Honestino, Gildo, Zé Carlos: Presentes
por Gustavo Tapioca
No próximo dia 13 de agosto, chega aos cinemas brasileiros o filme que conta a trajetória de Honestino Guimarães, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) sequestrado, torturado e assassinado pela ditadura militar, em 1973.
Não será apenas a estreia de um filme.
Será também um reencontro do Brasil com uma geração de jovens que acreditou ser possível construir um mundo melhor e um país justo, democrático, igualitário — e que, por isso mesmo, foi perseguida com uma violência que ainda hoje desafia nossa capacidade de compreensão.
Ao assistir ao trailer do filme, voltei imediatamente aos anos de 1966 e 1967. Naquele tempo, Honestino ainda não era um símbolo. Era apenas o Barbudinho. Foi assim que o conheci.
Éramos parte de um grupo de quinze militantes do movimento estudantil vindos de diferentes estados do país. Fomos retirados, temporariamente, da intensa atividade para participar, em São Paulo, de um curso de formação política organizado pela Ação Popular (AP).
Ele vinha de Brasília. Eu, da Bahia.
Ficamos hospedados no mesmo apartamento do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, o CRUSP, onde morava um companheiro do movimento.
Ali nasceu uma amizade que a história não permitiria durar muito tempo. Naqueles dias, já havia alguns sinais, mas ninguém imaginava o que estava por vir. Ainda discutíamos política como quem acredita que o futuro pode ser construído pela palavra.
Os anos do terror
Pouco depois, seria a violência a ocupar o lugar do debate. Em 1969, depois do AI-5, nossas trajetórias se separaram.
A Ação Popular me chamou para uma conversa decisiva. A proposta era abandonar o movimento estudantil e ingressar no trabalho clandestino junto ao movimento operário ou camponês.
Eu tinha apenas vinte anos. Senti medo. Percebi que não estava preparado para aquele caminho.
Afastei-me da militância organizada, mas não da vida pública. Passei a ser “linha auxiliar”. Comecei minha carreira de jornalista no Jornal da Bahia. Nunca imaginei que essa decisão me permitiria testemunhar, anos depois, a história de uma geração que a ditadura tentou apagar.
Zé Carlos e Gildo Lacerda
Foi numa tarde de 1971 que o passado voltou a bater à porta da redação. Recebi a visita de José Carlos da Mata Machado, o companheiro Zé Carlos. Nós nos conhecíamos desde os tempos das reuniões da fração de AP na UBES e UNE.
Abraçamo-nos demoradamente. Falamos pouco. Havia coisas que já não podiam ser ditas em voz alta. Sem saber, aquele encontro seria também nossa despedida.
Dois anos depois, Zé Carlos e Gildo seriam sequestrados, torturados e assassinados no quartel do Exército de Recife, Pernambuco. Conheci Gildo pouco antes dele ser assassinado pela ditadura já casado com Mariluce Moura, minha colega na Escola de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e na redação do Jornal da Bahia.
Zé Carlos e Gildo, como Honestino, e centenas de jovens ainda na casa dos 20 anos de idade desapareceram nas masmorras da repressão.
Honestino Guimarães
Honestino ainda cruzaria novamente o meu caminho. Já não era mais o estudante que eu conhecera no CRUSP. Era um homem de 24 anos vivendo na clandestinidade.
Era um dia qualquer de 1972. Eu já namorava Maria Luiza Falcão, minha companheira há 50 anos, quando recebi uma surpresa que jamais esqueceria. Um primo dela, filho de um senador, estudara no Centro Integrado de Ensino (CIEN), uma escola de Ensino Médio de Brasília. Fora colega de turma do Barbudinho.
Naquela tarde, abriu-se a porta. Lá estava Honestino. Muito mais magro do que eu guardava na memória. Mas ainda com a mesma barbicha rala daquele rapaz de pouco mais de vinte anos que eu conhecera no CRUSP.
Já vivia completamente na clandestinidade. Não havia tempo para conversas longas nem para lembranças. O primeiro problema era outro. Encontrar um lugar seguro para escondê-lo.
O abrigo de um clandestino
A solução apareceu na casa de praia dos pais de Maria Luiza, no Condomínio Interlagos, entre Salvador e Arembepe. Ali, longe dos olhos da repressão, Honestino permaneceu poucos dias.
Foram dias estranhos. Vivíamos como se a normalidade ainda fosse possível, sabendo que ela já não existia. Depois ele seguiu viagem. Nunca mais nos veríamos.
A casa ficou vazia. Durante muito tempo, pensei que aquela seria a última lembrança que guardaria dele. Algum tempo depois, em 1973, veio a notícia. Não lembro da data. Lembro apenas da frase.
— Ele caiu.
Naqueles anos, todos sabiam exatamente o que aquelas duas palavras significavam. A mensagem veio por intermédio de sua companheira.
Ela carregava no colo uma menina de apenas dois ou três anos. Chamava-se Juliana. Honestino foi sequestrado. Torturado. Assassinado. “Desaparecido”
A menina Juliana cresceu. O Brasil voltou a eleger presidentes. A ditadura terminou. A Constituição foi promulgada. Os arquivos começaram lentamente a ser abertos. Novas gerações passaram a conhecer apenas os nomes.
Honestino. Gildo. Zé Carlos. Para muitos, eram personagens dos livros de História. Para mim, continuavam sendo pessoas. Quarenta anos se passaram. Era um dia de quase dezembro no verão da Bahia.
O reencontro
Na mesma casa de praia do Condomínio Interlagos que um dia abrigara Honestino na clandestinidade, Maria Luiza me chamou.
— Gustavo, venha conhecer alguém.
Era Juliana. A filha Juliana, que o pai viu com apenas três anos de idade pela última vez. E o neto Lucas que Honestino não conheceu.
Abraçamo-nos demoradamente. Houve lágrimas. Houve silêncio. Naquele instante compreendi algo que nunca havia conseguido formular. A ditadura podia matar pessoas. Podia esconder corpos. Podia destruir documentos. Podia espalhar o medo. Mas não conseguira interromper a história.
Na mesma casa onde um jovem clandestino buscara abrigo, estavam agora sua filha e seu neto. A vida sobrevivera à morte. A casa permanecia a mesma. Mudavam apenas as pessoas e o tempo.
Ali compreendi, finalmente, que memória não é apenas recordar. É impedir que a violência tenha a última palavra.
A derrota do esquecimento
Ao longo dos últimos anos, voltei muitas vezes à história de Honestino. Li documentos. Pesquisei arquivos. Conversei com sobreviventes. Acompanhei o trabalho de historiadores. Assisti ao nascimento do filme que agora chega aos cinemas.
Também reencontrei Mariluce Moura, cuja vida foi atravessada pela perda de Gildo Macedo Lacerda. Conheci Tessa, a filha que ela carregava no ventre quando foi presa pela ditadura e que hoje é professora doutora de Filosofia na Universidade de São Paulo.
Acompanhei a trajetória de Dorival, filho de José Carlos da Mata Machado, entregue ainda bebê aos avós antes do assassinato do pai. Encontrei Juliana e Lucas, filha e neto de Honestino.
Ao recordar Honestino, Zé Carlos e Gildo, recordo também os 434 mortos e desaparecidos políticos reconhecidos pela Comissão Nacional da Verdade. Eles representam uma geração inteira que a violência de Estado tentou apagar. Manter viva essa memória continua sendo um exercício permanente de vigilância democrática.
A ditadura acreditou que eliminar pessoas seria suficiente para eliminar ideias. Não foi. Cada filho que nasceu. Cada livro escrito. Cada filme realizado. Cada homenagem. É prova disso.
O 8 de janeiro e as eleições de outubro
Mais de meio século separa o rapaz que conheci no CRUSP, em 1967, daquele abraço em Juliana e Lucas na casa de Interlagos.
Nesse intervalo cabem a prisão, a tortura, o desaparecimento, o medo, o silêncio e a democracia reencontrada. Mas também a consciência de que nenhuma democracia está definitivamente conquistada.
O 8 de janeiro de 2023 provou isso. As escolhas que os brasileiros fizerem nas urnas de outubro de 2026 também passarão a integrar essa história. Delas dependerá mais um capítulo da longa construção democrática iniciada com o fim da ditadura.
Talvez esse seja o verdadeiro sentido da memória. Ela não muda o passado. Impede apenas que ele desapareça. E que volte a se repetir.
É por isso que, mais de cinquenta anos depois, continuo preferindo chamar Honestino pelo nome com que o conheci.
O Barbudinho.
Quando penso nele, em Gildo e em Zé Carlos, nenhuma outra palavra parece suficiente.
Presentes.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
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