Um estudo da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, publicado no Journal of the National Comprehensive Cancer Network, reforça o papel do exercício físico na proteção cognitiva de pacientes em quimioterapia. A pesquisa concluiu que a prática de atividade física moderada pode reduzir os danos ao raciocínio, à memória e à concentração provocados pelo tratamento oncológico.
O fenômeno, conhecido em inglês como chemobrain, descreve um conjunto de alterações cognitivas que afeta boa parte dos pacientes em quimioterapia. Estima-se que três em cada quatro pessoas submetidas ao tratamento experimentem algum grau desse “nevoeiro cerebral”, que se manifesta como raciocínio mais lento, esquecimento de informações recentes e dificuldade para realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo. O impacto vai além do aspecto clínico — a condição compromete o trabalho, as relações sociais e a rotina dos pacientes. Por não haver exames de imagem ou laboratoriais capazes de diagnosticá-lo, o chemobrain é identificado com base nos sintomas relatados.
As causas exatas ainda não estão totalmente esclarecidas. “A principal hipótese seria um estado inflamatório leve, mas crônico, de certas áreas do cérebro, causado pela quimioterapia”, explica o oncologista Sergio Simon, do Hospital Israelita Einstein. O mecanismo envolveria um desequilíbrio entre proteínas pró e anti-inflamatórias produzidas pelo organismo — e é justamente aí que o exercício entra em cena, pois a atividade física favorece a produção das substâncias anti-inflamatórias.
Estudo
Os pesquisadores acompanharam 687 voluntários em tratamento quimioterápico, divididos em dois grupos. O primeiro seguiu apenas o protocolo médico convencional, com sessões a cada duas semanas. O segundo recebeu também uma prescrição de exercícios, combinando caminhadas e movimentos simples de resistência com banda elástica — atividades pensadas para serem realizadas em casa, sem necessidade de equipamentos ou academia.
Antes e ao final de seis semanas, todos os participantes foram submetidos a testes de rapidez de raciocínio, avaliações de fadiga mental e exames de sangue para medir marcadores inflamatórios.
O grupo ativo relatou menor declínio cognitivo e menos fadiga mental ao longo do período. Em média, esses pacientes caminharam 5.000 passos por dia. Já os que não fizeram exercícios reduziram sua movimentação pela metade ao longo do tratamento.
O achado ganha relevância porque, até o momento, não existe um tratamento consolidado para o chemobrain. “Há relatos na literatura que vão de meditação e uso de medicações até jogos eletrônicos de raciocínio, mas todos sem comprovação científica convincente”, observa Simon. Intervenções simples, acessíveis e de baixo custo, como a caminhada, passam a ter, portanto, um valor ainda maior nesse contexto.
Convencer pacientes oncológicos a se movimentar não é tarefa simples. O cansaço e a fraqueza decorrentes tanto da doença quanto do tratamento são obstáculos reais. Para o oncologista do Einstein, envolver a família nesse processo é um caminho eficaz para aumentar a adesão. Quando possível, contar com o acompanhamento de um profissional de educação física pode potencializar ainda mais os resultados.
“A maioria dos oncologistas já recomenda exercícios durante o tratamento como medida de bem-estar e qualidade de vida”, afirma Simon. A nova pesquisa oferece uma base científica mais sólida para essa orientação.
*Com informações da Folha e Agência Einstein.
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