Jornalismo visceral como escolha ética
por Cilene Victor
Em um mundo atravessado por mais de 120 conflitos armados, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o jornalismo ocupa posição estratégica. Ao narrar a guerra, participa da construção da maneira como a sociedade compreende responsabilidades, causas e consequências, podendo esclarecer ou simplificar, responsabilizar ou polarizar. Essa dimensão torna-se visível nos momentos em que a informação circula sob pressão e o tempo parece comprimir decisões editoriais.
Foi nesse ambiente de tensão global que o mundo acordou, no último sábado, com a notícia de que Estados Unidos e Israel haviam atacado o Irã. Horas depois, surgiram informações sobre a morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei. A confirmação só viria mais tarde, pela imprensa oficial do próprio país. Nesse intervalo, muitos veículos optaram por cautela, registrando o momento de cada anúncio, distinguindo declarações oficiais de confirmações independentes e evitando conclusões precipitadas.
Esse cuidado revela uma preocupação legítima com a formação de uma opinião pública capaz de compreender a complexidade dos fatos e suas causas estruturais. Em cenários de guerra, a diferença entre informar e moldar percepções ultrapassa o campo técnico. É uma questão ética.
Surpreende, nesse contexto, a publicação do editorial do Estadão intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã”. O título não é apenas provocativo. Ele desloca o debate da análise dos fatos para a legitimação prévia de uma indiferença.
Chorar não é, por si só, um ato político à altura de uma escalada de violência. Pode produzir fadiga da compaixão, na formulação de Susan Moeller, ou alimentar a passividade diante do sofrimento em massa. Ainda assim, o luto é o primeiro reconhecimento da humanidade do outro. É o gesto que recoloca pessoas no centro de narrativas frequentemente dominadas por abstrações.
Ao afirmar que ninguém chorará por um país, o editorial transfere o foco das pessoas para a abstração estatal. Não se chora por Estados. Chora-se por pessoas. Por aqueles que raramente aparecem nos enquadramentos além da estatística.
O problema, portanto, não reside apenas na opinião expressa, mas na moldura narrativa que a sustenta. Ao transformar acontecimentos complexos em embates morais entre forças legítimas e inimigos absolutos, elimina-se a dimensão humana e naturaliza-se a violência. Esse é o terreno fértil do jornalismo visceral, marcado pela intensidade emocional, pela simplificação e pelo apelo à reação imediata.
O jornalismo humanitário e o jornalismo de paz surgiram justamente para enfrentar essa lógica. Não existem para neutralizar ofensivas ou suavizar regimes autoritários, mas para ampliar vozes, contextualizar causas estruturais, examinar consequências de longo prazo e evitar enquadramentos que reforcem antagonismos irreversíveis. Seu objetivo é recolocar civis no centro da narrativa.
Aprendemos com Johan Galtung que a paz negativa se limita à ausência de guerra, enquanto a paz positiva pressupõe justiça, instituições sólidas e atuação sobre as causas estruturais dos conflitos. Ignorar essa distinção aproxima o jornalismo da lógica da força e o afasta de sua responsabilidade pública.
A questão central não é defender governos nem ignorar violações cometidas por regimes autoritários. É afirmar que o jornalismo não é tribunal nem quartel. Sua função é informar com rigor, pluralidade e responsabilidade ética, especialmente quando vidas estão em jogo.
O título de um editorial pode ser concebido para provocar. Mas, em tempos de escalada de violência, provocar significa intensificar tensões e transformar leitores em torcida. O jornalismo que promove o conflito não apenas o descreve, mas o reforça simbolicamente.
Sustentar a complexidade, reconhecer o sofrimento civil e preservar o compromisso com a humanidade é o que distingue o jornalismo de outras formas de discurso. Em um mundo em frangalhos, esse compromisso não pode ser retórico. Ele é civilizatório.
_____
Cilene Victor é professora titular dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e Ciências da Religião, da Universidade Metodista de São Paulo, onde é líder do grupo de pesquisa Jornalismo Humanitário e Media Interventions (HumanizaCom). É co-fundadora da Global South Perspectives Network.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário