4 de junho de 2026

Ouro Preto e os modernistas, por Walnice Nogueira Galvão

Só aprecia devidamente o casario alvinitente aninhado nas sinuosidades das montanhas quem contempla a arte de Guignard.
Guignard

Em 1924, modernistas visitaram cidades mineiras do ciclo do ouro, inspirando-se no barroco colonial e na arte do Aleijadinho.
Manuel Bandeira publicou em 1938 o Guia de Ouro Preto, com apoio do IPHAN e do ministro Gustavo Capanema.
Ouro Preto foi a primeira cidade tombada no Brasil, com restaurações e preservação lideradas por Lourival Gomes Machado.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Ouro Preto e os modernistas

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Walnice Nogueira Galvão

Podemos agradecer aos modernistas a sobrevida e o prestígio de que desfruta o barroco colonial.

Em 1924, apenas dois anos depois da Semana de Arte Moderna, eles trocaram Paris pelas cidades mineiras do ciclo do ouro. O pretexto foi comboiar o poeta suíço Blaise Cendrars. Da comitiva faziam parte Mário de Andrade (que nunca foi a Paris, mas já tinha ido a Minas Gerais), Oswald, Tarsila do Amaral, Nonê, Olivia Guedes Penteado, Gofredo Silva Telles e René Thiollier. Na volta, passaram por Belo Horizonte para confraternizar com a turma de Carlos Drummond de Andrade. Este, que consagraria parte de sua poesia às cidades mineiras, comporia o inspiradíssimo “Hotel Toffolo”, levando muita gente boa a hospedar-se na modesta pousada de Ouro Preto. Em estado de graça, embalado pelo andamento bíblico, o poeta exclama:  

“E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes e outros alimentos.
Como se a cidade não nos servisse o seu pão de nuvens.
Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
E só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica, tudo, no coração, é ceia”.

Os excursionistas foram arrebatados pela beleza das igrejas barrocas e pela arte do Aleijadinho, que ainda não era conhecido. Foi ali que nasceu uma concepção crucial: essas cidades, paralisadas no tempo pelo súbito esgotamento do ouro que as gerara, e ademais berço da literatura dos Árcades, testemunhavam a eclosão de uma grande arte genuinamente brasileira.

Sinais ficariam na polifacetada obra de Mário, nos croquis de Tarsila com a crônica da excursão e, de Oswald, o “Roteiro das Minas” somado aos “Poemas da colonização” (Pau Brasil) e ao poema “Ocaso”, que muitos consideram a culminação de sua lira. Tendo por fecho o belíssimo dístico formado por um par de redondilhas maiores, traz admirável síntese, verdadeira epifania colhida no ar:

“Bíblia de pedra-sabão
Banhada no ouro das minas”

Tempos depois, sairia O Guia de Ouro Preto (1938), da autoria de Manuel Bandeira e iniciativa do recém-fundado Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacioanl (futuro IPHAN), criação do ministro Gustavo Capanema, com anteprojeto de Mário de Andrade. O novo ministério congregava uma elite de modernistas, sendo Carlos Drummond de Andrade chefe de gabinete. Sorte nossa, pois temos um maravilhoso tratado turístico, realizado com erudição e bom gosto por um grande poeta – algo de que raramente um país pode se vangloriar.

Mais tarde, o IPHAN  encarregaria  Lourival Gomes Machado, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e um dos mais influentes críticos de arte do país, de documentar as obras de restauração de Congonhas do Campo. É onde fica o santuário de São Bom Jesus de Matozinhos, tendo no adro a majestosa plêiade de doze profetas do Aleijadinho em pedra-sabão, e mais 66 estátuas em madeira polícroma, dentro das capelinhas dos Passos.

O resultado, Reconqusta de Congonhas, um volume em papel couché e encadernado, registrou com minúcia o que foi o primeiro empreendimento de tão colossal ambição  no país. 

Seu autor já publicara pioneiramente escritos sobre o barroco e ocuparia importantes postos institucionais na direção do Museu de Arte Moderna, da Bienal Internacional de Arte e da Faculdade de Arquitetura (FAU), bem como na Unesco, onde trabalhou no salvamento de Florença, ameaçada por uma cheia do Arno. Tudo isso concorreria para a instauração de uma política cultural de preservação dos acervos arquitetônicos, hoje consolidada. Ouro Preto seria nossa primeira cidade tombada, inicialmente pelo Brasil e depois pela Unesco.

Quem imortalizou Ouro Preto na pintura foi Guignard, morador da cidade. Só aprecia devidamente o casario alvinitente aninhado nas sinuosidades das montanhas quem contempla a arte de Guignard. São paisagens idealizadas da cidade envolta em bruma, onde sobressaem esfumadas as magníficas igrejas barrocas que ocupam contrafortes de altura variada. E tudo isso emergindo visionariamente das nuvens, em meio aos balões de São João em ímpeto ascensional, fazendo o conjunto levitar. Tais telas bem que poderiam se intitular: “Ouro Preto subindo aos céus”.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Leia também:

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados