A vida sob mira: o cotidiano invisível das mães-solo nas favelas do Rio
por Celso P. de Melo
“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.”[1]
Às cinco da manhã, antes do sol nascer, Josenice (Jôsy, como é conhecida desde criança) já está de pé. Prepara o café, acorda os quatro filhos e verifica, pela janela, se há helicópteros no céu [2]. “Se tem, não tem aula”. No Complexo da Penha, o ruído das hélices é o sinal de que o Estado chegou – e, com ele, o medo.
Aos 37 anos, negra, empregada doméstica e chefe de família, Jôsy enfrenta o que milhões de brasileiras vivem, mas poucas podem descrever em voz alta: o peso de criar filhos em um território onde a lei é o fuzil. “Quem manda aqui não veste farda”, ela diz, em voz baixa. Os “donos” do morro – jovens do tráfico que cresceram na mesma rua que ela – controlam o comércio, os horários de funcionamento das vans e até as festas de fim de semana. A polícia aparece de tempos em tempos, em incursões que transformam o bairro em campo de guerra. Quando chega, as escolas fecham, os comércios se calam, e as mães trancam os filhos em casa.
Jôsy aprendeu a distinguir o som dos tiros. “Os meninos usam um tipo de arma, a polícia outro. A gente reconhece pelo som”, explica. O cotidiano se organiza entre o cuidado e a cautela. O medo é constante – mas se tornou parte do mobiliário da casa, como o botijão de gás ou o ventilador que não gira direito.
O horror daquela madrugada de outubro de 2025 ainda a assusta. Uma megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão deixou pelo menos 121 mortos – a mais letal da história do Rio [3]. As sirenes, os helicópteros e o medo voltaram com força, como se o tempo não tivesse passado. Foi impossível não lembrar de outra manhã, três anos antes, quando a “chacina da Vila Cruzeiro”, em maio de 2022, ceifou 23 vidas durante uma incursão policial [4].
Em ambas, a cena se repetiu: corpos espalhados nas vielas, escolas fechadas, mães correndo atrás de notícias, e o silêncio imposto depois que as câmeras foram embora. Entre os mortos, estavam jovens que Jôsy conhecia desde pequenos – meninos que jogavam bola com seus filhos e que jamais tiveram julgamento, culpa formada ou direito à defesa [5]. Joca, seu filho mais velho, ajudou a trazer os mortos na mata lá de cima, na Serra [6]. “Quando os corpos ficam no chão, ninguém pergunta nome, idade, nem se estudava”, diz ela. “Pra eles, preto de favela é suspeito até morto.” A lembrança a persegue: o cheiro da pólvora, os gritos das mães, o silêncio da noite seguinte. “A gente limpa o sangue com água sanitária e tenta seguir. Mas o medo não seca.”
Jôsy fala pouco de seus companheiros, mas as lembranças vêm cortantes como o som das sirenes nas madrugadas [7]. O primeiro, pai dos dois filhos mais velhos, era pedreiro, bebia muito e, quando voltava para casa, batia nela e nas crianças. “Eu aguentava calada porque não tinha pra onde ir”, diz. “Um dia, ele sumiu – e foi o melhor dia da minha vida.” O segundo, pai de sua única filha menina, morreu em um acidente de moto [8], voltando do trabalho em um domingo de chuva. “Era bom homem, trabalhador, mas a vida foi curta demais pra ele.” O terceiro, pai do caçula, foi um relacionamento breve – mais solidão do que companhia. “Ele veio e foi embora rápido, como tudo aqui.”
Ser mãe solo, para Jôsy, não é escolha, mas destino. “É o que sobra pra gente”, diz. Criou os quatro filhos com o que o dia rendia, contando com a ajuda da própria mãe – “uma mulher de ferro”, lembra, que cuidava das crianças enquanto ela limpava casas na Zona Sul. “Quando minha mãe morreu, senti que o chão foi embora junto. Foi quando percebi que agora era só eu e eles, e que o amor tinha que dar conta do medo.”
