10 de junho de 2026

Semana Euclidiana: Dr. Galotti (1), por Walnice Nogueira Galvão

Tendo criado a Semana Euclidiana em 1938, junto a valente grupo de euclidianos pioneiros, em S. José do Rio Pardo, devotou-se a expandi-la.

Oswaldo Galotti, médico e cidadão benemérito, viveu em São José do Rio Pardo até 1964, quando foi preso no golpe militar.
Galotti dedicou-se à preservação da memória de Euclides da Cunha, criando a Semana Euclidiana em 1938 e envolvendo jovens na Maratona Euclidiana.
Organizou eventos e ações para preservar locais e objetos ligados a Euclides, incluindo tombamento de sua casa e traslado dos restos mortais.

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Semana Euclidiana: Dr. Galotti (1)

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por Walnice Nogueira Galvão

Mesmo  não sendo originário de São José do Rio Pardo, Oswaldo Galotti (1911 – 2001) instalou-se na cidade logo que se formou em Medicina no Rio de Janeiro, em 1035. Ali viveria até 1964. Logo se tornaria cidadão benemérito, colaborando com várias atividades como a Santa Casa e empenhando-se na constituição de vasta clientela. Fez parte dessa adesão à vida pública a dedicação ao Estatuto da Terra, promulgado pelo governo Jango Goulart, pelo qual ajudaria a criar duas Ligas Camponesas, uma em São José do Rio Pardo e a outra na vizinha Casa Branca. Tanto bastou para excitar a sanha dos reacionários. Quando do golpe de 1964, sua casa foi invadida e depredada, e ele preso.

Foi tratado não como um cidadão respeitável, ignorando-se os 30 anos de dedicação à cidade, mas como um biltre. Adeus à maquete de Canudos – minuciosa e realista – que tinha mandado fazer e que foi esmigalhada pela brutalidade dos esbirros da repressão. Jamais teve outra: e por esse fato pode-se aquilatar sua mágua, que nunca mencionava. Vivo fosse e certamente teria essa ignomínia documentada pela Comissão da Verdade, criada depois de sua morte.

Ao sair da prisão, abandonou a cidade e mudou-se definitivamente para São Paulo, mas não abandonou as lides euclidianas.

A dedicação à memória de Euclides foi o farol de sua vida, em trajetória de que não se desviou um só instante. Euclides tampouco era dali, pois seu berço era Cantagalo (RJ), mas ali escrevera Os sertões, e convivera com os intelectuais da terra, a quem lia trechos em voz alta. Todos se empenharam em ajuda-lo, providenciando livros e copistas para seus manuscritos.

Tendo criado a Semana Euclidiana em 1938, junto a um valente e abnegado grupo de euclidianos pioneiros, de dentro e de fora de São José do Rio Pardo, devotou-se a expandi-la. Presidiu-a até sua morte, meio século depois.

Uma de suas grandes ideias foi envolver os jovens. Para tanto criou a Maratona Euclidiana, concurso de competênnia na vida e na obra do escritor, convocando delegações de alunos de secundário que acorriam do país todo. Com os jovens , a Semana tornou-se uma festa, com o pacato burgo provinciano sendo ocupada por uma outra geração, que desfilava em cortejo, colorindo ruas e praças.

A parte séria era dedicada a uma programação de conferências por especialistas e amadores, bastando que fossem leitores de Euclides. Entra ano, sai ano, a organização cabia aos membros dedicados daquele núcleo de pioneiros.

Foram conquistas sucessivas:

  1. O engajamento progressivo do poder púbico, até que se tornasse evento oficial da cidade
  2. Instituição de um lugar de memória, com preservação e tombamento da cabana à beira-rio onde Eudlides escreveu Os sertões enquanto supervisionava as obras de recuperação da ponte, que uma cheia do Rio Pardo levara de roldão. Anteriormente, montara-se uma redoma de vidro  ao seu redor.
  3. Ereção da Herma, à vista da ponte, com um medalhão tendo inscritos dizeres alusivos.
  4. Construção do mausoléu, com traslado dos despojos de Euclides e de seu filho Quidinho, traslado que o dr. Galotti  presidiu pessoalmente, desde o cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
  5. Tombamento da casa em que Euclides morou e fundação do Centro de Cultura Euclides da Cunha, com sede nessa casa.
  6. Campanha de garimpagem e doação para a Casa de materiais euclidianos, como cartas, fotos, relíquias e outros documentos.

Cabia a ele selecionar e convidar pessoalmente os conferencistas. E foi assim que ele se aproximou de mim.

Numa Bienal do Livro, no Ibirapuera, eu acabara de fazer uma conferência sobre Euclides da Cunha, quando um senhor distinto, de terno e gravata, levantou-se e pediu a palavra. Depois dos cumprimentos de praxe, disse que queria oferecer à conferencista um exemplar de Os sertões autografado  por todos os descendentes de Euclides – que não eram muitos. A conferencista ficou tocada pela oferenda tão atenciosa e se tornaram amigos pelo resto da vida.

Veio em seguida o convite para fazer uma palestra na Semana Euclidiana.

Passamos a trabalhar juntos e a seu pedido organizei logo a primeira de muitas mesas-redondas que se seguiriam a cada ano, com colegas da USP, que assim estreou na Semana Euclidiana e instituiu mesa cativa.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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