Pesquisadores brasileiros identificaram os chamados rios atmosféricos como um dos principais fatores responsáveis pela intensificação do degelo na Antártica Ocidental e na Península Antártica. Esses corredores de umidade e calor, que transportam ar das regiões tropicais até o continente gelado, estão alterando o clima antártico e podem contribuir para uma elevação significativa do nível dos oceanos, com impactos diretos sobre cidades costeiras brasileiras.
O alerta foi apresentado pelo professor Heitor Evangelista da Silva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.
Segundo o pesquisador, cerca de 90% da umidade que chega às regiões polares é transportada pelos rios atmosféricos, fenômeno que tem se tornado cada vez mais frequente e intenso. Silva coordena o laboratório Criosfera 1, primeira estação científica remota e autônoma do Brasil na Antártica, instalada em 2012 a 84° de latitude sul, onde são monitoradas mudanças no clima do interior do continente.
Dados obtidos pelo laboratório mostram que, nas últimas décadas, as ondas de calor associadas aos rios atmosféricos passaram de cerca de 25% para quase 80% dos episódios de aquecimento registrados no centro da Antártica.
Um dos eventos mais extremos ocorreu em 2022, na estação Concórdia, quando a temperatura ficou 43°C acima do esperado para o período. De acordo com Silva, esse tipo de aquecimento nunca havia sido registrado na história meteorológica da Antártica.
Os pesquisadores também identificaram que os rios atmosféricos estão alcançando regiões cada vez mais profundas do continente. Em áreas localizadas a 84° de latitude sul, já foram registradas temperaturas próximas de -3°C, valor muito próximo ao ponto em que o gelo começa a derreter naquela região. Caso esses episódios se tornem mais frequentes durante o verão, poderá haver derretimento superficial até mesmo em áreas extremamente remotas do continente.
Geleiras estratégicas sob risco
O avanço do aquecimento preocupa especialmente na Antártica Ocidental, onde ficam geleiras consideradas fundamentais para a estabilidade da camada de gelo continental, como Thwaites e Pine Island. Essas formações funcionam como barreiras naturais que ajudam a conter enormes massas de gelo no interior do continente.
Segundo Silva, a perda dessas geleiras pode desencadear um efeito em cadeia sobre o restante da cobertura de gelo da Antártica. O derretimento ocorre principalmente pela ação de águas oceânicas mais quentes que desgastam a base das geleiras.
Estimativas indicam que o colapso apenas da geleira Thwaites poderia elevar o nível médio global do mar em cerca de 63 centímetros. Se somado ao derretimento da geleira Pine Island, esse aumento pode chegar a aproximadamente 1 metro.
Mudanças aceleradas no continente
Os pesquisadores também observam uma rápida redução do gelo marinho ao redor da Antártica desde 2015. Segundo Silva, a perda acumulada de massa de gelo equivale a cerca de duas vezes a área da Groenlândia, um ritmo que ainda não é reproduzido pelos principais modelos climáticos.
A redução do gelo diminui o chamado albedo — capacidade da superfície branca de refletir a radiação solar. Com mais áreas de oceano expostas, a água absorve mais calor, intensificando o aquecimento e acelerando ainda mais o derretimento. Esse ciclo pode marcar o início de uma fase conhecida como Amplificação Antártica, caracterizada pelo aumento acelerado das temperaturas na região.
Monitoramento brasileiro é referência
O Criosfera 1 é atualmente a única estação geofísica automática instalada no interior profundo da Antártica. As medições realizadas pelo laboratório são utilizadas para calibrar modelos climáticos internacionais, que, segundo os pesquisadores, ainda subestimam episódios de calor extremo registrados no continente.
Os próximos passos do projeto incluem a ampliação do monitoramento em tempo real por satélite, com medições de aerossóis, gases de efeito estufa e acúmulo de neve. A equipe também prepara uma nova missão para instalar, pela primeira vez, um telescópio brasileiro na Antártica, ampliando a capacidade nacional de pesquisa sobre as mudanças climáticas no continente.
*Com informações da Agência Fapesp.
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