Uma nova crise migratória mobilizou o governo da Espanha após cerca de 60 mil pessoas cruzarem a fronteira do Marrocos com Ceuta em 24 horas. O volume de entradas no exclave espanhol no norte da África equivale a mais da metade da população local, estimada em 83,6 mil habitantes, e levou Madri a implantar tropas do Exército para reforçar a segurança na região.
As forças de segurança espanholas confirmaram a recuperação de ao menos 34 corpos nas águas da costa. Fontes policiais citadas por agências locais indicam que o número de mortos na travessia pode chegar a 43.
A maior parte dos recém-chegados é composta por jovens marroquinos, embora também haja famílias com mulheres e crianças, além de cidadãos de outros países africanos. O ápice do fluxo ocorreu quando centenas de pessoas se lançaram simultaneamente ao mar, contornando a pé ou nadando os quebra-mares da praia de Tarajal, que demarcam o limite territorial. Outros grupos tentaram transpor as cercas terrestres.
Resposta militar e desdobramentos diplomáticos
Diante do colapso nos centros de acolhimento e da sobrecarga da Guarda Civil e da Polícia Nacional, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, deslocou-se até o território autônomo acompanhado do ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska. Na cidade, forças de segurança isolaram a área central para coordenar o atendimento e organizar a retirada de pessoas das vias públicas.
A União Europeia declarou apoio irrestrito a Madri e sinalizou o envio da Frontex, agência europeia de controle de fronteiras, para reforçar o perímetro. Ceuta e a vizinha Melilla representam as únicas fronteiras terrestres diretas entre a União Europeia e o continente africano.
Em nota, o sindicato policial espanhol Jupol criticou a postura do país vizinho. “Enquanto a Espanha mobiliza todos os seus recursos para atender esta crise, Marrocos permanece impassível diante de uma situação que se repete periodicamente e que termina recaindo exclusivamente sobre a Polícia Nacional“, afirmou a entidade.
Até o momento, não foram apresentados indícios de participação direta do governo marroquino na liberação das passagens. As autoridades espanholas investigam a ação de redes criminosas de tráfico humano que teriam incentivado o movimento massivo.
Fatores de atração e devoluções
A movimentação ocorre após uma recente decisão do Supremo Tribunal da Espanha, que determinou que migrantes interceptados por via marítima não podem ser devolvidos de forma imediata pela fronteira terrestre, exigindo análise individualizada.
Paralelamente, promessas de anistia e regularização para estrangeiros sem documento atraíram a atenção internacional, embora a medida aprovada pelo governo abranja apenas pessoas que já comprovavam residência no país antes da entrada em vigor da lei, regra que não beneficia os recém-chegados.
O processo de retorno, contudo, já teve início. O Ministério do Interior marroquino informou que mais de 25 mil pessoas já regressaram ao seu país de origem, parte delas de forma voluntária, diante do isolamento e da hostilidade de residentes locais. Os migrantes que permanecerem em Ceuta passará por triagem para análise de eventuais pedidos de proteção internacional.
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