
O Parlamento em Polvorosa
por Maitê Ferreira
Não há mais, em Brasília, qualquer parlamentar que acredite ser possível Jair Bolsonaro escapar da prisão iminente imposta pelo Supremo Tribunal Federal.
As instituições foram categóricas: nas penas referentes aos crimes contra a democracia — como a tentativa de abolição violenta do Estado de Direito (art. 359-M do Código Penal) — não há espaço para negociação política. O ministro Alexandre de Moraes já declarou que “não haverá anistia para crimes contra a ordem constitucional” (Fonte: STF, 2023).
Na história constitucional brasileira, raramente se presenciou interferência judicial tão incisiva sobre o Legislativo. Parlamentares sempre gozaram de foro privilegiado e imunidade formal. Mas os tempos mudaram: o STF passou a agir diante da omissão crônica do Congresso e do avanço de grupos que desafiam abertamente a ordem democrática.
O Partido Liberal (PL), por sua vez, tem se empenhado em enquadrar a atuação do Judiciário como uma ofensiva autoritária contra o Legislativo. Inflamaram o Centrão com uma proposta tentadora: anistia para eles, blindagem para todos. Nas últimas semanas, aliados do ex-presidente pressionaram pela aprovação de um projeto que, na prática, inviabiliza investigações e punições contra parlamentares — a já infame PEC da Blindagem. E
nquanto o Governo Federal reagia com artilharia política — inclusive ameaçando cortar cargos de partidos que apoiassem a pauta — o Centrão seguiu em sua própria direção, mirando a proposta que realmente lhes interessava. Chantagearam parlamentares governistas com o bloqueio de pautas estratégicas e conseguiram, assim, arrancar dissidências decisivas.
O resultado dessa barganha foi a aprovação do regime de urgência da proposta, mesmo sem um texto definitivo apresentado (Fonte: Congresso em Foco, 2025). Um movimento tão cínico quanto calculado: em uma manobra típica da política brasiliense, o Centrão não apenas flertou com a impunidade — institucionalizou o flerte.
Enquanto isso, pautas sociais importantes, como a tarifa social zero de energia elétrica, foram ofuscadas pelo tumulto institucional. A aberração jurídica se consolidou quando o relator da PEC, deputado Rodolfo Nogueira (PL-MS), admitiu que o substitutivo da proposta “ainda será construído com a base” (Fonte: UOL, 2025). Ou seja: o Congresso aprovou, em regime de urgência, um projeto cujo conteúdo que sequer existe.
O texto é o de menos. O que une o Centrao e os bolsonaristas, afinal, é a vontade de suspirar os ares de um novo tempo, e por essa esperança mais de 300 deputados encontraram uma razão para trabalhar em conjunto. Pelo futuro de poucos escândalos e muitas glórias, poucas investigações e muita prosperidade (e corrupção) – as cartas estão lançadas.
Essa cruzada pela impunidade, ainda que destinada ao fracasso, revela com precisão o estado atual do nosso sistema político: em nome de salvar Bolsonaro, o Centrão aposta em salvar a si mesmo das numerosas investigações em andamento em inqueritos sigilosos no STF.
Mas é uma aposta ruim.
O “programa máximo” de Bolsonaro para 2026 já está comprometido pelos fatos: investigações robustas, inelegibilidade consolidada e condenação criminal. Ainda que seus seguidores mantenham a fidelidade incondicional, o sistema político já se movimenta em busca de um novo nome para liderar a direita. E, sem dúvida, aqueles que lutaram até o fim por ele se considerarão merecedores de um sucessor para chamar de líder. Afinal, a forma mais melancólica de provar a lealdade é lutar até o fim pelas causas perdidas.
Maitê Ferreira – Advogada, jornalista, fotógrafa, militante, pensadora, transfeminista, irrequieta, ansiosa, utópica e construtora de um mundo novo.
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