17 de junho de 2026

A cidade e o clube campestre, por Luiz Henrique Lima Faria

Era uma confraria discreta, formada por personagens habituados a ocupar os espaços onde as decisões mais importantes começavam a tomar forma.
Guignard

Fitópolis foi fundada há 17 anos, emergindo de Cetópolis com ideal de participação coletiva e inovação.
O Clube Campestre, grupo informal, manteve influência e privilégios, resistindo às mudanças trazidas por novos moradores.
Conflito entre poder privado e interesse público persiste, desafiando Fitópolis a garantir benefícios para toda a comunidade.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A cidade e o clube campestre

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Luiz Henrique Lima Faria

Fitópolis foi fundada há cerca de dezessete anos. A cidade surgiu a partir de um antigo vilarejo chamado Cetópolis, um lugar onde o tempo parecia passar sem alterar substancialmente as velhas estruturas de poder. Os idealizadores de Fitópolis acreditavam que era possível construir algo diferente. Sonhavam com uma comunidade orientada pelo conhecimento, pela inovação e pela capacidade de transformar esforços individuais em prosperidade coletiva. Imaginavam uma cidade em que o futuro fosse determinado pela participação de muitos, e não pela influência de poucos.

Mas havia uma herança que sobrevivera a Cetópolis.

Poucos a mencionavam abertamente, embora todos conhecessem sua influência. Chamava-se Clube Campestre. Não possuía sede, estatuto ou existência formal. Era uma confraria discreta, formada por personagens habituados a ocupar os espaços onde as decisões mais importantes começavam a tomar forma. Com o passar dos anos, seus encontros deixaram de ser simples ocasiões de convívio social para se converterem em ambientes de articulação de interesses, construção de alianças e acomodação de disputas. Ali consolidou-se uma visão de mundo que atravessaria gerações e sobreviveria à própria fundação de Fitópolis. Antes mesmo de existir uma cidade, já existia um grupo convencido de que lhe cabia decidir o destino de todos.

A evolução de Fitópolis trouxe algo que o Clube Campestre jamais havia enfrentado. Chegaram professores, técnicos, pesquisadores e outros profissionais que não compartilhavam das velhas lealdades herdadas de Cetópolis. Trouxeram novas ideias, novas perguntas e uma disposição pouco comum de questionar aquilo que durante décadas fora tratado como natural. Carregavam também uma convicção profundamente incômoda para os membros do clube. Entendiam que os destinos da cidade pertenciam às regras formais e ao interesse coletivo de seus cidadãos, não às vontades daqueles que haviam se acostumado a agir como seus proprietários informais.

Foi então que o clube começou a sentir-se ameaçado. Não porque estivesse perdendo direitos. Estava apenas deixando de possuir privilégios. A diferença entre essas duas coisas costuma ser difícil de explicar para quem passou a vida inteira confundindo ambas.

Os antigos donos do poder reagiram.

Os primeiros sinais foram discretos. Processos tornaram-se mais lentos para alguns do que para outros. Determinadas portas pareciam abrir-se apenas para os velhos conhecidos. Rumores surgiam nos corredores. Reputações eram cuidadosamente corroídas. O que não podia ser impedido por argumentos passava a ser combatido por meio da influência. O que não podia ser derrotado publicamente passava a ser atacado nos bastidores.

Toda oligarquia possui algo peculiar. Raramente admite estar agindo em benefício próprio. Ao contrário, costuma apresentar seus interesses como se fossem os interesses da coletividade, afirmando defender a estabilidade, a ordem ou os valores da comunidade. O interesse particular veste-se de interesse público, o privilégio apresenta-se como normalidade administrativa e a dominação disfarça-se de responsabilidade gerencial. É assim que conveniências privadas acabam convertidas em aparentes necessidades coletivas e privilégios históricos passam a ser confundidos com direitos naturais.

Durante algum tempo, os habitantes de Fitópolis aceitaram essa narrativa. Afinal, os membros do Clube Campestre estavam ali havia décadas. Parecia razoável supor que conhecessem melhor a cidade. Muitos os consideravam indispensáveis. Outros acreditavam que seus serviços prestados ao longo dos anos lhes conferiam uma espécie de autoridade natural. Mas o tempo possui uma qualidade particularmente inconveniente para os dependentes químicos do poder. Ele revela o filme que dificilmente se percebe nas fotografias. E, pouco a pouco, tornou-se evidente que a relação entre o clube e a cidade era profundamente desigual.

O Clube Campestre recebia muito e entregava pouco. Fitópolis seguia oferecendo mais do que recebia em troca.

Ficou claro, então, que os melhores espaços de influência permaneciam concentrados nas mesmas mãos. As oportunidades circulavam dentro dos mesmos circuitos. Os favores percorriam os mesmos caminhos. O discurso falava em mérito, mas a prática frequentemente premiava os relacionamentos. Falava-se em comunidade, mas os benefícios pareciam encontrar sempre os mesmos destinatários.

Foi então que alguns moradores começaram a formular uma pergunta simples e profundamente incômoda: Se Fitópolis havia sido criada para todos, por que seus principais benefícios continuavam concentrados nas mãos de tão poucos?

A história das instituições talvez possa ser resumida nessa pergunta. Afinal, toda comunidade convive com uma tensão permanente entre aquilo que pertence a todos e aquilo que alguns desejam transformar em patrimônio privado. O poder é inevitável. A influência também. O verdadeiro desafio consiste em impedir que ambos sejam confundidos com um direito de propriedade.

Por isso, o problema nunca foi a existência do Clube Campestre. Toda sociedade produz lideranças, grupos de influência e disputas por poder. O problema começou quando alguns de seus membros passaram a acreditar que a cidade lhes pertencia por direito, como se o tempo fosse capaz de converter privilégios em títulos de propriedade e a influência acumulada em autorização permanente para decidir pelos demais.

Afinal, toda vez que alguém se julga proprietário daquilo que pertence a todos, a instituição deixa de ser um projeto de construção coletiva e passa a servir à reprodução de privilégios. Fitópolis ainda não resolveu esse dilema. Seu futuro, porém, dependerá de reconhecer uma verdade simples e frequentemente esquecida. Cidades não nascem para pertencer a confrarias. Existem para servir ao interesse público que justifica sua própria existência.

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados