4 de agosto de 2026

O Brasil é dos brasileiros, por Gustavo Tapioca

Artigo de Lula é uma defesa da soberania brasileira num momento em que a campanha presidencial de 2026 transborda as fronteiras nacionais.
Imagem gerada por IA

Lula respondeu a Trump no Washington Post defendendo a soberania brasileira e rejeitando interferências externas nas eleições.
Governo brasileiro negou vistos a representantes de Trump que questionavam a confiabilidade do processo eleitoral.
Lula e Xi Jinping reafirmaram compromisso com multilateralismo, fortalecendo a defesa da autonomia do Brasil no cenário global.

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O Brasil é dos brasileiros 

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“Ninguém derrotará o Brasil com mentiras.” 
Luiz Inácio Lula da Silva, em artigo publicado no Washington Post. 

por Gustavo Tapioca

Ao responder Donald Trump nas páginas do Washington Post e reafirmar com Xi Jinping o compromisso com o multilateralismo, Lula transforma a eleição de 2026 também numa disputa pela soberania nacional 

Não foi por acaso que Luiz Inácio Lula da Silva escolheu as páginas do Washington Post para responder ao presidente Donald Trump. Chefes de Estado costumam se comunicar por meio da diplomacia.  

Quando um presidente decide dirigir-se diretamente aos leitores do principal jornal da capital do outro país, é porque considera que o conflito ultrapassou os limites da política externa e alcançou outro patamar. 

Foi exatamente isso que Lula fez. Seu artigo não trata apenas de tarifas, comércio ou relações bilaterais. É, antes de tudo, uma defesa da soberania brasileira num momento em que a campanha presidencial de 2026 transborda as fronteiras nacionais. 

Ao afirmar que “ninguém derrotará o Brasil com mentiras” e concluir que “o destino do Brasil pertence aos brasileiros, sem interferência estrangeira nem subserviência”, Lula não respondia apenas às declarações de Donald Trump. Delimitava o novo terreno em que passa a se desenrolar a disputa política brasileira. Vista isoladamente, a publicação do artigo de Lula poderia ser interpretada apenas como mais um capítulo da escalada entre Brasília e Washington. Vista ao lado dos acontecimentos das últimas semanas assume outro significado. 

Reação imediata 

Ao levantar dúvidas sobre as urnas e defender a presença de observadores internacionais, Flávio Bolsonaro retomava um método já conhecido: produzir desconfiança suficiente para que o resultado eleitoral possa ser contestado posteriormente. Diversos analistas identificaram esse padrão em sua manifestação. 

Logo depois, o Washington Post revelou que integrantes do governo Donald Trump estudavam enviar representantes do Departamento de Estado ao Brasil para questionar publicamente a confiabilidade do processo eleitoral brasileiro. 

A reação foi imediata. O governo brasileiro negou vistos aos enviados norte-americanos, deixando claro que a organização, a fiscalização e a legitimidade das eleições pertencem exclusivamente às instituições brasileiras. 

Foi essa sucessão de acontecimentos que levou Lula a dirigir-se diretamente à opinião pública norte-americana. Mais do que responder a Trump, o presidente brasileiro procurou explicar aos leitores dos Estados Unidos que a controvérsia já não envolvia apenas tarifas ou comércio.  

O que estava em discussão era um princípio muito mais amplo: o direito de uma nação decidir livremente o próprio destino.  

Os episódios aparentemente isolados passam a compor uma mesma história. Uma história que já não trata apenas da sucessão presidencial brasileira, mas da defesa da democracia e da soberania nacional. 

A mensagem era clara 

A divergência entre os dois governos não dizia respeito apenas ao comércio. Tratava-se do direito de um país organizar suas eleições sem pressões externas, qualquer que fosse sua origem. 

Tradicionalmente, crises diplomáticas são conduzidas entre governos. Lula escolheu outro caminho. Explicou aos cidadãos norte-americanos que o Brasil discutia um princípio que interessa a qualquer democracia: a legitimidade de escolher seus governantes sem interferência estrangeira. É justamente nesse ponto que o artigo deixa de tratar apenas da relação entre Lula e Trump. E passa integrar também a luta pela soberania nacional. 

Se essa percepção estiver correta, a eleição presidencial de outubro deixará de ser apenas uma disputa entre candidatos. Passará a ser também um teste da capacidade das instituições brasileiras de preservar sua autonomia diante de pressões externas. 

Defesa da soberania 

Ao afirmar que “ninguém derrotará o Brasil com mentiras”, o presidente brasileiro responde também às narrativas que, desde 2018, procuram desacreditar o sistema eleitoral e preparar, antes mesmo da votação, um ambiente favorável à contestação dos resultados. A história recente recomenda atenção. 

Nos Estados Unidos, Donald Trump recusou-se a reconhecer sua derrota, em 2020, questionou a credibilidade das urnas, e o país assistiu, em 6 de janeiro de 2021, à invasão do Capitólio.  

No Brasil, exatos dois anos depois ocorreu o ataque de 8 de janeiro de 2023 contra a Praça dos Três Poderes, histórico dia da tentativa de golpe de Estado, liderada por Jair Bolsonaro. O roteiro foi praticamente o mesmo utilizado por Trump, em 2021, por Jair Bolsonaro antes das eleições de 2023: levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral antes da votação para, se derrotado, contestar o resultado depois.  