Em comunidades como a de Jôsy, a ausência do Estado é ocupada por um poder armado que regula tudo – do preço do gás ao transporte, do som das festas ao silêncio das ruas. “É um governo que não foi eleito”, resume um líder comunitário. “Mas que decide o destino de cada morador” [9]. Hoje, o Complexo da Penha é dominado pelo Comando Vermelho [10], uma das facções mais antigas do Rio. “Parece que não tem dono, mas tem olho em todo lugar”, diz Jôsy. “Eles sabem quem entra e quem sai, quem tá devendo, quem chegou de fora. Se alguém bate uma laje sem avisar, eles perguntam o que vai construir. Até o entregador de gás precisa de autorização.” Os “donos” do território mantêm postos de vigilância armada, rádios espalhados pelas bocas e listas de moradores suspeitos de colaborar com a polícia. Também cobram “taxas de segurança” de pequenos comerciantes – padarias, bares, salões – em troca de “proteção”. É um poder que se infiltra no cotidiano e nega o direito básico à cidadania. “A gente só queria viver como qualquer brasileiro – trabalhar, criar os filhos, ter o direito de não ter medo”, diz Jôsy. “Mas polícia e tráfico disputam a favela como se a gente fosse território, não gente.” Aqui, a violência é dupla: a da facção, que impõe regras e castigos, e a do Estado, que entra atirando sem distinguir culpados de inocentes.
Jôsy ganha por dia, fazendo faxina nos apartamentos de madames na Lagoa, Ipanema e Leblon. Ali, entre ruas limpas e vitrines reluzentes, sente o peso de atravessar uma fronteira invisível: a de quem limpa um mundo que nunca a reconhece por inteiro – negra e favelada, em um território sem tiros, onde moram os consumidores do tráfico, mas cidadãos de pleno direito. Trabalha sem carteira, sem previdência, sem transporte regular – paga “corrida particular” para conseguir voltar antes do toque de recolher [11]. Boa parte do salário se vai em produtos superfaturados por “fornecedores autorizados” pelo comando local. A água chega quando pode, a energia depende do “gato” da semana, e o gás vem do caminhão controlado pelos grupos que dominam a área – sempre com um intermediário, sempre com uma taxa extra. Cada serviço passa por alguém que cobra, vigia e autoriza. “É trabalhar para sobreviver e ainda sustentar o crime”, diz ela. “Se reclamar, perde o ponto de venda ou a casa.” O cotidiano é negociado assim, no varejo da sobrevivência, onde tudo tem preço e quase nada tem garantia.
O mapa do poder armado no Rio de Janeiro mostra o que pesquisadores chamam de “soberania fragmentada”: áreas onde o Estado perdeu o monopólio da força [12]. Nas últimas décadas, as comunidades passaram a ser disputadas por dois tipos principais de grupos: as milícias – formadas originalmente por policiais, ex-policiais e agentes de segurança que controlam serviços, cobram taxas e vendem uma sensação de ordem – e as facções do tráfico, que exercem poder a partir do domínio territorial e de redes ilegais de comércio. Ali, o exercício da cidadania é condicionado por quem manda no território. O voto, o emprego, o lazer e até a fé são filtrados por essa lógica de controle. Nas regiões milicianas, o poder se disfarça de ordem; nas faccionadas, de identidade e pertencimento. Nos dois casos, a vida cotidiana é regida pelo medo – e pela economia informal que dele nasce.
Jôsy sonha que os filhos tenham uma vida “lá embaixo”, como ela chama o asfalto. Mas o asfalto parece um país estrangeiro: o transporte é caro e demorado, as oportunidades escassas, o preconceito, diário. Ser mulher, negra e moradora de favela é carregar três fronteiras no corpo. E, quando o tiroteio começa, nenhuma dessas fronteiras protege.
Na ausência do Estado, o cuidado se torna forma de resistência. As vizinhas se organizam em mutirões: uma olha o filho da outra, outra cozinha para duas famílias, outra costura uniformes escolares. “Chamam de resiliência, mas é sobrevivência”, comenta uma educadora da região. “Essas mulheres fazem o que o Estado não faz: mantêm a vida em movimento.”
No fim do dia, Jôsy volta para casa com os pés doendo e o coração apertado. Liga a televisão, mas o noticiário fala de outra cidade – uma onde os tiros não interrompem aulas, e as mães não precisam calcular trajetos conforme a rota dos caveirões. É um Brasil que existe, mas que não a inclui. Naquele em que ela vive, os números da desigualdade têm nome e história. Os 41% de lares chefiados por mulheres têm rosto, cor e endereço. E as crianças registradas sem o nome do pai – mais de 8 mil só no Rio em 2022 [13] – são filhos de um país que naturalizou a ausência: a do Estado, a da Justiça e, tantas vezes, a da esperança.
“Não quero que meus filhos sejam do tráfico nem da polícia”, diz Jôsy. Quer que estudem, que trabalhem, que possam andar sem abaixar a cabeça. Parece pouco, mas para ela é muito. O futuro é uma palavra frágil nas favelas. Ainda assim, é o que move. Porque enquanto o Estado vê território, e as facções veem lucro, essas mulheres veem vida – e a defendem, todos os dias, com as armas que têm: afeto, coragem e, quando possível, pão quente na mesa.
NOTAS
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências.
[1] Paráfrase da expressão original de EVARISTO, Conceição, “A gente combinamos de não morrer”, em Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.
[2] Em 2022, o IBGE registrou que mais de 40% dos lares em favelas brasileiras são chefiados por mulheres, e que 70% delas trabalham na informalidade. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo 2022: Favelas e Comunidades Urbanas. Brasília: IBGE, 2024.
[3] FREIRE, Tâmara. IML do Rio identifica 100 dos 121 mortos na Operação Contenção. Agência Brasil, 30 out. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-10/iml-do-rio-identifica-100-dos-121-mortos-na-operacao-contencao
[4] AGÊNCIA BRASIL. Operação na Vila Cruzeiro deixa 23 mortos e provoca debate sobre letalidade policial. Brasília, 25 mai. 2022. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-05/operacao-na-vila-cruzeiro-deixa-23-mortos-e-provoca-debate-sobre-letalidade-policial
[5] Entre as pessoas que morreram, há uma predominância de jovens entre 20 e 30 anos, sendo que dois eram menores de 18 anos, um deles uma criança de 14; apenas três dos mortos tinham mais de 40 anos e o mais velho era um homem de 55 (BONETS, Vitor; LOPES, Bruna. Megaoperação no RJ: média de idade de suspeitos mortos é de 28 anos. CNN Brasil, 03 nov. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/megaoperacao-no-rj-media-de-idade-de-suspeitos-mortos-e-de-28-anos/).
[6] CNN BRASIL. Megaoperação no RJ: fotógrafo relata retirada dos corpos em comunidade. São Paulo: CNN Brasil, 29 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/megaoperacao-no-rj-fotografo-relata-retirada-dos-corpos-em-comunidade/
[7] O som das sirenes é uma presença cotidiana nas comunidades do Rio de Janeiro, especialmente durante incursões policiais. Relatos coletados pela Redes da Maré (Maré de Dados 2021, Rio de Janeiro, 2021) e pelo Observatório de Favelas (Relatório Vozes do Território: cotidiano e segurança pública nas favelas do Rio. Rio de Janeiro: Observatório de Favelas, 2020) descrevem o barulho das sirenes, sobretudo nas madrugadas, como um “sinal de alerta” que antecede confrontos armados e paralisa a rotina dos moradores.
[8] Em 2021, das 11.115 mortes de motociclistas registradas no Brasil, 88,1% eram homens; 30,8% tinham entre 20 e 29 anos; 64,9% eram pardos ou pretos; 39,6% tinham de 8 a 11 anos de escolaridade (Ministério da Saúde. Cenário brasileiro das lesões de motociclistas no trânsito – Brasil, 2011-2021. Boletim Epidemiológico – Vol. 54, Nº 6, 2023.) Estudos mais recentes indicam que 61,2% dos motociclistas envolvidos em acidentes se autodeclaravam pardos, com renda média de R$ 1.599,99 mensais (Galvão, P. V. M. et al. Características sociodemográficas e anos potenciais de vida perdidos por acidentes com motocicletas. Caderno de Saúde Pública (Cad. Saúde Pública), 2024.).
[9] Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF); Instituto Fogo Cruzado. Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro. Niterói: UFF, 2023.
[10] Segundo o Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro (GENI/UFF; Instituto Fogo Cruzado, 2023), o Complexo da Penha encontra-se sob domínio do Comando Vermelho (CV), com áreas de disputa esporádica com o Terceiro Comando Puro (TCP).
[11] Estudos do Instituto Pereira Passos (2023) e da Redes da Maré (2021) apontam que, em comunidades dominadas por facções ou milícias, as mulheres sustentam a maioria das famílias com rendas entre R$ 1.000 e R$ 1.400 mensais, quase sempre em ocupações informais – diaristas, cozinheiras, vendedoras ambulantes, cabeleireiras ou cuidadoras. Instituto Pereira Passos (IPP). Painel da Mulher Carioca 2023. Prefeitura do Rio de Janeiro, 2023; Redes da Maré. Maré de Dados 2021. Rio de Janeiro, 2021.
[12] MACHADO DA SILVA, Luiz Antônio (org.). Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/FAPERJ, 2008. ISBN 978-85-209-1997-7.
[13] ASSOCIAÇÃO DOS REGISTRADORES DE PESSOAS NATURAIS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (ARPEN-RJ). Relatório sobre Registros de Nascimento sem Nome do Pai – Rio de Janeiro, 2022. Rio de Janeiro: ARPEN-RJ, 2022. Disponível em: https://www.registrocivil.org.br/
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