A doutrina Donroe e a América Latina: um balanço
La Doctrina Donroe y América Latina: una evaluación
The Donroe Doctrine and Latin America: Taking Stock
por Paulo Esteves
Resumo. Este artigo faz um balanço da chamada “doutrina Donroe”, a atualização trumpista da doutrina Monroe formalizada como “Corolário Trump” na Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025 e batizada pelo próprio presidente após a captura de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026. O argumento se desenvolve em dois tempos. No primeiro ano do segundo mandato de Trump (2025), a doutrina operou por escalada gradual, combinando coerção comercial (tarifas contra México, Brasil e Colômbia), sanções individualizadas contra chefes de Estado, recompensas financeiras e comerciais aos governos alinhados, externalização do asilo por acordos de “país seguro” e militarização progressiva do Caribe. No segundo ano (2026, até julho), passou à intervenção aberta, com a Operação Absolute Resolve na Venezuela, a coalizão anticartéis de Doral, as operações terrestres no Equador e a conversão das molduras comerciais em acordos assinados. Os ciclos eleitorais de 2025 e 2026 (Chile, Peru e Colômbia) estreitaram o campo da resistência. O artigo sustenta que a doutrina se consolidou tanto como declaração quanto como prática operacional, mas permanece estruturalmente contestada, pois sua reprodução depende menos de hegemonia consentida do que de coerção contínua.
Palavras-chave. Doutrina Donroe; Doutrina Monroe; Estados Unidos; América Latina; Esfera de influência.
Resumen. Este artículo analiza la denominada “Doctrina Donroe”, la actualización de la Doctrina Monroe por parte de Trump, formalizada como el “Corolario Trump” en la Estrategia de Seguridad Nacional de noviembre de 2025 y denominada así por el propio presidente tras la captura de Nicolás Maduro en enero de 2026. El análisis se desarrolla en dos fases. En el primer año del segundo mandato de Trump (2025), la doctrina operó mediante una escalada gradual, combinando la coerción comercial (aranceles contra México, Brasil y Colombia), sanciones individualizadas contra jefes de Estado, incentivos financieros y comerciales a gobiernos afines, la externalización del asilo mediante acuerdos de “país seguro” y la militarización progresiva del Caribe. En el segundo año (2026, hasta julio), pasó a la intervención abierta, con la Operación Resolución Absoluta en Venezuela, la coalición anticártel Doral, operaciones terrestres en Ecuador y la conversión de marcos comerciales en acuerdos firmados. Los ciclos electorales de 2025 y 2026 (Chile, Perú y Colombia) redujeron el campo de resistencia. El artículo sostiene que la doctrina se ha consolidado tanto como declaración como práctica operativa, pero sigue siendo objeto de controversia estructural, ya que su reproducción depende menos de la hegemonía consensuada que de la coerción continua.
Palabras clave: Doctrina Donroe; Doctrina Monroe; Estados Unidos; América Latina; Esfera de influencia.
Abstract: This short paper takes stock of the so-called “Donroe Doctrine”, the Trumpist update of the Monroe Doctrine formalized as the “Trump Corollary” in the November 2025 National Security Strategy and named by the president himself after the capture of Nicolás Maduro in January 2026. The argument unfolds in two stages. In the first year of Trump’s second term (2025), the doctrine operated through gradual escalation, combining trade coercion (tariffs against Mexico, Brazil, and Colombia), individualized sanctions against heads of state, financial and commercial rewards for aligned governments, the outsourcing of asylum through “safe third country” agreements, and the progressive militarization of the Caribbean. In the second year (2026, through July), it shifted to open intervention, with Operation Absolute Resolve in Venezuela, the Doral anti-cartel coalition, ground operations in Ecuador, and the conversion of trade frameworks into signed agreements. The 2025 and 2026 electoral cycle (Chile, Peru, and Colombia) narrowed the field of resistance. The paper argues that the doctrine has consolidated itself as declaration and as operational practice, yet remains structurally contested, since its reproduction depends less on consented hegemony than on continued coercion.
Keywords: Donroe Doctrine; Monroe Doctrine; United States; Latin America; Sphere of influence.
1. A doutrina Donroe
A expressão “doutrina Donroe”, enxerto do primeiro nome de Donald Trump sobre a doutrina Monroe de 1823 cunhado pela capa do New York Post de 8 de janeiro de 2025 (CNN, 5 jan. 2026), foi adotada pelo próprio presidente norte-americano no início de 2026, após a operação militar que capturou Nicolás Maduro, quando declarou que “o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado” (USA Today, 3 jan. 2026). O rótulo, contudo, apenas nomeou a posteriori uma orientação estratégica já formalizada. A Estratégia de Segurança Nacional divulgada em novembro de 2025 fazia referência explícita à doutrina Monroe e enunciava um “Corolário Trump”, com o objetivo declarado de “reafirmar e aplicar a doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no hemisfério ocidental” (Casa Branca, 2025, pp. 5 e 15).
Se a doutrina original de 1823 visava excluir a interferência das potências europeias nas Américas, sua atualização trumpista se dirige contra a presença da China e da Rússia na região, mas não se esgota nesse objetivo de contenção. O que a distingue é o repertório de instrumentos mobilizados para converter a região em esfera de influência exclusiva. Combinam-se ali coerção militar direta (dos ataques a embarcações no Caribe à intervenção na Venezuela), coerção econômica individualizada (tarifas punitivas e sanções contra chefes de Estado), construção seletiva de alianças com governos alinhados (Milei, Bukele, Noboa, Asfura) e disposição declarada à mudança de regime. Trata-se, nos termos de seus formuladores, de uma doutrina de dominância hemisférica; para a Eurasia Group, que a listou entre os principais riscos globais de 2026, uma combinação de pressão militar, coerção econômica, alianças seletivas e reengenharia comercial (Eurasia Group, 2026). A trajetória repete, em chave contemporânea, a conversão da doutrina Monroe de enunciado defensivo em título de polícia internacional operada pelo Corolário Roosevelt de 1904 (Gilderhus, 2006; Ricard, 2006) e reativa a esfera de influência que os Estados Unidos mantêm no hemisfério desde o fim do século XIX (Rabe, 2006). Concretamente, trata-se de um precedente que autoriza a violação da ordem jurídica internacional e, eventualmente, a busca por expansão territorial. O balanço que segue reconstitui sua operacionalização em dois tempos. O primeiro ano do segundo mandato de Trump (2025), de escalada gradual, e o segundo ano (2026, até julho), de intervenção aberta.
2. América Latina em 2025: Trump 2, ano 1
O primeiro ano do segundo mandato combinou coerção comercial, securitização da política migratória e militarização progressiva do Caribe. O ano abriu com a ameaça de tarifas de 25% sobre o México (e o Canadá), instrumentalizadas como alavanca de negociação sobre migração (e fentanil), e com a designação dos cartéis mexicanos, do Tren de Aragua venezuelano e de outras organizações criminosas como organizações terroristas (Depto. de Estado, 20 fev. 2025; Casa Branca, fev. 2025), movimento que inseriu o combate ao narcotráfico na gramática jurídica do contraterrorismo e preparou o terreno para o uso da força. No Panamá, a pressão sobre a gestão do canal levou o governo Mulino a abandonar a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês); em El Salvador, a aliança com Nayib Bukele converteu o sistema prisional salvadorenho em peça da política de deportações estadunidense, com o envio, já em 15 de março de 2025, de 238 venezuelanos ao Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) (TIME, jun. 2025). Essa política atingiu escala inédita. Com o orçamento do ICE ampliado em cerca de 400%, o governo reportou aproximadamente 600 mil deportações até dezembro, meta fixada pelo czar de fronteira Tom Homan e recebida com ceticismo por especialistas (Newsweek, out. 2025).
