10 de junho de 2026

Bolívia: a ascensão da direita e a causa palestina, por Rasem Bisharat

Representa o início de novo capítulo no equilíbrio político da América do Sul na causa palestina, onde ideologia e alianças se cruzam
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A Bolívia após as eleições: como a ascensão da direita impacta a causa palestina?

Dr. Rasem Bisharat – Doutor em Estudos do Oeste Asiático e especialista em assuntos latino-americanos

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Em outubro de 2025, a Bolívia surpreendeu o mundo ao eleger Rodrigo Paz, candidato de centro-direita do Partido Democrata Cristão da Bolívia (Partido Demócrata Cristiano de Bolivia – PDC), como novo presidente do país, encerrando cerca de duas décadas de domínio da esquerda liderada pelo Movimento ao Socialismo (Movimiento al Socialismo – MAS).

A surpresa não foi apenas interna, mas também diplomática. Horas após o anúncio dos resultados, Israel apressou-se em parabenizar oficialmente o presidente eleito, em um gesto interpretado como uma tentativa de abrir uma “nova página” nas relações bilaterais — depois que a Bolívia rompeu relações diplomáticas com Israel, em protesto contra a guerra israelense em Gaza, em 2023.

O acontecimento marcou mais do que um simples episódio: representou o início de um novo capítulo no equilíbrio político da América do Sul em relação à causa palestina, onde ideologia e alianças externas se cruzam em uma equação de alta sensibilidade.

Do legado socialista aos sinais de mudança

Durante décadas, a Bolívia foi um dos pilares da solidariedade latino-americana com a Palestina.

Sob o governo do presidente esquerdista Evo Morales, La Paz rompeu relações com Israel em 2009, em protesto contra a operação Chumbo Fundido, e repetiu o gesto em novembro de 2023, acusando Israel de cometer “crimes contra a humanidade” em Gaza.

A Bolívia também levou sua voz aos fóruns internacionais, apresentando um memorando à Corte Internacional de Justiça em que descrevia a ocupação israelense como “ilegal”, tornando-se um dos países mais firmemente alinhados à causa palestina no continente.

Esse posicionamento histórico fez da Bolívia um símbolo da consciência de esquerda latino-americana, ao lado da Palestina não apenas por afinidade política, mas como parte de seu discurso anti-imperialista e antidependência em relação ao Ocidente.

Rodrigo Paz e a nova direita: pragmatismo sem ideologia

A ascensão de Rodrigo Paz embaralhou o tabuleiro político. Vindo de uma base de centro-direita democrata-cristã, Paz não pertence à escola do socialismo revolucionário, mas sim a um projeto econômico reformista, com o lema “Capitalismo para todos” e uma aposta declarada na abertura externa.

Seu programa eleitoral enfatizou a necessidade de “recolocar a Bolívia no mundo”, fazendo do fortalecimento das relações internacionais um pilar central de sua política.

Diferentemente de seus antecessores, Paz não parece disposto a transformar a política externa em palanque ideológico, mas em uma ferramenta pragmática para atrair investimentos e estreitar laços com o Ocidente — incluindo Israel.

Desse ponto de vista, a rápida saudação de Israel pode ser lida como um teste precoce às intenções do novo presidente e uma oportunidade para Tel Aviv recuperar influência diplomática na América do Sul após anos de isolamento regional.

O que muda em La Paz com a posse de Paz

1. Reposicionamento diplomático

Com Rodrigo Paz no poder, a Bolívia tende a se mover de um papel de crítica feroz de Israel para uma posição mais equilibrada ou neutra.

O Partido Democrata Cristão não carrega um legado ideológico anti-Israel, e seu programa é centrado em economia, não em disputas geopolíticas.

Assim, é provável que o governo inicie rapidamente passos de reaproximação diplomática e comercial com Israel, como parte de sua prometida política de abertura internacional.

2. O aproveitamento israelense dessa mudança

A mensagem de congratulação israelense não foi um simples gesto protocolar. O comunicado do Ministério das Relações Exteriores de Israel mencionou a intenção de “abrir uma nova página e fortalecer a cooperação”, sinalizando um movimento político calculado.

Israel sabe que a vitória de Paz pode representar a redução da voz crítica boliviana nos fóruns internacionais e vê nisso uma chance de ampliar seu alcance econômico e diplomático na região.

3. Resistência interna

Apesar dessa nova direção, o governo Paz enfrentará resistência doméstica. A opinião pública boliviana continua profundamente solidária à Palestina. Movimentos sociais, correntes de esquerda e representantes dos povos originários consideram a causa palestina parte da própria identidade de luta do país.

Por isso, Paz provavelmente adotará um discurso duplo: promoverá uma abertura pragmática ao exterior, enquanto mantém um tom simbólico de solidariedade à Palestina para evitar confrontos internos.

4. Efeitos regionais

Caso a Bolívia mude sua postura histórica, isso poderá representar um enfraquecimento do bloco pró-Palestina na América Latina, especialmente diante das posições oscilantes de países como Brasil e Argentina.

Enquanto alguns governos de esquerda, como Chile e Colômbia, mantêm um discurso de apoio, uma Bolívia mais neutra pode desequilibrar o cenário diplomático regional, até então favorável aos palestinos nos fóruns internacionais.

Impactos para a causa palestina

Sob a ótica palestina, a ascensão de Paz representa uma mudança qualitativa relevante. A Bolívia era um dos poucos países a usar sua voz na ONU e na Corte Internacional de Justiça em defesa dos direitos palestinos.

A perda desse apoio ativo deixará um vazio diplomático na América Latina — uma região que historicamente ofereceu respaldo político e moral à causa palestina.

Ainda assim, não se espera uma ruptura completa. Paz compreende que um recuo abrupto poderia custar-lhe capital político interno, razão pela qual deve optar por uma transição gradual e pragmática, equilibrando apoio simbólico à Palestina com reaproximação progressiva a Israel.

Conclusão: entre princípios e interesses

A Bolívia encontra-se hoje em uma encruzilhada: entre um legado de esquerda combativo, que fez do país uma voz proeminente em defesa da Palestina, e uma nova visão de direita, voltada à reaproximação com o Ocidente e à abertura para Israel.

Essa transformação em La Paz vai além da retórica,  reflete uma mudança profunda nas prioridades do Estado, que passa da ideologia ao interesse, da solidariedade moral à diplomacia econômica.

Para a Palestina, o campo de batalha já não se limita ao Oriente Médio: ele se estende agora aos cenários políticos da América Latina, onde cada eleição e cada gesto diplomático podem reconfigurar o mapa global de apoio.

Resta, portanto, a grande pergunta: A Bolívia manterá suas raízes solidárias ou a abertura a Israel marcará o início de uma nova era de pragmatismo latino-americano, redefinindo o que significa “estar ao lado da Palestina”?

Dr. Rasem Bisharat – Doutor em Estudos do Oeste Asiático e especialista em assuntos latino-americanos

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  1. Rui Ribeiro

    28 de outubro de 2025 6:04 am

    De acordo com Marx, ele não era filósofo, pous os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes formas, enquanto o ponto era transformá-lo. Pois bem. O filósofo francês Bernard-Henri Lévy afirma que Lula se engana ou mente ao acusar U$rael de genocídios. Para o filósofo francês, a ofensiva de Tel Aviv na Faixa de Gaza nao configura intenção genocida, como se o que se levasse em conta, no final das contas, fossem as boas intenções. Ora, filósofo, o inferno tá cheio de pessoas com boas intenções. Um nazista certamente diria que Hitler era movido pelas melhores intenções ao perseguir Comunistas, Ciganos e Judeus.

    Deve ser por causa desse tipo de visão que se diz que filosofia é uma ciência tal que com ou sem a qual o mundo continua tal e qual.

    Fim do genocídio infligido aos Palestinos pelos Vermes $ionistas!

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