3 de agosto de 2026

A Itália na guerra contra o Irã, por Luciano Fazio

O apoio militar aos países do Golfo que auxiliam o ataque ao Irã é uma missão de paz ou uma participação em uma guerra?
Tensão no Mar Mediterrâneo - Reprodução tela Jornal Nacional

Itália participa secretamente da guerra contra o Irã ao lado dos EUA, com militares em bases no Golfo Pérsico desde março.
Governo italiano negou envolvimento público, mas tropas protegem cidadãos e apoiam países parceiros na ofensiva contra Teerã.
A participação oculta levanta dúvidas sobre legalidade e democracia, com debate público e mídia italianos praticamente ausentes.

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A Itália na guerra contra o Irã: participação oculta e democracia manca

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por Luciano Fazio

Os italianos não sabiam até a semana passada. Ninguém lhes havia contado. Ninguém lhes perguntou se eles concordavam. E, no entanto, há cinco meses a Itália participa, na prática, da guerra ao lado dos Estados Unidos contra o Irã.

Em março passado, o governo italiano declarou publicamente: “Esta não é a nossa guerra”, negando qualquer participação na agressão contra Teerã. Além de contrária ao direito internacional, é também uma guerra “suja”, marcada também por ataques contra civis e contra infraestruturas essenciais, como os sistemas de abastecimento de água potável.

Eis que aquela posição pública ocultou um apoio prestado de forma reservada.

Procuremos reconstruir os fatos.

  1. Os Estados Unidos e Israel atacam o Irã utilizando bases militares situadas nos países do Golfo Pérsico, cujos governos poderiam impedir sua utilização, mas optam por autorizá-la.
  2. O Irã reage atacando Israel, os países que colaboram com a agressão e as bases militares norte-americanas instaladas na região.
  3. Desde março, militares italianos estão posicionados na Arábia Saudita, no Kuwait e no Bahrein, equipados com sistemas de radar, baterias de mísseis e meios aéreos. Segundo o governo, sua missão é “proteger os cidadãos italianos e apoiar os países parceiros da região do Golfo”. Na prática, porém, contribuem para defender a coalizão que sustenta a guerra de agressão contra o Irã, permitindo que continue a ofensiva sem arcar diretamente com todas as suas consequências.

Diante disso, surgem naturalmente algumas perguntas:

  • Nessas circunstâncias, a Itália está do lado do direito internacional ou não?
  • O apoio militar aos países do Golfo que auxiliam o ataque ao Irã é uma missão de paz ou uma participação em uma guerra?
  • Por que o governo italiano ocultou essa presença militar até que ela fosse revelada por um jornalista?

Não se trata de perguntas secundárias. Uma guerra dessa natureza não é um episódio corriqueiro de política externa, mas uma decisão grave que envolve diretamente a democracia.

A Constituição italiana afirma que a República “repudia a guerra” como instrumento de ofensa à liberdade de outros povos e a admite apenas como forma extrema de defesa do país. Além disso, essa participação não decorre de nenhuma obrigação internacional.

Apesar disso, os meios de comunicação italianos dedicam pouquíssimo espaço ao assunto. O debate público é praticamente inexistente. As redes sociais parecem distraídas. Predomina um grande silêncio, que reflete o constrangimento diante de uma participação militar injustificada e indefensável que, por outro lado, parece ser considerada inevitável em nome da “lealdade” italiana aos Estados Unidos.

Essa situação lança uma sombra inquietante sobre a qualidade da democracia italiana.

Se democracia significa que o povo participa das decisões fundamentais do país, então a decisão de participar de uma guerra representa um de seus testes mais importantes. E, sob esse aspecto, nos últimos meses a Itália parece não ter sido aprovada.

Vem-me à memória a canção «O Ano que Virá», de Lucio Dalla. Nela é retratada uma sociedade que permanece “sem falar durante semanas inteiras”, enquanto do lado de fora há “sacos de areia junto à janela”: a imagem de um país que convive com a guerra sem reagir.

Hoje, essa imagem parece assustadoramente atual. A Itália está envolvida em uma guerra, mas continua sem falar sobre ela.

A democracia não pode limitar-se a estar escrita na Constituição. Ela precisa ser vivida, praticada e defendida todos os dias, sobretudo quando estão em jogo decisões de tamanha gravidade. É por isso que, infelizmente, na Itália de hoje, a democracia parece manca.

Luciano Fazio – Matemático pela Università degli Studi de Milão e pós-graduado em Previdência Social e Gestão de Fundos de Pensão pela FGV. Trabalha com consultoria e formação nas áreas de economia e previdência e é consultor externo do Dieese para assuntos previdenciários. Autor dos livros “O que é Previdência Social”, Loyola, 2016, e “O que é Previdência do Servidor Público”, Loyola 2020.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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