Em junho de 1970, enquanto o Brasil caminhava para conquistar o tricampeonato mundial no México, cinco mulheres presas políticas assistiram ao primeiro jogo da seleção em uma cela do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. O que deveria ser um momento de alívio virou mais uma perseguição.
O relato é da professora Regina Toscano, presa e torturada durante o regime militar. Ela estava entre as primeiras mulheres a serem mantidas no HCE, um prédio separado das demais alas do hospital, originalmente reservado a soldados que cometiam infrações e adoeciam. Junto com Vera Sílvia, Bia, Dalva e Cristina, Regina vivia sob vigilância armada permanente, em um pequeno cômodo. Para ir ao banheiro, precisavam de escolta. Alguns policiais ficavam do lado de fora; outros entravam junto.
“Não me perguntem se me sentia envergonhada. Já tinha passado por tantas violências e intimidações no DOI-CODI que isso não tinha tanta importância: apenas mais uma”, escreveu Regina.
O jogo permitido
As famílias das presas pediram ao coronel diretor do HCE autorização para que elas assistissem à estreia do Brasil na Copa. Ofereceram-se para levar uma televisão. Para surpresa de todas, ele autorizou. Era o primeiro contato com algo próximo ao mundo externo: Regina e Vera Sílvia estavam presas havia três meses; Dalva e Bia, havia cinco; Cristina, havia um.
O Brasil venceu a Tchecoslováquia por 4 a 1. As cinco comemoraram. Os próprios policiais que as vigiavam assistiram ao jogo na mesma cela.
Mas a alegria durou pouco. Os vigilantes reportaram ao comando do DOI-CODI que as prisioneiras tinham torcido contra o Brasil e a favor da Tchecoslováquia. A punição foi imediata: nenhuma das cinco poderia assistir aos jogos seguintes.
“Nossos vigias comunicaram ao comando do DOI-CODI que tínhamos torcido contra o Brasil e a favor da Checoslováquia”, relatou Regina. “Resultado: não permitiriam mais que as prisioneiras assistissem os jogos pela TV.”
Um sopro de alegria
A tristeza só foi interrompida cerca de uma semana depois, quando as presas receberam a notícia de que Vera Sílvia seria libertada, ela integraria um grupo de presos políticos trocados pelo embaixador alemão sequestrado por militantes da resistência.
Décadas depois, ao revisitar a memória diante de uma nova Copa do Mundo, Regina encerra seu relato com a mesma frase que atravessou aquela cela em 1970: Viva o Brasil.
“No meio de tanta tristeza e violência, o ser humano não perde seus sentimentos, suas emoções”, escreveu a professora.
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