4 de junho de 2026

Xadrez para entender os atos do Ministro Toffoli e a PF lavajatista – 2

O enfraquecimento de Toffoli interessa à Lava Jato, especialmente após as operações deflagradas contra a antiga 13ª Vara Federal de Curitiba.
Reprodução

Contrato da esposa de Alexandre de Moraes com Banco Master e vazamento pela PF geram controvérsia política e midiática.
Juiz Ricardo Leite, controverso na Lava Jato, teve caso Master assumido pelo STF e sorteado para Dias Toffoli.
Pacto entre governo Lula e Associação Nacional dos Delegados da PF mantém divisão política e vazamentos seletivos.

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Vamos a dois fatos relacionados:

  1. O tal contrato do escritório da esposa de Alexandre de Moraes com o Banco Master.
  2. O vazamento do contrato, captado pela perícia da Polícia Federal em um dos celulares de Daniel Vorcaro, o homem do Master.

O primeiro fato está rendendo notícias há semanas. Do segundo fato – o vazamento de uma informação, que deveria ser sigilosa, visando atingir um Ministro do Supremo Tribunal Federal – não mereceu sequer uma nota em tom de denúncia.

Este é um exemplo de como funciona a parceria delegados da PF-jornalistas lavajatistas na lógica da imprensa.

Peça 1 – o juiz controvertido

Desde o início, o caso Master reunia todos os ingredientes para se transformar em uma nova Lava Jato.

Havia, em primeiro lugar, a percepção de corrupção sistêmica e disseminada. O caso envolve múltiplos atores e diversos pontos de produção de informações, criando um ambiente propício para que personagens centrais utilizassem vazamentos seletivos como ferramenta de direcionamento das investigações.

Além disso, o processo foi distribuído ao juiz federal Ricardo Augusto Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, magistrado de atuação marcadamente controvertida.

Durante a Operação Zelotes — que antecedeu a Lava Jato e investigava corrupção no CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) — Leite adotou postura que gerou forte reação do Ministério Público Federal. Negou prisões preventivas requeridas pela acusação, revogou escutas telefônicas e bloqueou diligências consideradas essenciais. O MPF chegou a pedir formalmente seu afastamento, argumentando que as decisões estariam “prejudicando a investigação”. Consolidou-se, então, a imagem de um juiz resistente ao punitivismo característico das forças-tarefa.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 20 de junho de 2015:

“Multas contra empresas somando R$ 19 bilhões tiveram o julgamento alterado pela ação de uma quadrilha que atuava junto ao órgão. O Ministério Público, no entanto, disse que não conseguirá anular a maioria dos casos, porque várias decisões judiciais dificultaram a obtenção de provas.”

A guinada na Lava Jato

Posteriormente, Ricardo Leite assumiu o caso da Lava Jato no Distrito Federal — e adotou postura radicalmente oposta. Embora sem a visibilidade midiática de Sérgio Moro, tornou-se o mais radical e partidarizado dos juízes envolvidos na operação.

Coube a ele a decisão de cassar o passaporte de Lula. Antes disso, transformou o ex-presidente em réu por obstrução de justiça, decisão amplamente criticada pela fragilidade da base probatória. Em 2017, determinou a suspensão das atividades do Instituto Lula, justificando que “poderiam ter ocorrido delitos criminais” — formulação juridicamente problemática.

No mesmo período, Leite foi citado por um delator da JBS como magistrado passível de ser influenciado. A defesa alegou que ele havia proferido diversas decisões contrárias aos interesses da empresa, mas a menção permaneceu como mais um elemento controverso em sua trajetória.

A intervenção do STF

Diante desse histórico, a mais complexa operação pós-Lava Jato corria o risco de tramitar sob a condução de um juiz cuja imparcialidade estava sob suspeita. Provavelmente foi essa circunstância que levou o Supremo Tribunal Federal a avocar a operação, embora com fundamentação frágil. O caso foi então sorteado para o ministro Dias Toffoli.

Peça 2 – o partido da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal

A Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) consolidou-se como força política de peso. O movimento começou com a Operação Lava Jato — e não se tratava apenas dos delegados exibicionistas de Curitiba. Eu mesmo fui intimado duas vezes a prestar depoimento na Polícia Federal, na condição de testemunha, em inquéritos destinados a identificar supostas dissidências internas na corporação.

Vários delegados foram sacrificados pelo “partido da ADPF” unicamente por tentarem cumprir seu dever de forma profissional. O caso emblemático é o do delegado Mário Fanton, que caiu em desgraça após concluir inquérito sobre escuta clandestina na cela do doleiro Alberto Youssef.

Em uma das convocações, deparei-me com um verdadeiro tribunal inquisitorial: três delegados atrás de uma mesa, inquirindo-me com ar severo. Apresentaram-me um calhamaço para ler. Depois explicaram que a revista Veja havia denunciado que setores da inteligência da PF estariam vendendo um dossiê contra a Lava Jato. O tal dossiê não passava de uma compilação de reportagens de minha própria autoria. Mas a intenção era encontrar algum álibi para caçar dissidentes.

A República dos Delegados

Com a nomeação de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, houve a ascensão meteórica da ala de delegados diretamente vinculados à Lava Jato. Moro montou uma verdadeira República dos Delegados. O governo Bolsonaro, percebendo que perdia o controle da máquina, determinou a demissão de Maurício Valeixo da direção-geral da PF — movimento que acelerou a própria queda de Moro.

Peça 3 – o Pacto com a ADPF no Governo Lula

Com a eleição de Lula, configurou-se um quadro político complexo. No Congresso, o controle da Câmara pelo Centrão. Pairava incerteza sobre a posição das Forças Armadas, especialmente após os eventos de 8 de janeiro. E havia o avanço incontido do crime organizado em todos os níveis.

Diante dessas restrições, firmou-se um pacto com o Partido da ADPF — a essa altura, com a ala lavajatista enfraquecida. Indicou-se um diretor-geral tecnicamente qualificado. Porém, não se exigiu qualquer punição pelas irregularidades cometidas durante a Lava Jato.

Houve apuração contra delegados envolvidos com o bolsonarismo, mas o lavajatismo permaneceu incólume. Não se tratou sequer de preparar as novas gerações de delegados para que compreendessem a importância do trabalho impessoal e estritamente profissional da Polícia Federal.

O Legado da Politização

O resultado é uma corporação fraturada entre facções políticas, sem processo consistente de despolitização ou reafirmação de valores institucionais. A Polícia Federal, que deveria ser técnica e apartidária, tornou-se terreno de disputa entre projetos de poder — e o custo disso recai sobre a própria credibilidade das investigações e da justiça brasileira.

Com operações como a Colossus e a Carbono Oculto, parecia que a PF havia recobrado o profissionalismo. Com o caso Master, retornam os vazamentos sistemáticos. E não se fala em apuração, muito menos em punição dos responsáveis.

Critica-se intensamente Dias Toffoli por sua atuação atabalhoada — crítica em boa medida justificada. Mas negligencia-se o essencial: como impedir os vazamentos, especialmente aqueles com motivações políticas explícitas?

Os Interesses em Jogo

Evidentemente há muito a explicar da parte dos ministros do STF. Porém, é ainda mais evidente que o enfraquecimento de Alexandre de Moraes interessa diretamente ao mercado financeiro, ao crime organizado e ao bolsonarismo. Da mesma forma, o enfraquecimento de Toffoli interessa diretamente à Lava Jato, especialmente após as operações deflagradas contra a antiga 13ª Vara Federal de Curitiba.

A Velha Parceria Ressurge

A parceria entre delegados vazadores e jornalistas está conseguindo, mais uma vez, desviar o foco das atenções — exatamente como ocorreu na Lava Jato. Jornalistas que pareciam ter se afastado do lavajatismo voltam com força total, direcionando inicialmente seus ataques contra o Supremo Tribunal Federal.

O passo seguinte é previsível: transformar o caso Master na gazua para garantir a volta da Lava Jato e dos juízes pró-ativos. Vazamento após vazamento, constrói-se a narrativa de que o sistema institucional vigente é ineficaz, corrupto ou protetor — preparando terreno para o retorno do ativismo judicial punitivista.

Saindo da casca

A última ofensiva da ADPF foi uma nota pública criticando o comportamento do STF. A nota termina com votos de um acordo próximo. Seja quais forem os níveis da crítica, há um fato inconteste: se o STF determina, a PF tem que cumprir. Essa subordinação institucional, no entanto, fica ameaçada quando a mídia empodera a PF transformando-a em organização intocável.

Peça 4 – delenda Toffoli

Não se trata de defender irregularidades onde elas existam, seja no STF, seja em qualquer outra instância. Trata-se de reconhecer um padrão: vazamentos seletivos, cobertura jornalística alinhada, pressão pública crescente e, ao final, a desmoralização das instituições de controle em favor de um modelo de justiça espetacularizada e politicamente direcionada.

Enquanto o debate público se concentra nas polêmicas envolvendo ministros do STF, os verdadeiros condutores da operação midiático-judicial seguem impunes, reconstruindo as condições para uma nova era de excepcionalismo penal.

O último capítulo da ópera é o “delenda Toffoli”. Não se responde à questão central: quem foi o perito que vazou a informação? Mais ainda. A cadeia de custódia é o caminho documentado da prova — do momento em que ela nasce (apreensão) até o juiz bater o martelo. De algum modo, a cadeia de custódia dos celulares de Volcaro foi quebrada, permitindo o vazamento de informações. Quais as medidas que a PF está tomando para impedir a repetição dos malfeitos?

Essas são as questões básicas a serem discutidas no episódio em si.

No plano maior, a discussão deve ser sobre os efeitos do enfraquecimento de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli na luta da própria PF contra a corrupção e do país contra os abusos do bolsonarismo.

Finalmente, mais à frente, uma investigação minuciosa – em cima de eventuais provas colhidas pela PF profissional – das suspeitas que pairam sobre os Ministros.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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5 Comentários
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  1. AARONSCHWARTZviveee

    19 de janeiro de 2026 11:21 am

    AÍ q está Nassifão,não PUNIU NINGUÉM q cometeu graves infrações contra a própria profissão e se eles TOMAM O PODER DE NOVO?Aff,incrível q se passaram dez anos e não aconteceu nada com quem COMETEU ABUSOS aff,nem ao menos as pessoas percebem q estamos em uma GUERRA INVISÍVEL desde 2015 devido uma crise Institucional fomentada por uma mídia bilionária mimada e aplaudida por especuladores financeiros adorando o caos para poder fazer a limpa em bens dos nossos empresários,eu fico MARAVILHADO por estar vivendo todo este incrivel processo provocado no nosso País !!!

  2. fabricio coyote

    19 de janeiro de 2026 12:32 pm

    se o sistema de justiça tivesse vergonha não deveria sequer pairar dúvidas sobre sua conduta, como a mulher de César.. então se há uma banda podre da pf, tudo está sob suspeita.

  3. Ernestogmv

    19 de janeiro de 2026 2:06 pm

    “O último capítulo da ópera é o “delenda Toffoli”. Não se responde à questão central: quem foi o perito que vazou a informação?”
    Se o problema é esse, então está justificada a atitude do Toffoli de nomear e expor os nomes dos peritos responsáveis para investigar os aparelhos apreendidos do caso Master.

  4. Luiz Felipe

    20 de janeiro de 2026 2:04 pm

    Entendo e concordo.
    Mas com o envolvimento de parentes, amigos, Toffoli poderia ser humilde e se retirar do caso.
    Isso resgardaria sua imagem e so STF.

    1. Pinto Cruel

      22 de janeiro de 2026 6:27 pm

      De jeito nenhum, pra pôr quem no lugar? Fux? Mendonça? Marques?
      Isso é exatamente o que o “sistema lava jato” quer!

      Cabe ao MJ separar o joio do trigo na PF; empoderar e COBRAR o Delegado Geral nessa direção..

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