Historicamente, a industrialização brasileira se deu em cima de abundância de matéria prima, salários deprimidos, controle de importação e financiamento público abundante. Resultou em uma das economias mais desiguais do planeta.
Tomando-se por base o Coeficiente de Gini (índice que mede a desigualdade nos países),o Brasil variou entre 0,63 nos anos 1980 e ~0,50 hoje, ou seja, continua entre os mais desiguais do planeta. E nada mudou, nem nos períodos de crescimento explosivo do chamado “milagre brasileiro”.
| Faixa do Gini | Interpretação | Exemplos aproximados |
| 0,20 – 0,30 | Alta igualdade | Países nórdicos (Suécia, Dinamarca) |
| 0,30 – 0,40 | Moderada desigualdade | Europa Ocidental, Canadá, Japão |
| 0,40 – 0,50 | Desigualdade alta | México, Turquia, China |
| > 0,50 | Desigualdade muito alta | Brasil, África do Sul, Colômbia |
Mais que isso, não se criou um mercado de consumo robusto, nem uma classe média forte, capaz de proporcionar estabilidade democrática ao país.
Historicamente, desde a República Velha, os grandes grupos econômicos se constituíram no maior fator de instabilidade política, ao lado do estamento militar.
O estudo desse entrelaçamento poder econômico-poder político identifica várias fases:
- Empreiteiras/construtoras: no regime militar, privatizações e grandes obras.
- Bancos e financiamento (por exemplo, via BNDES): papel do banco estatal no financiamento da acumulação que se entrelaça com elites econômicas.
- Mídia e grupos de comunicação: influência sobre opinião pública, crise política, institucionalização de narrativas favoráveis ou contrárias à democracia.
- Agronegócio / mineração: como atores estruturais de poder econômico que podem se mobilizar para proteger regimes ou influenciar mudanças institucionais.
- Setores industriais ligados à lógica de “crescimento-autoritarismo”: indústrias de base, infraestrutura pesada, que historicamente se vincularam a projetos de Estado forte.
- Grupos de serviços financeiros ou holdings que se beneficiam de abertura/privatizações ou de fragilidade regulatória.
A partir dos últimos anos, surge um personagem mortalmente perigoso, o crime organizado, assumindo a liderança de grandes partidos políticos e grandes bancadas.
Mesmo depois da Constituinte cidadã, prosseguiu o processo de concentração de renda, com a diluição dos direitos trabalhistas pelo Supremo Tribunal Federal.
O caminho das PMEs
Em países civilizados, há legislações protegendo pequenas empresas contra os grandes conglomerados. É a questão das farmácias, por exemplo.
Na Alemanha, só farmacêuticos podem ser proprietários e cada farmacêutico pode ter, no máximo, 4 farmácias. O país tem 18 mil farmácias independentes.
Na França, a farmácia é propriedade exclusiva do farmacêutico. Uma pessoa só pode controlar uma farmácia.
Na Espanha ocorre o mesmo, com a possibilidade de uma abertura regulada pelo governo, de acordo com critérios de habitantes por farmácia e distância mínima entre elas.
No Brasil, até os anos 80 a farmácia era propriedade do farmacêutico e existia barreiras de entrada para as grandes redes.
A partir dos anos 90, prevaleceu a interpretação judicial e farmácia virou “comércio”. Passou-se a permitir seu controle por empresários, grupos varejistas e fundos de investimento, conseguindo negociar, com os laboratórios, preços muito inferiores aos das farmácias independentes. Foi o início do fim.
Na década de 2010 houve o desastre final. As redes viraram oligopólio, conquistaram as metrópoles e passam a avançar sobre cidades pequenas, periferias e bairros afastados.
Segundo estimativa do setor, nos anos 90 o Brasil tinha mais de 100 mil farmácias independentes. Em 20 anos, por ausência de regulação, destruiu-se um setor inteiro. Hoje as redes ocupam 50% do mercado e, nas capitais, concentram até 80%.
As APLs e cooperativas
Por tudo isso, é hora dos economistas começarem a elaborar teorias de desenvolvimento tendo como base o associativismo.
Ao longo das últimas décadas, mesmo remando contra o processo de oligopolização da economia, dois fenômenos se fortaleceram: o cooperativismo e os Arranjos Produtivos Locais.
O cooperativismo já reúne mais de 12% da população como cooperados e cresce mais rápido que a força de trabalho formal, indicando capilaridade setorial (crédito, agro, saúde, trabalho) e geração robusta de empregos qualificados.
Os APLs mantêm uma rede ampla (quase 200 mil empresas), com 1,8 milhão de empregos — massa crítica suficiente para políticas de produtividade e encadeamento local (fornecedores, EBTs, SENAI/Sebrae).
É hora de se avançar e os desenvolvimentistas passarem a elaborar teorias tendo como foco central as PMEs. É um tema que abre um leque enorme de oportunidades, permitindo não apenas melhor distribuição da renda, mas a reconciliação do Estado nacional com a população.
