4 de junho de 2026

É hora de devolver as farmácias aos farmacêuticos, por Luís Nassif

Em qualquer país civilizado, proíbe-se a concentração, no ramo farmacêutico, e montam-se políticas para fortalecer a farmácia individual.
Imagem gerada por ChatGPT

1. Grandes redes de farmácias associadas à Abrafarma faturaram R$103,14 bilhões em 2024, concentrando o mercado e oligopolizando o varejo farmacêutico.

2. Leis que regulam o setor farmacêutico no Brasil não limitam a concentração econômica, favorecendo grandes redes em detrimento das farmácias independentes.

3. Propostas de políticas públicas visam garantir o papel da farmácia como agente de saúde, evitar oligopólios, manter farmácias em áreas menos rentáveis e restaurar a autonomia técnica do farmacêutico.

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Filho de farmacêutico, um dos pioneiros do Conselho Federal de Farmácia, acompanhei a decadência das farmácias independentes desde os planos de estabilização de Roberto Campos.

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Na época, os laboratórios vendiam para as farmácias. Mas o farmacêutico tinha que obedecer à lista de preços fornecida pelo próprio laboratório. Na hora de repor os estoques, os preços já haviam aumentado, provocando a descapitalização das farmácias, em ondas sucessivas,

Depois disso, o que se viu foi uma enorme concentração, em torno de três ou quatro redes, liquidando com o papel do farmacêutico, como agente da saúde pública.

Em qualquer país civilizado, proíbe-se a concentração, no ramo farmacêutico, e montam-se políticas para fortalecer a farmácia individual.

Vamos a um raio-X do caso brasileiro.

As grandes redes associadas à Abrafarma faturaram R$ 103,14 bilhões em 2024, com mais de 11 mil lojas, crescendo acima de 14% ao ano. A própria Abrafarma projeta chegar a mais de 50% do faturamento total do mercado em poucos anos.

Isso é, na prática, um movimento de oligopolização do varejo farmacêutico.

Essa distorção foi possível devido ao desvirtuamento das leis que regulam o setor. 

A Lei 5.991/1973 tratava farmácias e drogarias como estabelecimentos comerciais de venda de medicamentos, insumos etc.

A Lei 13.021/2014 corrigiu o conceito jurídico, transformando a farmácia formalmente em “estabelecimento de saúde”, voltado à assistência farmacêutica e orientação sanitária.

Mas não limitou concentração econômica, não regulou propriedade (quem pode ser dono), não blindou o farmacêutico contra metas puramente comerciais, embora diga que a autonomia técnica não pode ser desrespeitada.

Na prática, a lei diz “saúde”, o mercado opera como “varejo de alta rotação”.

Principais falhas de mercado

Há um conjunto enorme de falhas de mercado, que passam ao longe da análise do CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico):

  • Assimetria de poder de compra: redes negociam direto com a indústria, com descontos e prazos inalcançáveis para independentes.
  • Domínio de localização: pagam aluguéis elevados para pontos premium, expulsando pequenas farmácias do eixo de fluxo.
  • Venda agressiva de OTC e conveniência: campanhas, combos, programas de desconto baseados em escala de dados e capital.
  • Captura logística: distribuidoras e laboratórios tendem a privilegiar grandes compradores.

Principais falhas de Estado

Em todo esse período, o Estado mostrou totalmente ausente. O CADE não olha para o setor. Não existe política de defesa da capilaridade (farmácia como infraestrutura de saúde de proximidade). Faltam crédito e incentivos específicos para farmácia independente.

Regras de propriedade e limites de participação regional, ao contrário da maioria dos países europeus, que preservam a indivisibilidade entre propriedade e direção técnica do farmacêutico.

Objetivos de uma política de reversão

Qual seria o “norte” da política pública?

  1. Sanitário: garantir farmácia como ponto de cuidado (uso racional de medicamentos, vacina, acompanhamento de crônicos). Tem que voltar a ser um agente da saúde pública.
  2. Concorrencial: evitar oligopólios e abuso de poder econômico.
  3. Territorial: manter farmácias em áreas menos rentáveis (periferia, interior, rural).
  4. Profissional: restaurar o poder econômico do farmacêutico, hoje rebaixado a executor de metas comerciais.
  5. Sistêmico: alinhar o varejo farmacêutico ao SUS, e não apenas ao varejo de conveniência.

Cenários de reversão: do “mínimo razoável” ao “choque regulatório”

Para organizar politicamente:

Cenário 1 – Freio de arrumação (mínimo razoável)

  • Mais atuação do CADE, limites regionais suaves de concentração.
  • Programas de crédito + incentivos tributários para independentes.
  • Reforço da fiscalização da Lei 13.021 (autonomia técnica).

Cenário 2 – Modelo híbrido europeu-brasileiro

  • Criação da categoria de Farmácia Comunitária de Interesse Público.
  • Restrições a aquisições em determinadas áreas.
  • Programas robustos de SUS + farmácias independentes.

Cenário 3 – Choque regulatório

  • Alterar a lei para:
    • exigir farmacêutico como sócio controlador de toda farmácia de atenção primária;
    • limitar o número de unidades por grupo.
  • Rever permissões de venda agressiva, publicidade, formatos de expansão de redes.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. Wilson Azevedo

    14 de novembro de 2025 7:32 am

    Nassif, não seria aqui o caso de se incentivar e fortalecer o associativismo e o cooperativismo nesse setor?

  2. ODONIR OLIVEIRA

    14 de novembro de 2025 8:03 am

    Aprendendo mais sobre esse segmento que sempre me provocou muito pavor, inclusive pelas visitas dos representantes das grandes farmacêuticas, invadindo consultas em postos de saúde e em hospitais públicos.

  3. José de Almeida Bispo

    14 de novembro de 2025 8:41 am

    “Em qualquer país civilizado, proíbe-se a concentração,(…)”
    Mas isso é pra lugar de “primeiro mundo”… aqui, não! Tá pensando o que? Civilizar o Brasil? E como ficará certa elite tupiquim, sem as exclusividades? As de falar javanês, por exemplo, e ganhar sozinha todo o dinheiro e ir entregar à gringada?

  4. Victor Lima

    14 de novembro de 2025 8:19 pm

    Nacif, você devia parar de só dizer o que fazer e ir tentar fazer. Acredito que uma candidatura sua para Deputado Federal teria grande chance de ser bem sucedida. Teríamos um representante honesto, competente e capaz de fazer a diferença que o Brasil precisa, sem deixar de ser o Jornalista que é.

  5. Edivaldo Dias de Oliveira

    15 de novembro de 2025 10:31 am

    Bons tempos do remédio a granel sob orientação do farmaceutico.

  6. roberto kodama

    15 de novembro de 2025 2:57 pm

    Seria interessante agregar o tema “Farmácia Popular”. Era para criar capilaridade mas acabou virando antro de fraudes.

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