Cidades brasileiras começaram a distribuir pela rede pública remédios como semaglutida e tirzepatida, as chamadas “canetas emagrecedoras”, sem aguardar a incorporação formal pelo Sistema Único de Saúde. O movimento acende um debate sobre custos, equidade e os limites da autonomia municipal na saúde pública.
O Rio de Janeiro foi o estopim. Depois que a capital fluminense estruturou um programa com semaglutida, outras cidades seguiram o caminho: Urupês e Sorocaba, no interior paulista, já têm protocolos próprios em funcionamento. Palmas, Cuiabá, Feira de Santana e o estado de Santa Catarina estudam fazer o mesmo. No campo oposto, grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre dizem aguardar orientação do governo federal.
O cenário se forma num momento em que o mercado global de medicamentos para obesidade projeta movimentar US$ 150 bilhões até 2030, segundo estimativa do banco Morgan Stanley.
O avanço local contraria, ao menos no ritmo, a avaliação federal. Em agosto de 2025, a Conitec, comissão que assessora o Ministério da Saúde na incorporação de novas tecnologias ao SUS, recomendou não incluir a semaglutida no sistema. Os argumentos foram o alto impacto financeiro, estimado em até R$ 7 bilhões em cinco anos, e incertezas sobre o tempo necessário de uso. O órgão defende que o tratamento da obesidade deve partir de mudanças de estilo de vida, como alimentação adequada, atividade física e acompanhamento psicológico.
Ainda assim, municípios seguiram adiante amparados pela autonomia constitucional de gerir recursos próprios. O Rio desembolsou R$ 42,4 milhões para adquirir semaglutida. Urupês investiu cerca de R$ 200 mil em tirzepatida, justificando a compra pelo índice de sobrepeso local, estimado em 43% da população.
Crítica política
Entidades médicas acolhem a iniciativa com ressalvas. Para Fabio Trujilho, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), nada impede que municípios criem linhas de cuidado mais completas, desde que o tratamento seja individualizado e associado a mudanças de comportamento. O vice-presidente da Abrasco, Reinaldo Guimarães, reconhece que os novos medicamentos representam uma “revolução terapêutica”, mas alerta que sua distribuição deve, obrigatoriamente, estar vinculada a um protocolo de cuidado integral.
A crítica mais contundente vem da área de saúde pública. Para a farmacêutica Cristina Ruas, doutora pela UFMG, o SUS deveria priorizar medidas estruturantes, educação alimentar, taxação de ultraprocessados e subsídios para alimentos in natura, antes de apostar na via farmacológica. Ela questiona a motivação por trás da corrida municipal. “Eu vejo isso mais como uma decisão eleitoral”, disse, lembrando que o lucro com essas substâncias vai para os países de origem dos fabricantes, enquanto o Brasil já trabalha para produzir o insumo farmacêutico ativo internamente.
O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Neuton Dornelas, tenta equilibrar os dois lados: o ideal seria uma política nacional unificada, mas, diante das desigualdades financeiras do país, é “aceitável que municípios possam se antecipar”.
O debate, no fundo, reflete uma tensão mais ampla: como responder com urgência a uma epidemia que atinge 26% dos adultos brasileiros sem abrir mão da responsabilidade fiscal e da equidade no acesso à saúde pública.
*Com informações da Folha de São Paulo.
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