A externalização do asilo completou essa arquitetura migratória. Ao longo de 2025, Washington teceu uma rede de acordos de “país seguro” e de cooperação em matéria de asilo que transfere a países latino-americanos o processamento de solicitações de asilo de solicitantes presentes nos Estados Unidos. Honduras assinou o primeiro em 8 de março, emendado em junho para aplicação retroativa e publicado em julho, com exclusão de menores desacompanhados e de portadores de visto válido (Federal Register, 8 jul. 2025). Seguiram-se o Paraguai, em 14 de agosto, apresentado por Rubio como peça de uma parceria estratégica mais ampla de segurança, diplomacia e economia (Depto. de Estado, 14 ago. 2025); Belize, em 20 de outubro, com veto absoluto sobre as transferências, limites de nacionalidade e de número e ratificação parlamentar pendente (PBS, 21 out. 2025); e o Equador, cujo acordo, firmado por notas diplomáticas em julho, só se tornou público com a publicação no Federal Register em 17 de novembro, reservando ao país a discrição de aceitar ou recusar cada transferência e vedando o envio de menores desacompanhados (Federal Register, 17 nov. 2025). O sigilo que cercou parte desses instrumentos é indicativo do custo político doméstico desses instrumentos para os governos anfitriões.
A coerção econômica também foi mobilizada como instrumento de acerto de contas político. Em julho, o Brasil foi alvo de tarifas punitivas, anunciadas por Trump em carta publicada no Truth Social como sobretaxa de 50% e justificadas abertamente pelo julgamento de Jair Bolsonaro, qualificado de “caça às bruxas” (Americas Quarterly, jul. 2025); a ordem executiva de 30 de julho formalizou a medida como tarifa adicional de 40% sobre os 10% “recíprocos” já vigentes (Casa Branca, EO 14323, 30 jul. 2025), episódio que subordinou a agenda comercial à disputa política doméstica em um país terceiro. O encontro entre Lula e Trump em outubro abriu caminho para a retirada parcial das tarifas em novembro, celebrada pelo governo brasileiro como sinalização de respeito (Agência Brasil, nov. 2025), mas sem dissolver, contudo, a assimetria do enquadramento. Na direção oposta, a Argentina de Javier Milei recebeu em outubro um pacote de resgate de US$ 20 bilhões, na forma de swap cambial, explicitamente desenhado para sustentar as perspectivas eleitorais do aliado (CNN Brasil, out. 2025; Reuters, 27 out. 2025). Trump condicionou publicamente o socorro à vitória de Milei nas legislativas de 26 de outubro (CNN Brasil, 26 out. 2025), e o Tesouro, que chegou a comprar pesos no mercado, vinculou o pacote ao afastamento da China do setor argentino de minerais críticos (Reuters, 9 out. 2025), caso exemplar de uso do poder financeiro estatal norte-americano como instrumento de alinhamento político regional. A Colômbia percorreu o caminho inverso. Em setembro, por alegada insuficiência no combate às drogas, viu seu presidente, Gustavo Petro, ser pessoalmente sancionado pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro (OFAC, na sigla em inglês) em outubro, sob acusação de envolvimento no “comércio ilícito global de drogas” (Tesouro dos EUA, 24 out. 2025). No mesmo movimento de recompensa aos alinhados, a Casa Branca anunciou, em 13 de novembro, molduras de acordos de comércio recíproco com Argentina, Equador, Guatemala e El Salvador, trocando alívio tarifário seletivo por compromissos regulatórios e pela renúncia a impostos sobre serviços digitais (USTR, 13 nov. 2025).
