
Entre o Protagonismo e a Dependência: Lula Cresce em Nova York, Milei Sai Menor
por Maria Luiza Falcão
As Luzes de Nova York
Todos os anos, no mês de setembro, os olhos do mundo se voltam para Nova York. A Assembleia Geral da ONU é mais que um ritual diplomático. É o palco em que nações apresentam sua narrativa, defendem suas prioridades e medem sua estatura política. Neste 2025, a diferença entre os presidentes do Brasil e da Argentina saltou aos olhos de qualquer observador atento. Se Lula brilhou como estadista global, Javier Milei pareceu um líder acuado, falando mais para seus apoiadores ideológicos do que para o concerto das nações.
Lula abriu a Assembleia Geral — privilégio histórico concedido ao Brasil desde 1947 — com um discurso firme e articulado. Falou de multilateralismo, de transição energética justa, de paz em Gaza e na Ucrânia, de reforma das instituições internacionais e da urgência de colocar o clima no centro da agenda global. Ao fazê-lo, projetou o Brasil como porta-voz do Sul Global, país capaz de propor soluções e costurar pontes.
Enquanto isso, Milei desembarcou em Nova York com uma agenda centrada em reuniões discretas e discursos para plateias reduzidas. Seu principal gesto foi a celebração pública de promessas de ajuda dos Estados Unidos. É legítimo buscar apoio financeiro quando um país atravessa uma crise profunda, mas a forma como se apresentou — quase como quem precisa da bênção de Washington para sobreviver politicamente — reforçou a imagem de dependência e fragilidade.
Lula, o Estadista do Sul Global
O contraste não é apenas de forma, mas de conteúdo. Lula chegou a Nova York respaldado por uma economia que, mesmo com juros altos, cresceu acima das previsões do FMI e reduziu desigualdades. Em seus encontros bilaterais, tratou de ampliar parcerias em energia limpa, tecnologia e comércio. Convidou chefes de Estado para a COP30, que será realizada em Belém do Pará, transformando o Brasil no epicentro do debate climático global.
Lula falou de soberania, mas não no tom belicoso de outros tempos: falou de soberania como capacidade de cooperação, de protagonismo coletivo. E foi ouvido. Presidentes africanos e asiáticos o citaram em seus próprios discursos, e diplomatas europeus destacaram a coerência da posição brasileira sobre Gaza e sobre o respeito às instituições internacionais.
Nos bastidores, o presidente costurou apoio para iniciativas de financiamento climático, insistiu na criação de mecanismos de compensação para países que protegem florestas e articulou uma frente contra as tarifas unilaterais impostas pelos Estados Unidos. Sua postura foi a de quem entende que o mundo precisa de menos confrontação e mais coordenação.
Milei e a Política do Alinhamento Automático
Javier Milei, ao contrário, apresentou-se como líder que depende do respaldo externo para validar sua política doméstica. Encontrou-se com representantes do governo norte-americano e celebrou promessas de ajuda financeira, que serão bem-vindas para aliviar a escassez de dólares na economia argentina. Mas a cena soou mais como submissão do que como parceria.
O tom de seus discursos foi ideológico, quase panfletário: atacou o “coletivismo”, repetiu mantras libertários e reforçou a narrativa de que o Estado é o inimigo da sociedade. O problema é que o mundo mudou. Até mesmo os Estados Unidos, sob a administração Trump, estão apostando em reindustrialização, política industrial e controle estratégico de setores-chave. Enquanto isso, Milei continua a defender um Estado mínimo e um mercado desregulado, agenda que isolou seu país e afastou investidores estratégicos.
A ausência de encontros bilaterais relevantes também foi notada. Se Lula circulou pelos corredores da ONU como articulador, Milei manteve-se mais restrito, sem construir pontes para além do eixo Washington–FMI. Para a Argentina, que enfrenta inflação persistente, queda de renda e descontentamento social, a cena internacional poderia ser oportunidade de reposicionamento. Em vez disso, foi ocasião de reafirmar dependência.
Brasil e Argentina: Dois Caminhos
O que se viu em Nova York é mais do que uma diferença de estilos; é um retrato das opções estratégicas de Brasil e Argentina. O Brasil aposta no multilateralismo, busca maior autonomia de decisão e articula o Sul Global para enfrentar os desafios do século XXI — da transição energética à regulação da inteligência artificial. A Argentina, ao menos sob Milei, parece reduzir sua inserção internacional à aprovação do FMI e ao aval da Casa Branca.
Não se trata de condenar quem busca apoio financeiro, mas de refletir sobre o custo político dessa postura. Soberania não é sinônimo de isolamento, mas também não pode se confundir com dependência permanente. O Brasil demonstra que é possível dialogar com todas as potências sem abrir mão de uma agenda própria.
O Futuro do Cone Sul
Em Nova York, o Brasil falou ao mundo; a Argentina falou a si mesma. O discurso de Lula mostrou que é possível ter uma política externa altiva e, ao mesmo tempo, pragmática. Já Milei saiu da ONU menor do que entrou, tendo desperdiçado a chance de reposicionar seu país no cenário global.
O futuro dirá qual dos dois caminhos prevalecerá. Mas uma coisa ficou clara: no tabuleiro internacional de 2025, o Brasil ocupa uma posição de liderança. E essa posição se consolida quando o presidente não teme falar de paz, clima, terras raras e justiça social, mesmo diante de uma plateia dividida. O Brasil cresce quando seu líder entende que protagonismo global é, antes de tudo, a arte de negociar sem abrir mão de soberania e democracia.
Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA.
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