Lições para o Brasil
Além das farmácias, Alemanha, França e Espanha possuem políticas robustas de proteção às PMEs em diversos setores — desde crédito e inovação até transição ecológica e digitalização. Esses mecanismos explicam por que suas economias conseguiram combinar crescimento com coesão social e territorial, ao contrário do Brasil, que liberalizou cedo demais e deixou setores inteiros serem dominados por oligopólios.
Alemanha – PMEs como “espinha dorsal” da economia
- Peso econômico: 99,4% das empresas são PMEs; empregam 55% da força de trabalho e respondem por mais da metade do valor agregado.
- Financiamento verde e inovação: programas como LIFE (UE), DBU (Fundação Ambiental) e BMWK/ZIM oferecem subsídios não reembolsáveis de até 60% para projetos sustentáveis
- Banco de desenvolvimento KfW: concede empréstimos com juros reduzidos e prazos longos, voltados para inovação e sustentabilidade.
- Campeões ocultos: cerca de 1.600 PMEs alemãs são líderes mundiais em nichos industriais, mostrando como pequenas empresas podem ser altamente competitivas.
França – Estado ativo na recuperação e transição
- Plano France Relance (2020): €40 bilhões para apoiar PMEs, com foco em construção, transição ecológica e exportações
- Auxílio europeu às PMEs: pacote da Comissão Europeia garante €200 bilhões até 2027, simplificando burocracia e ampliando acesso a financiamento
- Medidas específicas:
- Renovação energética de edifícios públicos e privados.
- Apoio à contratação de jovens e profissionais ligados à transição ecológica.
- Incentivos à exportação (cheques de exportação, subsídios para participação em feiras).
Espanha – financiamento verde e inclusão social
- Parceria BEI + Santander (2025): mobilizou €1 bilhão para PMEs, com foco em construção sustentável e empresas lideradas por mulheres ESG News.
- Critérios regulatórios: além das farmácias, há regras de distância mínima e número de habitantes por unidade, garantindo distribuição equilibrada.
- Inclusão de gênero: €70 milhões destinados a PMEs lideradas por mulheres, reduzindo desigualdade de acesso ao crédito.
- Competitividade: PMEs representam 99% das empresas e dois terços do emprego; acesso a crédito acessível é vital para transição energética e digital.
Lições para o Brasil
- Alemanha mostra como PMEs podem ser líderes globais se houver crédito e apoio tecnológico.
- França evidencia o papel do Estado em coordenar recuperação e transição ecológica.
- Espanha ensina que regulação territorial e inclusão social fortalecem pequenas empresas e evitam concentração.
O Brasil poderia adotar uma estratégia nacional de PMEs, combinando crédito direcionado, regulação antitruste e apoio a cooperativas/APLs, para reconstruir setores destruídos pela oligopolização e gerar estabilidade democrática.
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Jicxjo
14 de novembro de 2025 9:33 amAqui no Brasil, por outro lado, temos uma política altamente equivocada, ou no mínimo muito mal estruturada, de incentivo a PMEs em compras públicas. Na prática o que se vê? Uso de CNPJs múltiplos por grupos econômicos grandes, para se valerem indevidamente do incentivo; simulações de concorrências entre PMEs com mesmo controlador indireto; PMEs fakes em sentido estreito, criadas apenas para burlar sanções prévias a empresas inidôneas; aventureiros de toda espécie, pretendendo vender desde um parafuso até itens muito especializados; CNPJs descartáveis para venda pontual de qualquer coisa problemática com dolo (produtos com vícios ocultos, falsificados, desovas de lotes problemáticos), formando-se legiões de empresas zumbis, abandonadas tão logo se receba o pagamento das notas de empenho…
Do lado da administração pública, isso leva a imensas perdas, como inchaço dos mecanismos de controle e proteção contra golpes por licitantes e contratadas; enorme perda de tempo e eficiência com licitações fracassadas, ou mesmo com pregões com a participação de dúzias de empresas ineptas, imperitas; itens não entregues ou entregues com enorme atraso paralisando projetos; litígios contra empresas de fachada e impossibilidade de ressarcimento ao erário; fracionamento de compras e perda de padronização de soluções…
Não se trata de algo transiente, esses incentivos já existem há muito tempo; a malandragem e a deturpação dos incentivos só aumenta. Logo, há de se questionar qual o legado efetivo dessa política até agora, qual seu custo, com base em evidências, não em meras intenções. Proibir que PMEs recém-abertas ou hibernando participem de compras públicas seria um primeiro passo; aumentar a fiscalização sobre grupos econômicos e seus controladores, impedindo piruetas societárias para burlar enquadramentos e sanções, também é imprescindível. Assim como o maior escrutínio da contabilidade e movimentações financeiras dessas PMEs, dificultando a colocação de laranjas como seus proprietários…