Impedido de se candidatar, cumprindo 23 anos de prisão, o condenado Jair Bolsonaro, lançou seu filho Zero Um, Flávio, como o candidato da extrema direita brasileira, com estreitas ligações à ultradireita global, liderada por Donald Trump. 

Os contextos são diferentes, entre Trump, Bolsonaro e, agora Flávio. A lógica política, porém, guarda uma semelhança essencial: enfraquecer previamente a confiança nas instituições para contestar o resultado das urnas. É por isso que as declarações de Flávio Bolsonaro a atuação do governo Trump e a resposta pública de Lula não devem ser analisadas como acontecimentos independentes. 

Elas fazem parte do mesmo contexto histórico. E ajudam a compreender por que a eleição presidencial brasileira passou a ser acompanhada também como uma questão de política internacional. 

A conversa com Xi Jinping 

Nos últimos anos, o Brasil consolidou uma posição singular no cenário internacional.  

Ao ampliar suas relações com os países do Sul Global, fortalecer os BRICS e diversificar seus parceiros comerciais, Lula defende uma política externa baseada na autonomia, na multipolaridade e no fortalecimento do multilateralismo. 

Essa orientação colide com a visão da administração Trump, que procura recuperar instrumentos tradicionais de influência sobre a América Latina. 

Foi nesse contexto que Lula conversou por telefone com o presidente chinês Xi Jinping.  

Ao reafirmarem o compromisso de Brasil e China com o multilateralismo e com a coordenação no âmbito da ONU, dos BRICS e de outros fóruns internacionais, os dois presidentes deixaram claro que a resposta brasileira às pressões externas não será o isolamento nem o alinhamento automático a qualquer potência, mas o fortalecimento da cooperação entre Estados soberanos. 

Esse movimento ajuda a compreender por que a eleição brasileira deixou de interessar apenas aos brasileiros. 

O Brasil ocupa hoje uma posição estratégica na reorganização da ordem internacional. Sua política externa, suas escolhas econômicas e seu papel na construção de um mundo multipolar passaram a despertar interesses que ultrapassam as fronteiras nacionais. 

Isso não significa que o resultado das eleições será decidido fora do Brasil. 

Significa apenas que as pressões externas tendem a aumentar justamente porque cresceu também a importância política, econômica e geopolítica do país.  A conversa entre Lula e Xi Jinping acrescentou um elemento novo à crise. 

 Pela primeira vez, o presidente da China manifestou explicitamente apoio ao Brasil na rejeição de “interferências externas”, transformando a defesa da soberania brasileira em tema também da diplomacia internacional. Essa talvez seja a principal mensagem do artigo publicado por Lula no Washington Post e da conversa de Lula e Xi Jiping logo após a publicação. 

O Brasil é dos brasileiros 

Não se trata de pedir solidariedade internacional nem de transformar um conflito diplomático em disputa ideológica. 

Trata-se de reafirmar um princípio elementar do direito internacional e da democracia: os brasileiros têm o direito de escolher, livremente, o próximo presidente da República. Sem tutelas. Sem intimidações. Sem interferências. 

Ao publicar seu artigo no Washington Post, Lula lembrou que eleições escolhem governos, mas também reafirmam um princípio sem o qual a própria democracia deixa de existir: o direito de uma nação decidir, sozinha, o próprio destino. 

Porque, no fim, nenhuma tarifa, nenhuma pressão diplomática e nenhuma tentativa de desacreditar nossas instituições pode alterar uma verdade elementar: 

O presidente do Brasil será escolhido pelos brasileiros. E por mais ninguém. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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  1. de O. Ribeiro

    4 de agosto de 2026 4:06 pm

    O Brasil sempre foi de alguns brasileiros, muito poucos na verdade. Os descendentes deles acreditam que isso deveria continuar assim, mas existe uma maioria consistente que insiste em querer se apossar do país. Cá a guerra de classes pode ser traduzido entre o conflito entre os herdeiros e os descendentes dos deserdados. Quando alguém do andar debaixo sobe a ladeira ele somente é aceito se renunciar ao seu passado e adotar os ideais dos herdeiros. Mas se ele insistir em levar consigo todos os demais o resultado é uma tensão imensa, como aquela que sempre ocorre quando Lula está no poder ou o disputa. Entretanto, no caso específico de Lula é preciso dizer que ele fez menos pelos descendentes dos deserdados do que pelos herdeiros dos donos do país. Os últimos ficaram fabulosamente ricos, mas alguns deles não querem apenas riqueza e poder. O que eles realmente desejam é prazer de moer gente como faziam no tempo das moendas de cana. O lucro dessa gente só é mais doce se eles poder ver e ignorar o sofrimento alheio. O “homem cordial” brasileiro se destaca não pela sua cordialidade, mas pelo seu sadismo. É por isso que os herdeiros do país consideram Jair Bolsonaro seu verdadeiro representante. Seu Jair é sádico e expressa esse sentimento de maneira inequívoca. Os filhos dele também, pois tiveram um mestre em casa.

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