10 de junho de 2026

Lula cresce em Nova York, Milei sai menor, por Maria Luiza Falcão

Lula falou de soberania como capacidade de cooperação, de protagonismo coletivo. E foi ouvido. E foi citado em outros discursos.
Lula e Milei no G20. Foto de Ricardo Stuckert

Entre o Protagonismo e a Dependência: Lula Cresce em Nova York, Milei Sai Menor

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por Maria Luiza Falcão

As Luzes de Nova York

Todos os anos, no mês de setembro, os olhos do mundo se voltam para Nova York. A Assembleia Geral da ONU é mais que um ritual diplomático. É o palco em que nações apresentam sua narrativa, defendem suas prioridades e medem sua estatura política. Neste 2025, a diferença entre os presidentes do Brasil e da Argentina saltou aos olhos de qualquer observador atento. Se Lula brilhou como estadista global, Javier Milei pareceu um líder acuado, falando mais para seus apoiadores ideológicos do que para o concerto das nações.

Lula abriu a Assembleia Geral — privilégio histórico concedido ao Brasil desde 1947 — com um discurso firme e articulado. Falou de multilateralismo, de transição energética justa, de paz em Gaza e na Ucrânia, de reforma das instituições internacionais e da urgência de colocar o clima no centro da agenda global. Ao fazê-lo, projetou o Brasil como porta-voz do Sul Global, país capaz de propor soluções e costurar pontes.

Enquanto isso, Milei desembarcou em Nova York com uma agenda centrada em reuniões discretas e discursos para plateias reduzidas. Seu principal gesto foi a celebração pública de promessas de ajuda dos Estados Unidos. É legítimo buscar apoio financeiro quando um país atravessa uma crise profunda, mas a forma como se apresentou — quase como quem precisa da bênção de Washington para sobreviver politicamente — reforçou a imagem de dependência e fragilidade.

Lula, o Estadista do Sul Global

O contraste não é apenas de forma, mas de conteúdo. Lula chegou a Nova York respaldado por uma economia que, mesmo com juros altos, cresceu acima das previsões do FMI e reduziu desigualdades. Em seus encontros bilaterais, tratou de ampliar parcerias em energia limpa, tecnologia e comércio. Convidou chefes de Estado para a COP30, que será realizada em Belém do Pará, transformando o Brasil no epicentro do debate climático global.

Lula falou de soberania, mas não no tom belicoso de outros tempos: falou de soberania como capacidade de cooperação, de protagonismo coletivo. E foi ouvido. Presidentes africanos e asiáticos o citaram em seus próprios discursos, e diplomatas europeus destacaram a coerência da posição brasileira sobre Gaza e sobre o respeito às instituições internacionais.

Nos bastidores, o presidente costurou apoio para iniciativas de financiamento climático, insistiu na criação de mecanismos de compensação para países que protegem florestas e articulou uma frente contra as tarifas unilaterais impostas pelos Estados Unidos. Sua postura foi a de quem entende que o mundo precisa de menos confrontação e mais coordenação.

Milei e a Política do Alinhamento Automático

Javier Milei, ao contrário, apresentou-se como líder que depende do respaldo externo para validar sua política doméstica. Encontrou-se com representantes do governo norte-americano e celebrou promessas de ajuda financeira, que serão bem-vindas para aliviar a escassez de dólares na economia argentina. Mas a cena soou mais como submissão do que como parceria.

O tom de seus discursos foi ideológico, quase panfletário: atacou o “coletivismo”, repetiu mantras libertários e reforçou a narrativa de que o Estado é o inimigo da sociedade. O problema é que o mundo mudou. Até mesmo os Estados Unidos, sob a administração Trump, estão apostando em reindustrialização, política industrial e controle estratégico de setores-chave. Enquanto isso, Milei continua a defender um Estado mínimo e um mercado desregulado, agenda que isolou seu país e afastou investidores estratégicos.

A ausência de encontros bilaterais relevantes também foi notada. Se Lula circulou pelos corredores da ONU como articulador, Milei manteve-se mais restrito, sem construir pontes para além do eixo Washington–FMI. Para a Argentina, que enfrenta inflação persistente, queda de renda e descontentamento social, a cena internacional poderia ser oportunidade de reposicionamento. Em vez disso, foi ocasião de reafirmar dependência.

Brasil e Argentina: Dois Caminhos

O que se viu em Nova York é mais do que uma diferença de estilos; é um retrato das opções estratégicas de Brasil e Argentina. O Brasil aposta no multilateralismo, busca maior autonomia de decisão e articula o Sul Global para enfrentar os desafios do século XXI — da transição energética à regulação da inteligência artificial. A Argentina, ao menos sob Milei, parece reduzir sua inserção internacional à aprovação do FMI e ao aval da Casa Branca.

Não se trata de condenar quem busca apoio financeiro, mas de refletir sobre o custo político dessa postura. Soberania não é sinônimo de isolamento, mas também não pode se confundir com dependência permanente. O Brasil demonstra que é possível dialogar com todas as potências sem abrir mão de uma agenda própria.

O Futuro do Cone Sul

Em Nova York, o Brasil falou ao mundo; a Argentina falou a si mesma. O discurso de Lula mostrou que é possível ter uma política externa altiva e, ao mesmo tempo, pragmática. Já Milei saiu da ONU menor do que entrou, tendo desperdiçado a chance de reposicionar seu país no cenário global.

O futuro dirá qual dos dois caminhos prevalecerá. Mas uma coisa ficou clara: no tabuleiro internacional de 2025, o Brasil ocupa uma posição de liderança. E essa posição se consolida quando o presidente não teme falar de paz, clima, terras raras e justiça social, mesmo diante de uma plateia dividida. O Brasil cresce quando seu líder entende que protagonismo global é, antes de tudo, a arte de negociar sem abrir mão de soberania e democracia.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

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