1 de julho de 2026

O elevador quase travado, por Henrique Morrone

Não há queda livre. Tampouco ascensão contínua. Há um vai e vem confinado, que consome energia sem produzir deslocamento relevante.
Dreamstime - Reprodução

O texto compara duas torres: uma com elevador limitado do 7º ao 12º andar, outra com elevador que sobe mais.
Na torre A, o elevador não permite avanços reais, forçando moradores a usar escadas que exigem esforço extra.
O autor destaca que o sistema se move, mas não promove progresso, simbolizando estagnação social e econômica no Brasil.

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O elevador quase travado

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por Henrique Morrone

O prédio parece moderno. Duas torres, fachada imponente, nome estrangeiro, desses que colam no peito. Um desses empreendimentos que prometem mobilidade vertical, e entregam, ao menos na aparência.

Na torre A, mora o Brasil.

O elevador funciona. Sobe, desce, responde aos comandos. Não está quebrado. Apenas limitado.

Circula entre poucos andares. Do 7º ao 12º.

Às vezes para no 9º. Em momentos mais favoráveis, alcança o 7º. Em fases menos generosas, recua para o 11º ou 12º. Mas nunca ultrapassa a faixa superior.

O movimento existe, mas é cansado. Em certos momentos, quase letárgico.

Oscila. Não avança.

Mover-se não é o mesmo que subir.

Na torre ao lado, a dinâmica é outra. O elevador também falha, também hesita, mas sobe. Países que partem de baixo atravessam andares. Tropeçam, mas mudam de posição.

É ali que o catching up acontece.

Por aqui, não.

E quase ninguém pergunta pelo condomínio.

Ele não aparece nos corredores, não fala nos elevadores. Mas decide muito. Ajusta regras, define fluxos, distribui facilidades. Em uma torre, a subida encontra menos resistência. Na outra, o trajeto é sempre um pouco mais pesado, como se cada andar exigisse algo além do botão.

Na torre A, o movimento se fecha sobre si mesmo.

Não há queda livre. Tampouco ascensão contínua. Há um vai e vem confinado, que consome energia sem produzir deslocamento relevante.

Quando precisam ir além, os moradores do populoso apartamento Brasil recorrem à escada.

É possível subir. Mas cobra.

Cada andar exige mais tempo, mais esforço, mais coordenação. O que em outras torres se resolve com um toque, aqui depende de fôlego.

E o fôlego é caro.

Quem sobe pela escada chega mais cansado. Produz menos. Investe com mais hesitação. No dia seguinte, recomeça de um ponto inferior.

A escada contorna o hoje, e compromete o amanhã.

Instala-se, então, algo mais sutil que a paralisia.

Um sistema que se move o suficiente para parecer funcional, mas não o bastante para mudar de posição.

O elevador não está quebrado.

Está quase.

E talvez seja justamente isso que o torna mais difícil de substituir.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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