22 de julho de 2026

O sindicalismo deve resistir e cumprir sua missão histórica, por Carolina Maria Ruy

Antes de discutir se o sindicalismo deve ser reconstruído ou reinventado, é preciso reconhecer sua condição histórica
CPDoc JB - Foto de J.C. Brasil - Reprodução

Debate destaca que sindicalismo no Brasil deve resistir às ofensivas históricas e cumprir sua missão de organização e defesa trabalhista.
Reforma trabalhista de 2017 e neoliberalismo fragmentaram o trabalho, enfraquecendo sindicatos e precarizando relações laborais.
Sindicalismo precisa fortalecer formação política e mobilização, enquanto governos devem apoiar políticas que valorizem o trabalho.

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Nem reconstruir, nem reinventar: o sindicalismo deve resistir e cumprir sua missão histórica

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por Carolina Maria Ruy

O debate sobre o papel do movimento sindical no Brasil é necessário e oportuno. Dois artigos recentes contribuem para essa reflexão. O primeiro, Que sindicalismo o Brasil precisa (re)construir?[1], é assinado pelo professor de Filosofia Railton Nascimento Souza. O segundo, em diálogo com o texto de Railton, é de autoria do jornalista Marcos Verlaine e leva o título Para além da reconstrução: que sindicalismo o Brasil precisa reinventar?[2]

Participo desse debate a partir de algumas ponderações de natureza histórica, teórica, política e conjuntural.

Oponente à herança escravista que marca a formação social brasileira, o sindicalismo sempre esteve na mira das elites econômicas e financeiras. Na história do Brasil, desde a década de 1930 — tomando como referência a consolidação da atual estrutura sindical — dois grandes ataques são temas fundamentais em qualquer análise sobre o sindicalismo. O primeiro foi a ditadura militar, que interveio em sindicatos, perseguiu lideranças e enfraqueceu a organização dos trabalhadores. O segundo foi a reforma trabalhista de 2017, que atingiu a base material de sustentação das entidades e desestabilizou profundamente sua capacidade de organização.

Antes de discutir se o sindicalismo deve ser reconstruído ou reinventado, é preciso reconhecer sua condição histórica: a de permanente resistência às sucessivas ofensivas contra os direitos e a organização da classe trabalhadora.

Vamos por partes.

Pauperização e consciência política

Tanto Railton quanto Verlaine defendem que os sindicatos precisam fortalecer sua função de formação política.

“Para Marx, os sindicatos são a escola do socialismo — o laboratório onde a classe operária forja sua consciência, transformando-se de ‘classe em si’ em ‘classe para si'”, afirma Railton.

Verlaine desenvolve essa ideia de forma mais detalhada. Para ele, é necessário “recolocar a formação sindical — educação política — no centro da ação cotidiana”. Os sindicatos, sustenta, não devem limitar-se à negociação salarial; precisam também “produzir consciência crítica, formar lideranças, interpretar a realidade nacional e preparar os trabalhadores para intervir na vida pública”.

Esse argumento suscita duas observações.

A primeira é que, diante da diversidade do sindicalismo brasileiro, é arriscado atribuir uma característica uniforme ao conjunto das entidades. Ainda assim, quando observamos as centrais sindicais — organizações de atuação nacional e caráter político — verificamos que a formação sempre esteve entre suas prioridades. A reedição periódica da Pauta da Classe Trabalhadora, citada oportunamente por Railton, ilustra esse compromisso permanente com a elaboração política, a formação, a comunicação e a construção de um projeto comum para os trabalhadores.

A segunda observação diz respeito à própria concepção de uma vanguarda responsável por formar a consciência de classe. Essa formulação, a meu ver, carrega uma dose de idealismo.

A experiência cotidiana mostra que a maior parte dos trabalhadores tem como preocupação imediata preservar o emprego, garantir renda, sustentar a família e melhorar suas condições de vida. Vivemos em um país marcado por salários desvalorizados, elevado custo de vida, precarização das relações de trabalho e profunda desigualdade social. Qualquer reflexão sobre consciência política precisa partir dessa situação material, bem como da disposição dos trabalhadores e das condições políticas existentes para transformar a sociedade.

Essa tensão entre a consciência revolucionária e a busca por estabilidade dentro da ordem vigente foi observada pelo historiador Eric Hobsbawm[3].

Segundo ele, após a década de 1840, nem Marx nem Engels acreditavam mais que a simples pressão da pobreza conduziria automaticamente o proletariado à consciência revolucionária. “Como era óbvio para ambos, não havia de modo algum amplos segmentos do proletariado que estivessem se tornando mais pobres”, observa Hobsbawm.

