5 de junho de 2026

O Vazamento no Apartamento Brasil, por Henrique Morrone

A tendência de sistemas complexos discutirem responsabilidades enquanto problemas concretos continuam a se expandir.
Arquivo Agência Brasil

Neusa e Azevedo alugam apartamento no Edifício Regina, enfrentando vazamento que compromete o imóvel.
Empresa terceirizada gerencia o vazamento, avaliando custos e riscos, mas sem garantia imediata de conserto.
Disputa sobre responsabilidades envolve proprietário, condomínio e inquilinos, enquanto o vazamento persiste.

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O Vazamento no Apartamento Brasil

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por Henrique Morrone

Neusa, economista neoclássica, e Azevedo, político liberal, decidiram unir trapinhos.
Não foi paixão.

Foi tesão milimetricamente calculado.

De um lado, conveniência política. Do outro, a velha conveniência teórica de que agentes racionais sempre maximizam algo — nem que seja uma convivência desajustada.

Resolveram alugar um apartamento no Edifício Regina, unidade conhecida no mercado imobiliário como apto Brasil.

O imóvel parecia promissor, atendendo ambos a contento.

Neusa gostou da lógica contratual, bem amarrada, quase estéril.
Azevedo gostou da visibilidade da varanda, com sua exposição fácil — não menos necessária.

Instalaram-se numa sexta-feira, empilhando livros, discursos e algumas crenças metodológicas bem modeladas. O edifício tinha história: reformas periódicas, assembleias agitadas e promessas recorrentes de modernização. Nada fora do comum em estruturas que sobrevivem graças a uma mistura de improviso e esperança institucional.

Na primeira noite quente, algo a arrepiou — e não foi o marido.

Foi quando Neusa se olhou no espelho e não se reconheceu.
Havia ali uma imagem levemente deformada, ondulada pela água que já corria por dentro da parede.

Foi quando ouviram.

Ping.
Ping.
Ping.

A água escorria por dentro, infiltrando o espelho, estufando paredes, desprendendo azulejos e embolorando os cantos.

Azevedo foi direto:

— Vazamento. Precisamos contê-lo o quanto antes.

Neusa preferiu formular hipótese.

— Pode ser apenas um desajuste temporário no sistema hidráulico.

Ela não parecia particularmente alarmada.

— Sistemas complexos costumam convergir ao equilíbrio — desde que ninguém interfira cedo demais.

Ligaram para a imobiliária.

Depois de alguns minutos de música instrumental, uma voz paciente explicou que a gestão hidráulica do edifício havia sido terceirizada para uma empresa especializada em gerenciamento de vazamentos.

— Gerenciamento? — perguntou Azevedo.

— Sim. Eles monitoram o vazamento, decidem quem deve arcar com a conta e providenciam um orçamento. Depois de feito, foram necessários mais dois — um para validar o primeiro e outro para comparar riscos.

— E consertam? — insistiu Azevedo.

— Dependendo da análise técnica.

— Ufa… — disse Neusa. — Com a terceirização, fico aliviada. É uma especialização: uma alocação para o agente mais eficiente, aquele que melhor sabe gerenciar o risco.

Fez uma pausa, olhando para o teto.

— Azevedo, sabia que terceirização, na prática, inexoravelmente vem acompanhada de precarização.

Foi a primeira briga do casal — e não seria a última.

O ping continuava.

A terceirizada rebolava.

Neusa parecia pensativa.

— Se consertarmos apenas este ponto, podemos gerar incentivos perversos — e nos próximos vazamentos teremos de pagar novamente.

Azevedo acrescentou outra panela.

— No curto prazo, estamos lascados. Perderemos a cozinha.

Neusa respondeu com calma:

— Sacrifícios de curto prazo podem gerar ganhos de longo prazo.

Azevedo olhou para a água que começava a se espalhar pelo chão.

— O eleitorado sempre mora no curto prazo.

Neusa assentiu.

— O longo prazo costuma chegar silencioso.

Ligaram novamente.

A empresa terceirizada explicou que seu papel era administrar o vazamento dentro de parâmetros aceitáveis.

— Aceitáveis para quem? — perguntou Azevedo.

— Para o sistema.

Neusa assentiu.

— Faz sentido.

Quando se pensava que o proprietário finalmente arcaria com o prejuízo, surgiu outro problema.

A avaliação indicava que o vazamento poderia advir da coluna de água do condomínio Regina. Agora o teatro ganhava novas matizes: proprietário, condomínio, inquilinos.

Enquanto isso, o vazamento continuava comprometendo o Estado do apartamento Brasil.

Não atentaram para fechar o registro das más ideias. Quando lembraram, preferiram não desgastar a válvula.

Ping.
Ping.

E o relatório ainda estava em fase final de elaboração. Assim como o contrarrelatório.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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