O vetor propriamente militar emergiu em setembro, quando teve início a campanha de ataques aéreos contra embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico no Caribe, estendida em outubro ao Pacífico oriental e posteriormente enquadrada na Operação Southern Spear (New York Times, dez. 2025; AP, dez. 2025). Até o fim de 2025, contavam-se 32 ataques e mais de 115 mortos (WOLA, abr. 2026), sem que a administração apresentasse publicamente evidências sobre a carga ou a filiação das embarcações. O ano fechou com dois lances complementares. Em Honduras, Trump interveio abertamente na eleição presidencial, ameaçando cortar apoio financeiro caso Nasry Asfura não vencesse e proclamando o indulto do ex-presidente Juan Orlando Hernández, condenado nos EUA por narcotráfico (CNN Brasil, dez. 2025); no Equador, a população rejeitou em referendo (60,6% pelo “não”) o retorno de bases militares estrangeiras (Al Jazeera, 17 nov. 2025), revés que, como se veria, não impediria a cooperação militar por outras vias. Em novembro, a Estratégia de Segurança Nacional formalizou o Corolário Trump, convertendo a prática acumulada do ano em doutrina declarada ao anunciar a intenção de “reafirmar e aplicar a doutrina Monroe” (Casa Branca, 2025, pp. 5 e 15).
3. América Latina em 2026: Trump 2, ano 2
O segundo ano abriu com o gesto que deu nome à doutrina. Em 3 de janeiro, uma operação batizada Operação Absolute Resolve, com mais de 150 aeronaves partindo de vinte bases regionais e cerca de 200 militares em solo (DefenseScoop, 3 jan. 2026), capturou Nicolás Maduro e Cilia Flores em território venezuelano, transferindo-os para Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo, operação que Marco Rubio descreveu como “de aplicação da lei”, mas que observadores qualificaram como ruptura flagrante de soberania (Chatham House, jan. 2026; Depto. de Estado, jan. 2026; Commons Library, jan. 2026). A incursão custou cerca de 75 vidas, entre elas 32 cubanos, 23 venezuelanos e ao menos dois civis (Costs of War, 2026). Trump declarou que os EUA iriam “administrar” a Venezuela até uma transição “segura, adequada e judiciosa”, chegando a se apresentar como presidente “interino” do país em postagem no Truth Social (Euronews, 12 jan. 2026). Na prática, a Suprema Corte venezuelana designou a vice Delcy Rodríguez como presidente interina (empossada em 5 de janeiro), que combinou continuidade do regime com acomodação aos interesses norte-americanos, com liberação de mais de 300 presos políticos, aprovação preliminar de lei permitindo exploração petrolífera privada e quase duplicação das exportações de petróleo, de 489 mil para 800 mil barris diários entre dezembro e o início de fevereiro (CFR, 2026). Seis meses depois, não há plano de eleições, pois o mandato constitucional de trinta dias foi ignorado, e a avaliação corrente é a de uma transação, não de uma transição (International Crisis Group, 2026). O regime segue governando, agora nos termos ditados por Washington.
As reações regionais expuseram a fratura do campo latino-americano (Reuters, 3 jan. 2026). Petro denunciou agressão injustificada, pediu reunião do Conselho de Segurança da ONU e deslocou forças para a fronteira com a Venezuela (The Guardian, 3 jan. 2026); Sheinbaum reivindicou o diálogo como “único meio legítimo” de resolução de conflitos; Boric e Orsi manifestaram preocupação com as implicações para as relações hemisféricas; o Brasil afirmou que os bombardeios e a captura do presidente venezuelano ultrapassavam “a linha do inaceitável”, classificou a ação como afronta grave à soberania da Venezuela, levou a condenação ao Conselho de Segurança da ONU e convocou, em 15 de janeiro, reunião com a cúpula militar para avaliar as implicações da operação (CNN Brasil, jan. 2026); Milei e Noboa, no polo oposto, saudaram a operação como promoção da liberdade no continente, enquanto o cubano Miguel Díaz-Canel a qualificou de “terrorismo de Estado” (Reuters, 3 jan. 2026; The Guardian, 3 jan. 2026). Trump capitalizou o momento para ampliar o horizonte de ameaças. Nos primeiros dias de janeiro, acenou com ação militar contra a Colômbia, afirmou que Cuba parecia “prestes a cair” e anunciou que os ataques aos cartéis passariam a “atingir terra”, sustentando que “os cartéis governam o México” (ABC News, 5 jan. 2026; The Hill, 8 jan. 2026). A reconciliação telefônica com Petro em 7 de janeiro ilustrou o padrão pendular de escalada e distensão que caracteriza o método.