O historiador vai além:

“Com efeito, um observador americano dos congressos proletários do Partido Social-Democrata Alemão na década de 1900 observou que os camaradas que deles participavam pareciam ‘um ou dois pães acima da pobreza’. Por outro lado, o evidente crescimento da desigualdade econômica entre diferentes partes do mundo e entre as classes não produz necessariamente a ‘expropriação dos expropriadores’ a que Marx se referiu.”

Nada disso significa que os sindicatos devam abandonar a formação política ou deixar de disputar consciências. Mas não é razoável responsabilizar as entidades sindicais pela persistência da alienação. A formação da consciência política não depende exclusivamente da ação sindical; ela também é condicionada pelas circunstâncias materiais, sociais e políticas em que vivem os trabalhadores.

Sindicalismo e Era Vargas

Em seu artigo, Railton afirma que, durante o governo Getúlio Vargas, o Estado buscou enquadrar e controlar a organização dos trabalhadores. Mais adiante, sustenta que a Constituição de 1988 consolidou os direitos coletivos do trabalho e a estrutura sindical brasileira, baseada na unicidade sindical, na estabilidade dos dirigentes e no financiamento das entidades.

Essa interpretação, entretanto, exige melhor explicação.

As grandes conquistas trabalhistas alcançadas entre 1930 e 1943 — como o salário mínimo, a limitação da jornada de trabalho, as férias remuneradas, a regulamentação dos sindicatos e diversos outros direitos — nasceram das reivindicações do movimento operário e foram incorporadas ao projeto político conduzido por Vargas.

Da mesma forma, a própria estrutura sindical brasileira, o princípio da unicidade sindical e boa parte dos instrumentos de proteção coletiva do trabalho têm origem naquele período, sendo consolidados na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1943. A Constituição de 1988 ampliou direitos, fortaleceu as garantias democráticas e preservou a liberdade sindical conquistada após a ditadura, mas não criou essa estrutura do zero. Ela a preservou e a aperfeiçoou.

Também merece destaque a participação decisiva dos comunistas e de outras correntes do movimento operário na construção do projeto nacional-desenvolvimentista, baseado na industrialização, na valorização do trabalho e na ampliação dos direitos sociais.

Neoliberalismo e crise sindical

Marcos Verlaine recorre ao professor Giovanni Alves para sustentar que o enfraquecimento do sindicalismo não pode ser explicado “apenas” pelo neoliberalismo, pela reforma trabalhista de 2017 ou pelo avanço da extrema direita. Segundo essa interpretação, parte da crise decorre das adaptações promovidas pelo próprio movimento sindical às novas formas de acumulação capitalista.

Na sequência, o autor descreve as transformações recentes do mundo do trabalho:

“Hoje o trabalho está disperso em plataformas digitais, cadeias globais de produção, pequenos estabelecimentos, serviços terceirizados, teletrabalho, inteligência artificial, economia sob demanda e falsas formas de empreendedorismo, com a uberização do trabalho.”

Essa reflexão suscita uma questão importante.

É natural que o sindicalismo acompanhe as transformações do capitalismo, afinal sua própria existência está vinculada à organização do trabalho. Acompanhar essas transformações, porém, não significa aderir à lógica da acumulação flexível. Há uma diferença fundamental entre representar trabalhadores submetidos às novas formas de exploração e legitimar o modelo que produz essa fragmentação.

A acumulação flexível intensifica a terceirização, a informalidade e a pulverização das relações de trabalho. Trata-se de um dos pilares do neoliberalismo, cuja lógica consiste justamente em reduzir direitos, enfraquecer a negociação coletiva e individualizar as relações entre capital e trabalho.

Nesse sentido, parece contraditório defender, de um lado, que os sindicatos precisam organizar os trabalhadores inseridos nessas novas formas de contratação — inclusive os informais e precarizados, cuja condição resulta diretamente da ofensiva neoliberal — e, de outro, responsabilizar essas mesmas entidades por terem se adaptado às novas formas de acumulação capitalista.

Também parece pouco convincente relativizar o peso do neoliberalismo e da reforma trabalhista de 2017 na crise sindical. Embora distintos em escala histórica — sendo a reforma uma expressão concreta de uma agenda neoliberal mais ampla — ambos integram o mesmo processo de desregulamentação das relações de trabalho e de enfraquecimento da representação coletiva.

Como qualquer organização, o movimento sindical possui limitações, enfrenta divergências internas e comete erros. Ainda assim, sua crise contemporânea não pode ser compreendida fora do contexto da reestruturação produtiva, da financeirização da economia e da ofensiva neoliberal que, ao longo das últimas décadas, fragmentou deliberadamente o trabalho, precarizou as relações laborais e enfraqueceu as formas coletivas de organização dos trabalhadores.

Que mudança seguir?

Há também uma ideia no ar – e não apenas nos artigos mencionados – de que mudanças “profundas” no mundo do trabalho exigem um sindicalismo renovado, livre dos padrões do século XX.

Pondero que a ideia de mudança é delicada e, para não dar margem para uma defesa velada da desregulamentação, deveria sair do abstrato e ater-se à realidade. Isso porque falar em “mudanças profundas” que demandam novas leis e novas formas de organização é um discurso instrumentalizado por aqueles que defendem a retirada de direitos e a destruição dos sindicatos.

Na prática, as mudanças forçadas pelo mercado apontam para uma adaptação das organizações à fragmentação e ao trabalho precário, enquanto, por outro lado, neste contexto a ação sindical mantem-se como um foco de resistência. Além disso, se na forma os sindicatos podem e devem acompanhar os avanços culturais e tecnológicos – em suas convenções coletivas, ações e na comunicação com o trabalhador – no conteúdo, devem seguir cumprindo sua missão histórica que é promover a mobilidade social, valorização salarial, ambientes de trabalho seguros e o engajamento dos trabalhadores.

A mudança necessária muitas vezes aponta – e depois da reforma trabalhista isso faz muito sentido – para resgatar conquistas usurpadas.

A estrutura sindical construída a partir da década de 1930 e preservada, com aperfeiçoamentos, pela Constituição de 1988, demonstrou capacidade de formar sindicatos sólidos, centrais sindicais politicamente atuantes e espaços de convergência entre diferentes correntes em torno de objetivos comuns. Foi essa estrutura que possibilitou importantes avanços para os trabalhadores brasileiros: aumentos salariais, redução da jornada de trabalho, melhorias em saúde e segurança, ampliação de direitos sociais e conquistas específicas de inúmeras categorias profissionais.

Antes de aceitar a precarização do trabalho como o novo normal, é preciso olhar para essa trajetória histórica para não correr o risco de jogar a criança com a água do banho. Tampouco se pode ignorar que, mesmo submetidos a sucessivos ataques, os sindicatos continuam garantindo direitos, benefícios e aumentos reais de salário, como demonstram recentes campanhas salariais.

Os textos que motivaram este debate também defendem que o movimento sindical deve empenhar-se na eleição de governos comprometidos com os interesses da classe trabalhadora. Concordo com essa avaliação, mas esse compromisso não pode ser unilateral.

Se é legítimo cobrar dos sindicatos capacidade de mobilização e organização, também é legítimo cobrar dos governos políticas que fortaleçam o trabalho e a representação coletiva. Nenhum projeto consistente de valorização do sindicalismo será viável enquanto persistirem políticas que estimulem a fragmentação das relações de trabalho, ampliem a informalidade, enfraqueçam a negociação coletiva ou mantenham intocados os pilares da reforma trabalhista de 2017.

Governar para os trabalhadores exige escolhas políticas. Significa priorizar a geração de empregos de qualidade, promover uma política de desenvolvimento baseada na industrialização, fortalecer a negociação coletiva, recuperar direitos suprimidos e enfrentar a lógica da precarização, que continua sendo apresentada como sinônimo de modernização.

Essa cobrança vale para qualquer governo, mas se torna ainda mais necessária quando o governo conta com o apoio da maior parte do movimento sindical. Este apoio político deve ampliar a responsabilidade de quem governa diante das expectativas daqueles que historicamente defendem um projeto nacional comprometido com o desenvolvimento, a soberania e a valorização do trabalho.

O desafio histórico, portanto, não é substituir a missão do sindicalismo, mas criar as condições para que ele possa cumpri-la plenamente. Isso envolve os sindicatos e as escolhas feitas pelo Estado e pelos governos.

Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical, editora do Rádio Peão Brasil. Integra o Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois.


[1] O artigo Que sindicalismo o Brasil precisa (re)construir?, de Railton Nascimento Souza, foi publicado no Portal Vermelho em 9 de julho de 2026. Disponível em: https://vermelho.org.br/coluna/que-sindicalismo-o-brasil-precisa-reconstruir/

[2] Marcos Verlaine, Para além da reconstrução: que sindicalismo o Brasil precisa reinventar?, artigo publicado pela Agência DIAP em 13 de julho de 2026. Disponível em: https://www.diap.org.br/index.php/noticias/agencia-diap/93039-para-alem-da-reconstrucao-que-sindicalismo-o-brasil-precisa-reinventar

[3] HOBSBAWN, Eric. “Como mudar o mundo”, 2011, Companhia das Letras, capítulo “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”.

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