida do povo melhorou?

  2. Antônio

    2 de setembro de 2025 9:19 am

    Vocês são muito babacas. Isenção é um termo que vocês nunca entenderão.

    1. Lênin and The Ulianovs

      3 de setembro de 2025 7:03 am

      Ou será babaca quem acredita em isenção?

      Vá saber?

  3. GalileoGalilei

    2 de setembro de 2025 11:29 am

    Outra pergunta: Até quando presidenciáveis aqui persistirão apontando para Milei como o exemplo a ser seguido?

  4. Silvio Torres

    2 de setembro de 2025 5:30 pm

    Nassif, estou acompanhando a economia Argentina há uns três meses, estimulado pelos elogios dos “jornalistas econômicos” da imprensa brasileira. Até pra mim, que,estou longe de ser um especialista, nao foi difícil perceber o quanto era efêmero o milagre do presidente impostor. O badalado sucesso da tal reforma maluca se resumiu a um empréstimo político do FMI, que foi logo consumido pelas classes mais altas, sem nenhum retorno para o país e a população. Pode parecer loucura ou exagero, mas é verdade. A propalada invasão de argentinos no sul do Brasil, turistando e investindo, eram os espertalhões privilegiados de sempre, metendo a mão nos dólares que deveriam dar um alívio na desesperadora situação das divisas portenhas. Torrado o dinheiro que deveria ser salvador, a farra acabou e a realidade catastrófica que você aponta chegou. A esperança dos malucos no poder se baseia unicamente no apoio irrestrito do maluco lá de Washington. Eles imaginaram que, com discursos e atos à lá bolsonaro, os bilhões de dólares continuariam sendo despejados a fundo perdido nos pampas. A experiência dos oito anos da tragédia FHC me fez entender totalmente o filme encenado pelos canastrões de millei. Que Deus tenha piedade de los hermanos.

Recomendados para você

Recomendados