A partir de março, a doutrina ganhou arquitetura institucional. Entre o fim de janeiro e meados de março, as molduras comerciais de novembro foram convertidas em acordos assinados, com El Salvador (29 de janeiro), Guatemala (30 de janeiro), Argentina (5 de fevereiro) e Equador (13 de março) (USTR, 2026; CFR, mar. 2026). Em 20 de fevereiro, após decisão da Suprema Corte em Learning Resources v. Trump, a ordem executiva Ending Certain Tariff Actions encerrou as tarifas baseadas na IEEPA, inclusive a sobretaxa de 40% ao Brasil, deslocando a pressão bilateral do terreno tarifário para o securitário (Suprema Corte, 20 fev. 2026; Casa Branca, 20 fev. 2026). Em cúpula realizada em Doral, na Flórida, em 7 de março, convocada oficialmente como Escudo das Américas (“Shield of the Americas”) (Depto. de Estado, mar. 2026), Trump anunciou uma “coalizão militar” contra os cartéis que envolveu os líderes alinhados aos EUA da região, excluindo ostensivamente Sheinbaum, que recusara assistência militar norte-americana (Al Jazeera, 7 mar. 2026; Newsweek, 2026). O encontro reuniu dezessete países e lançou a coalizão anticartéis A3C (Americas Counter-Cartel Coalition); Lula, Petro e Sheinbaum não compareceram (AS/COA, mar. 2026). O Equador tornou-se o caso-limite da nova cooperação. Apesar do referendo de novembro, o governo Noboa admitiu a presença de tropas norte-americanas e operações conjuntas, incluindo bombardeios na fronteira com a Colômbia que, segundo apurações posteriores, destruíram uma fazenda de gado sem vínculo comprovado com grupos armados (The Intercept, 23 mar. 2026; InSight Crime, mar. 2026); em 18 de junho, o Decreto Executivo 424 concedeu imunidade a pessoal estrangeiro de “Estados cooperantes” no marco do conflito armado interno (El Universo, 18 jun. 2026; UPI, 19 jun. 2026). A campanha naval prosseguiu e, entre 2 de setembro de 2025 e 31 de março de 2026, o inspetor-geral do Departamento de Defesa contabilizou ao menos 45 ataques a embarcações, com 156 mortos ou desaparecidos (DoD IG, mai. 2026); o projeto Costs of War, da Brown University, estimava ao menos 163 mortes no mesmo período (Costs of War, 2026). No plano migratório, a Costa Rica assinou em março acordo para receber até 25 deportados de terceiros países por semana, com financiamento norte-americano e apoio da Organização Internacional para as Migrações (Al Jazeera, 26 mar. 2026); o primeiro grupo, de 25 pessoas de oito nacionalidades, chegou em abril, somando o país a uma rede global de 27 Estados dispostos a receber deportados que não podem retornar a seus países de origem (Tico Times, 12 abr. 2026). Honduras consolidou o alinhamento com a posse de Asfura em 27 de janeiro; o Brasil viu PCC e Comando Vermelho designados como organizações terroristas (Depto. de Estado, 28 mai. 2026; Al Jazeera, 29 mai. 2026), o que inseriu o país na arquitetura de sanções do OFAC, e negocia, sob a pressão residual das tarifas, uma agenda bilateral em que Washington cobra maior engajamento no combate aos carteles (CNN Brasil, 2026). O paraguaio Santiago Peña, por sua vez, declarou apoio explícito à doutrina, afirmando que a América Latina se beneficiará dela (Bloomberg, 20 fev. 2026). No terreno comercial, análises apontavam República Dominicana, Uruguai, Paraguai, Chile e Costa Rica como candidatos naturais a rodadas futuras de acordos recíprocos, com Peru, Brasil, Colômbia, Panamá e Honduras diante de barreiras políticas ou jurídicas; até julho de 2026, porém, nenhum desses novos acordos havia sido formalizado (Americas Quarterly, nov. 2025).
O vetor eleitoral completou o quadro no primeiro semestre de 2026. No Chile, José Antonio Kast venceu o segundo turno de 14 de dezembro de 2025 com 58% dos votos contra Jeannette Jara e assumiu em março, deslocando o país do campo crítico para o campo alinhado (Al Jazeera, 14 dez. 2025). No Peru, Keiko Fujimori derrotou Roberto Sánchez no segundo turno de 7 de junho, em pleito apertadíssimo, e foi imediatamente saudada pelo Departamento de Estado, que prometeu aprofundar a cooperação em segurança, investimento e comércio (Depto. de Estado, jun. 2026). Na Colômbia, Abelardo de la Espriella derrotou Iván Cepeda no segundo turno de 21 de junho, por 49,7% contra 48,7%, com posse marcada para 7 de agosto (IRI, jun. 2026). O caso colombiano condensa o repertório de pressões que precedeu as urnas. A descertificação do país na política antidrogas, a revogação do visto de Petro, as sanções do OFAC contra o presidente e seu círculo, os cortes e condicionamentos da assistência aprovados pelo Congresso norte-americano e o endosso público de Trump ao candidato após o primeiro turno compuseram um ambiente eleitoral deliberadamente adverso ao oficialismo (CRS, jun. 2026). Nos três países, Washington não precisou repetir a ameaça explícita empregada em Honduras. A combinação de sanções, tarifas e sinais de favor financeiro reorganizou os incentivos em favor de candidatos dispostos ao alinhamento, e os três eleitos acenaram de imediato com agendas comuns de segurança e investimento (Newsweek, 2026).
Figura 1. Doutrina Donroe (julho de 2026). Países resistentes, completamente alinhados e centristas sob influência; Venezuela sob intervenção dos EUA. (Elaboração própria)

O status da doutrina Donroe em meados de 2026 pode ser assim sintetizado. A doutrina consolidou-se como declaração (inscrita na Estratégia de Segurança Nacional e nomeada pelo próprio presidente) e como prática operacional (intervenção na Venezuela, campanha naval permanente, operações terrestres no Equador, coalizão de Doral), mas permanece contestada estruturalmente. O ciclo eleitoral de 2025 e 2026 estreitou o campo da recusa, com Chile, Peru e Colômbia migrando para o alinhamento, ao mesmo tempo em que a guerra do Irã e a crise de combustíveis dela derivada começaram a elevar o custo econômico da dominância (Politico, 6 abr. 2026). A contestação se inscreve em três registros. O primeiro é a resistência dos governos que recusam o enquadramento (México, Brasil e Uruguai, campo a que a Colômbia de Petro pertence apenas até a posse de De la Espriella, em agosto). O segundo reside nos limites internos revelados pelo caso venezuelano, em que domínio militar não se converteu em transição política. O terceiro é a fragilidade normativa de um ordenamento hemisférico fundado na exceção (execuções extrajudiciais no mar, sanções contra chefes de Estado, captura de um presidente em exercício), cuja reprodução depende menos de hegemonia consentida do que de coerção continuada. Se por um lado, a doutrina redefiniu o tabuleiro, por outro, ainda não estabilizou, até aqui, uma ordem hemisférica.
Referências
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