Cantei, desde o começo do caso Master, a tentativa de transformá-lo em uma Lava Jato 2. A parceria entre peritos da Polícia Federal e jornalistas lavajatistas deixava claro o roteiro. Primeiro, desqualificar o Supremo Tribunal Federal (STF). Essa estratégia só diluiu quando não dava mais para esconder as relações de Daniel Vorcaro com Flávio Bolsonaro, com o Banco Regional de Brasilia e Ciro Nogueira
A intenção era anular o STF e o Tribunal Superior Eleitoral para permitir o passo seguinte: a plena liberdade ao partido digital, dominado pela ultradireita bolsonarista.
Depois, um conjunto de medidas agressivas dos Estados Unidos em relação ao país, para vender o peixe de que a única saída seria a eleição de um candidato alinhado com Donald Trump. Obviamente, o controle das redes sociais seria essencial para a venda dessa versão.
Primeira tentativa, o tarifaço de Trump foi um tiro no pé. Primeiro, pelos efeitos sobre a própria economia norte-americana. Depois, pela reação de Lula, erigido imediatamente na condição de grande liderança global contra Donald Trump. A reação de Trump foi a de sempre, recuou, descobriu uma afinidade com Lula, aproximou-se formalmente.
Agora, retoma a ofensiva em base mais institucional, mas com o mesmo objetivo de desestabilizar o governo.
1. Comércio digital e pagamentos eletrônicos
Como Queríamos Demonstrar (CQD), uma das alegações da USTR (United States Trade Representative) é que as cortes brasileiras emitiram ordens secretas mandando plataformas dos EUA derrubarem conteúdo político e suspenderem perfis de residentes americanos, às vezes globalmente, proibindo as plataformas de revelar essas ordens, além de impor multas pesadas, restringir acesso a ativos e contas, e em ao menos um caso derrubar um site inteiro.
O que isso tem a ver com acordos comerciais? Só ao final é que aparece pagamentos: o Brasil teria desfavorecido empresas americanas de pagamento eletrônico, inclusive com políticas que favorecem seu “national champion”. Ou seja, a ofensiva contra o PIX.
Agora, cada vez que o TSE ou o STF derrubar um influenciador ligado aos Bolsonaro, terá que enfrentar a represália do USTR.
2. Tarifas preferenciais (Mercosul–México/Índia)
O USTR alega que, via acordos de escopo parcial com México e Índia — em setores em que esses países são produtores globalmente competitivos —, o Brasil dá tratamento tarifário preferencial a centenas de produtos mexicanos e indianos. A Secom contra-argumenta que esses acordos não restringem o acesso de produtos americanos e que insumos de origem americana incorporados a produtos brasileiros se beneficiam dos acordos do Mercosul.
3. Aplicação de leis anticorrupção
O USTR é lacônico e duro: o Brasil falharia em tomar ação suficiente para combater suborno e corrupção. A Secom responde com densidade factual: adesão aos instrumentos internacionais, +30 acordos de leniência desde 2017, e uma proposta de abril/2026 ao Departamento de Estado contra crime organizado e corrupção. Aqui o Brasil tem o argumento mais documentado e o USTR, a alegação mais vaga — vale notar que “anti-corruption enforcement” é o item mais politicamente sensível, dado o histórico Lava Jato e o pano de fundo Bolsonaro.
4. Propriedade intelectual
O USTR detalha: falha em aplicar leis penais e aduaneiras contra produtos falsificados; demora excessiva no exame de patentes, em especial biofarmacêuticas; e falta de medidas antipirataria consistentes. Nada sobre o contrabando de armas, dos EUA para o Brasil.
A Secom não responde ponto a ponto — não trata do backlog de patentes do INPI nem da pirataria. Ela vira o argumento: os EUA são os maiores beneficiários do sistema brasileiro (≈30% dos pedidos de patente, US$ 1,38 bi em royalties em 2024). O ponto do USTR sobre lentidão do INPI fica sem resposta direta. E nem se levanta o escândalo do acordo Trips – a manobra de José Serra para conceder patente até a medicamentos sem direito a patentes em seus países, e que foi preservado graças à gaveta da relatora Carmen Lúcia, que escondeu o inquérito até o final.
5. Etanol
O USTR alega que em 2017 o Brasil descontinuou abruptamente o tratamento tarifário equilibrado do etanol e desde então não dá reciprocidade às exportações americanas. A Secom confirma a assimetria mas a relativiza e contra-ataca no açúcar: tarifa de 18% do Brasil contra 12,5% dos EUA (“diferença relativamente pequena”), enquanto o açúcar brasileiro enfrenta cota ínfima (~150 mil t) e tarifa equivalente a 80% acima da cota. Este é o item em que a Secom muda o eixo da conversa: aceita a queixa do etanol e abre uma frente nova (açúcar) que o USTR não tratou.
6. Desmatamento
O USTR reconhece que o Brasil tem arcabouço legal, mas alega que historicamente falhou em aplicá-lo e que o desmatamento ilegal persiste. A Secom responde com a série recente: meta de desmatamento zero até 2030, queda de ~50% na Amazônia Legal vs. 2022, área queimada -40% em 2025, e dados do MapBiomas (menor nível em 7 anos). Note o jogo temporal: o USTR usa “historicamente”; a Secom usa o período Lula pós-2023. A hipocrisia da história é que Donald Trump tirou os EUA do acordo de Paris, de preservação ambiental.
Consequências
As peças estão na mesa. Durante o ano, o USTR vai adotar uma série de medidas contra empresas brasileiras, criando um clima de instabilidade e tentando vender Flávio Bolsonaro como a âncora.
Do outro lado da ponte, no entanto, tem as terras raras, os datacenters e uma parceria cada vez mais estreita com a China e os BRICS.
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fabricio coyote
3 de junho de 2026 2:05 pme mais fácil uma narrativa confortável e venal. difícil seria o governo brasileiro ter uma atitude altaneira e aplicar reciprocidade e desativar a base alcântara, por exemplo. mas no meio do caminho há uma diplomacia que aceita factualmente extermínios e chacinas, ao que acontece aos persas, e no papel é veementemente contra a “guerra” enquanto o Irã é xovardemente atrevido. é isso q dá Lula dizer que teve receio (medo) de ser distratado enquanto no encontro com tramp
Marcos Vinicius
3 de junho de 2026 3:49 pmEntão né… – a nossa diplomacia não percebe que os Estados Unidos não querem negociar nada? Não percebem que não se trata de comércio? Não percebem que os americanos não querem solução? Temos déficit comercial – pelo o quê estamos negociando? Para mais déficit? Sob qual concessão? Para meia dúzia de empresas continuar exportando para lá? [eu sei que muitas empresas exportam produtos de alto valor agregado – até aí tudo bem – mas continuamos com déficit comercial]. Os americanos arrumam qualquer pretexto para fugir da negociação – são sempre evasivos – eles não querem negociar nada, querem somente alimentar o impasse para justificar futuras ações e pretexto para tal – exemplo disso foi o próprio Lula comentando sobre a reunião com o Trump. Os negociadores do Brasil explicavam: temos déficit comercial com vocês, empresas americanas recebem uma tarifa baixa de importação [zero em alguns casos] e a equipe do Trump repetia o mesmo roteiro: que não recebem tratamento justo, que as empresas americanas pagam muitas tarifas, que o Brasil é injusto etc. É sempre um teatro armado para anular qualquer reação ao país adversário. É sempre para fugir de um acordo. Fazem isso como tática – fingem negociar, induzem ao erro, esticam o máximo de tempo essas negociações, tentam extrair vantagens – quando conseguem o que querem do país adversário arrumam um jeito de anular qualquer acordo ou cercar os efeitos desse acordo – nunca está bom, nunca é o melhor acordo e ainda acusam o outro parceiro comercial de não oferecer nada, etc e etc -. É preciso avaliar o risco do mercado americano. Aos empresários: estão com interesse de fazer negócios com os Estados Unidos? Ótimo! Arquem com esse ônus. Não tem o que fazer. Não será com o Flávio Bolsonaro que isso vai mudar. Nem com o pai dele na presidência o Brasil alterou essa dinâmica comercial com os Estados Unidos. Pelo contrário – os Bolsonaros na presidência serviram para os americanos apenas como sentinelas de que o Brasil não reagiria em sua agenda global – só isso. Os Estados Unidos não querem solução – talvez o que incomoda no governo Trump-Rubio é que o Governo Lula insiste em (e deve) buscar uma resolução de um impasse criado pelo próprio governo americano!
JOTACITYSAMPA
3 de junho de 2026 4:03 pmBEM VINDOS.AO MUNDO.80 POR CENTO DE PARLAMENTARES BOLSONARISTAS AONDE ENDINHEIRADOS E INVESTIDORES MIMADOS SÓ QUEREM MAMAR NO.BRASIL.SEM TRABALHAR !!! AFF !!!
Veritas
3 de junho de 2026 4:45 pmFica evidente que a gestão Trump não quer negociar nem fazer acordos com o Brasil. Deseja colocar um preposto aqui. Também quer desestabilizar, tarifar e guerrear contra o Brasil e o mundo, além de superproteger o próprio mercado produtor de etanol, soja, milho, carne, maquinário pesado etc. O Brasil tem plenas condições de ampliar sua pauta de exportações com outros países. Não podemos trocar o promissor e crescente mercado asiático e do sul global pelo americano nem perder tempo com países que historiamente muito mais nos atrapalham que nos ajudam. Quando negociamos, falamos com franqueza e fazemos observações verdadeiras e construtivas para ajuda´-los, somos tariflaviciados e atacados, sendo considerados inimigos, tendo mesmo lideranças perseguidas e até assassinadas por eles. A gestão Trump aceita somente aduladores que sempre repetem “we are the best”, enquanto a podridão das invasões, as guerras comerciais e as guerras mortíferas prejudicam fetidamente o mundo todo.
WRamos
3 de junho de 2026 4:52 pmAs tarifas dos EUA não serão aplicadas a importação de alguns produtos essenciais para eles. O Brasil deveria taxar a exportações dos produtos lá isentados para arrecadar aqui tudo que for arrecadado nos EUA sobre os produtos taxados. Reciprocidade no equilíbrio tributário.