21 de maio de 2026

A hora de apostar no associativismo e nas pequenas empresas, por Luís Nassif

Em países civilizados, há legislações protegendo pequenas empresas contra os grandes conglomerados.
Vincent Van Gogh

1. Desigualdade persistente: Brasil mantém alto índice de Gini, revelando uma das economias mais desiguais do mundo desde os anos 1980.

2. Concentração de poder econômico-político: Grandes grupos econômicos e estamento militar historicamente instáveis politicamente.

3. Oligopolização nas farmácias: Brasil viu a ascensão de redes, destruindo 100 mil farmácias independentes em 20 anos, com 50% do mercado dominado.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Historicamente, a industrialização brasileira se deu em cima de abundância de matéria prima, salários deprimidos, controle de importação e financiamento público abundante. Resultou em uma das economias mais desiguais do planeta.

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Tomando-se por base o Coeficiente de Gini (índice que mede a desigualdade nos países),o Brasil variou entre 0,63 nos anos 1980 e ~0,50 hoje, ou seja, continua entre os mais desiguais do planeta. E nada mudou, nem nos períodos de crescimento explosivo do chamado “milagre brasileiro”.

Faixa do GiniInterpretaçãoExemplos aproximados
0,20 – 0,30Alta igualdadePaíses nórdicos (Suécia, Dinamarca)
0,30 – 0,40Moderada desigualdadeEuropa Ocidental, Canadá, Japão
0,40 – 0,50Desigualdade altaMéxico, Turquia, China
> 0,50Desigualdade muito altaBrasil, África do Sul, Colômbia

Mais que isso, não se criou um mercado de consumo robusto, nem uma classe média forte, capaz de proporcionar estabilidade democrática ao país.

Historicamente, desde a República Velha, os grandes grupos econômicos se constituíram no maior fator de instabilidade política, ao lado do estamento militar.

O  estudo desse entrelaçamento poder econômico-poder político identifica várias fases:

  • Empreiteiras/construtoras: no regime militar, privatizações e grandes obras.
  • Bancos e financiamento (por exemplo, via BNDES): papel do banco estatal no financiamento da acumulação que se entrelaça com elites econômicas.
  • Mídia e grupos de comunicação: influência sobre opinião pública, crise política, institucionalização de narrativas favoráveis ou contrárias à democracia.
  • Agronegócio / mineração: como atores estruturais de poder econômico que podem se mobilizar para proteger regimes ou influenciar mudanças institucionais.
  • Setores industriais ligados à lógica de “crescimento-autoritarismo”: indústrias de base, infraestrutura pesada, que historicamente se vincularam a projetos de Estado forte.
  • Grupos de serviços financeiros ou holdings que se beneficiam de abertura/privatizações ou de fragilidade regulatória.

A partir dos últimos anos, surge um personagem mortalmente perigoso, o crime organizado, assumindo a liderança de grandes partidos políticos e grandes bancadas.

Mesmo depois da Constituinte cidadã, prosseguiu o processo de concentração de renda, com a diluição dos direitos trabalhistas pelo Supremo Tribunal Federal.

O caminho das PMEs

Em países civilizados, há legislações protegendo pequenas empresas contra os grandes conglomerados. É a questão das farmácias, por exemplo. 

Na Alemanha, só farmacêuticos podem ser proprietários e cada farmacêutico pode ter, no máximo, 4 farmácias. O país tem 18 mil farmácias independentes.

Na França, a farmácia é propriedade exclusiva do farmacêutico. Uma pessoa só pode controlar uma farmácia.

Na Espanha ocorre o mesmo, com a possibilidade de uma abertura regulada pelo governo, de acordo com critérios de habitantes por farmácia e distância mínima entre elas. 

No Brasil, até os anos 80 a farmácia era propriedade do farmacêutico e existia barreiras de entrada para as grandes redes.

A partir dos anos 90, prevaleceu a interpretação judicial e farmácia virou “comércio”. Passou-se a permitir seu controle por empresários, grupos varejistas e fundos de investimento, conseguindo negociar, com os laboratórios, preços muito inferiores aos das farmácias independentes. Foi o início do fim.

Na década de 2010 houve o desastre final. As redes viraram oligopólio, conquistaram as metrópoles e passam a avançar sobre cidades pequenas, periferias e bairros afastados.

Segundo estimativa do setor, nos anos 90 o Brasil tinha mais de 100 mil farmácias independentes. Em 20 anos, por ausência de regulação, destruiu-se um setor inteiro. Hoje as redes ocupam 50% do mercado e, nas capitais, concentram até 80%.

As APLs e cooperativas

Por tudo isso, é hora dos economistas começarem a elaborar teorias de desenvolvimento tendo como base o associativismo.

Ao longo das últimas décadas, mesmo remando contra o processo de oligopolização da economia, dois fenômenos se fortaleceram: o cooperativismo e os Arranjos Produtivos Locais.

O cooperativismo já reúne mais de 12% da população como cooperados e cresce mais rápido que a força de trabalho formal, indicando capilaridade setorial (crédito, agro, saúde, trabalho) e geração robusta de empregos qualificados

Os APLs mantêm uma rede ampla (quase 200 mil empresas), com 1,8 milhão de empregos — massa crítica suficiente para políticas de produtividade e encadeamento local (fornecedores, EBTs, SENAI/Sebrae).

É hora de se avançar e os desenvolvimentistas passarem a elaborar teorias tendo como foco central as PMEs. É um tema que abre um leque enorme de oportunidades, permitindo não apenas melhor distribuição da renda, mas a reconciliação do Estado nacional com a população.

Lições para o Brasil

Além das farmácias, Alemanha, França e Espanha possuem políticas robustas de proteção às PMEs em diversos setores — desde crédito e inovação até transição ecológica e digitalização. Esses mecanismos explicam por que suas economias conseguiram combinar crescimento com coesão social e territorial, ao contrário do Brasil, que liberalizou cedo demais e deixou setores inteiros serem dominados por oligopólios.

Alemanha – PMEs como “espinha dorsal” da economia

  • Peso econômico: 99,4% das empresas são PMEs; empregam 55% da força de trabalho e respondem por mais da metade do valor agregado.
  • Financiamento verde e inovação: programas como LIFE (UE), DBU (Fundação Ambiental) e BMWK/ZIM oferecem subsídios não reembolsáveis de até 60% para projetos sustentáveis
  • Banco de desenvolvimento KfW: concede empréstimos com juros reduzidos e prazos longos, voltados para inovação e sustentabilidade.
  • Campeões ocultos: cerca de 1.600 PMEs alemãs são líderes mundiais em nichos industriais, mostrando como pequenas empresas podem ser altamente competitivas.

França – Estado ativo na recuperação e transição

  • Plano France Relance (2020): €40 bilhões para apoiar PMEs, com foco em construção, transição ecológica e exportações
  • Auxílio europeu às PMEs: pacote da Comissão Europeia garante €200 bilhões até 2027, simplificando burocracia e ampliando acesso a financiamento
  • Medidas específicas:
    • Renovação energética de edifícios públicos e privados.
    • Apoio à contratação de jovens e profissionais ligados à transição ecológica.
    • Incentivos à exportação (cheques de exportação, subsídios para participação em feiras).

Espanha – financiamento verde e inclusão social

  • Parceria BEI + Santander (2025): mobilizou €1 bilhão para PMEs, com foco em construção sustentável e empresas lideradas por mulheres ESG News.
  • Critérios regulatórios: além das farmácias, há regras de distância mínima e número de habitantes por unidade, garantindo distribuição equilibrada.
  • Inclusão de gênero: €70 milhões destinados a PMEs lideradas por mulheres, reduzindo desigualdade de acesso ao crédito.
  • Competitividade: PMEs representam 99% das empresas e dois terços do emprego; acesso a crédito acessível é vital para transição energética e digital.

Lições para o Brasil

  • Alemanha mostra como PMEs podem ser líderes globais se houver crédito e apoio tecnológico.
  • França evidencia o papel do Estado em coordenar recuperação e transição ecológica.
  • Espanha ensina que regulação territorial e inclusão social fortalecem pequenas empresas e evitam concentração.

O Brasil poderia adotar uma estratégia nacional de PMEs, combinando crédito direcionado, regulação antitruste e apoio a cooperativas/APLs, para reconstruir setores destruídos pela oligopolização e gerar estabilidade democrática.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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  1. Jicxjo

    14 de novembro de 2025 9:33 am

    Aqui no Brasil, por outro lado, temos uma política altamente equivocada, ou no mínimo muito mal estruturada, de incentivo a PMEs em compras públicas. Na prática o que se vê? Uso de CNPJs múltiplos por grupos econômicos grandes, para se valerem indevidamente do incentivo; simulações de concorrências entre PMEs com mesmo controlador indireto; PMEs fakes em sentido estreito, criadas apenas para burlar sanções prévias a empresas inidôneas; aventureiros de toda espécie, pretendendo vender desde um parafuso até itens muito especializados; CNPJs descartáveis para venda pontual de qualquer coisa problemática com dolo (produtos com vícios ocultos, falsificados, desovas de lotes problemáticos), formando-se legiões de empresas zumbis, abandonadas tão logo se receba o pagamento das notas de empenho…

    Do lado da administração pública, isso leva a imensas perdas, como inchaço dos mecanismos de controle e proteção contra golpes por licitantes e contratadas; enorme perda de tempo e eficiência com licitações fracassadas, ou mesmo com pregões com a participação de dúzias de empresas ineptas, imperitas; itens não entregues ou entregues com enorme atraso paralisando projetos; litígios contra empresas de fachada e impossibilidade de ressarcimento ao erário; fracionamento de compras e perda de padronização de soluções…

    Não se trata de algo transiente, esses incentivos já existem há muito tempo; a malandragem e a deturpação dos incentivos só aumenta. Logo, há de se questionar qual o legado efetivo dessa política até agora, qual seu custo, com base em evidências, não em meras intenções. Proibir que PMEs recém-abertas ou hibernando participem de compras públicas seria um primeiro passo; aumentar a fiscalização sobre grupos econômicos e seus controladores, impedindo piruetas societárias para burlar enquadramentos e sanções, também é imprescindível. Assim como o maior escrutínio da contabilidade e movimentações financeiras dessas PMEs, dificultando a colocação de laranjas como seus proprietários…

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