4 de junho de 2026

Multas expõem infraestrutura ferroviária, por José Manoel Ferreira Gonçalves  

Enquanto países como China e Estados Unidos ampliam investimentos no setor, o Brasil engatinha na retomada de sua malha abandonada.
Pexels

Multas expõem infraestrutura ferroviária

por José Manoel Ferreira Gonçalves*

Colapso silencioso sobre trilhos  

Em pleno século XXI, enquanto o Brasil tenta modernizar seus modais logísticos, um colapso silencioso avança por trilhos esquecidos: a malha ferroviária Oeste. A concessionária Rumo, responsável por trechos estratégicos no Centro -Oeste, acumula 74 multas e ntre 2020 e 2023. O valor total, que ultrapassa R$ 20 milhões, representa não só o descumprimento de obrigações contratuais, mas o fracasso sistêmico da
infraestrutura ferroviária Brasil. 

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A situação escancara uma triste realidade: promessas de reativação esbarram na omissão, e a falta de investimentos emperra o escoamento da produção agrícola e industrial de regiões -chave como Mato Grosso do Sul. 

Infraestrutura Ferroviária Brasil pede socorro  

O caso da Rumo evidencia mais do que ineficiência. Segundo levantamento da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a empresa tem deixado de cumprir cláusulas contratuais básicas, como manutenção da via permanente, reaparelhamento de estações e operação mínima do trecho. Pior: das 74 autuações, apenas 7 foram pagas até agora.  

Enquanto isso, a linha férrea entre Corumbá e Mairinque, essencial para conectar o agronegócio brasileiro ao porto de Santos, está praticamente abandonada. A ANTT já recomendou a caducidade do contrato, e o TCU (Tribunal de Contas da União) estuda a intervenção estatal.  

Além do impacto logístico, o abandono da ferrovia gera perdas econômicas e ambientais. O transporte ferroviário emite até 70% menos CO₂ do que o rodoviário. Mas, hoje, grãos e minérios cruzam o estado por estradas saturadas, caras e poluentes. 

Responsabilidade que se esvai nos trilhos  

A falência operacional da malha Oeste tem responsáveis claros. A Rumo assumiu a concessão em 2016, herdando trechos em condições precárias. No entanto, comprometeu -se a investir na recuperação. O que se viu, no entanto, foi o contrário: apenas 14% da malha operada está ativa atualmente.  

Em entrevista recente, a ANTT classificou a situação como “inadmissível”. A malha ferroviária, que poderia reduzir o custo logístico do Centro -Oeste em até 30%, está sendo lentamente corroída pela negligência, mesmo após diversos alertas oficiais.  

Fica evidente a urgência de um novo modelo de concessões, com metas claras, fiscalização efetiva e possibilidade real de reversão em caso de descumprimento. O atual cenário reforça que a infraestrutura ferroviária Brasil precisa de menos promessas e mais ação concreta.  

Trilhos para o futuro ou passado?  

O Brasil segue desperdiçando seu potencial ferroviário. Enquanto países como China e Estados Unidos ampliam investimentos no setor, o Brasil engatinha na retomada de sua malha abandonada. O caso da Rumo não é exceção, é sintoma de uma política pública ineficaz, marcada por privatizações sem contrapartidas reais.  Para que o país avance, é imprescindível rever contratos, punir descumprimentos e revalorizar o transporte ferroviário. A malha Oeste pode — e deve — ser reativada. Mas isso exige vontade política, visão estratégica e gestão responsável.  

*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.

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