Frases soltas, mas nem tanto! (II), por Izaías Almada
Enquanto as facções de direita e extrema direita na América do Sul, e não só, continuam a sonhar acordadas com uma possível intervenção estrangeira nas eleições presidenciais brasileiras de outubro, e isso e não está fora de propósito para os vendilhões da pátria, continuo a procurar em alguns dos clássicos da literatura frases que possam nos fazer refletir sobre a condição humana e suas grandezas ou fraquezas… Vamos a mais algumas delas:
“Mesmo uma guerra santa é uma guerra. Por isso talvez não devesse haver guerras santas. Mas o que estou dizendo é que estou aqui para sustentar os direitos de Ludovico que, no entanto, está incendiando a Itália. Eu também me encontro preso num jogo de estranhas alianças. Estranha aliança a dos espirituais com o império, estranha a do império com Marsílio, que pede a soberania para o povo. E estranha a nossa, de nós dois que somos tão diferentes nos propósitos e na tradição. Mas temos duas tarefas em comum: o sucesso do encontro e a descoberta de um assassino. Tentemos proceder em paz”.
Umberto Eco/O Nome da Rosa
“Os jovens apaixonados são como os famintos, os preparativos do cozinheiro não os satisfazem, pensam demasiado no desenlace para compreender os meios. Ao regressar de Touches para Guérande, Calisto estava com a alma cheia de Beatriz, ignorava a profunda habilidade feminina desenvolvida por Felicidade para, em termos consagrados, fazer progredir seus assuntos”.
Honoré de Balzac/A Comédia Humana
“Através de grossas portas,
Sentem-se luzes acesas
– e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas
como peludas aranhas
na gosma das terras densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras”.
Cecília Meireles/Romanceiro da Inconfidência
“Assim falando, percebi, na sombra, um vulto que se esgueirava detrás de um grupo de árvores perto de mim. Parei e fiquei olhando atentamente; não podia haver engano. O clarão de um relâmpago iluminou a figura e revelou perfeitamente a sua forma. Sua gigantesca estatura e a deformidade de sua aparência, mais horrível do que humana, fizeram com que percebesse imediatamente que e tratava do desgraçado e nojento demônio ao qual eu conferira a vida. Que fazia ele ali? Teria sido ele (e eu tremi a esse pensamento) o assassino do meu irmão? Nem bem essa idéia havia atravessado minha mente e eu já estava convencido de sua veracidade. Meus dentes se entrechocaram e eu fui obrigado a encostar-me numa árvore para não cair…”
Mary Shelley/Frankenstein
Amigos leitores, se ainda não o fizeram, que tal ler alguns desses livros e outros já referidos? Repito: desliguem os celulares por algumas horas, rsrsrs… Descansem o cérebro e tenham paz no coração… Senão nos transformaremos numa espécie de Mileis, Trumps e bolsonaristas, já pensaram? Pessoas que não sabem o que fazer nesse nosso mundinho contemporâneo a não ser atrapalhar a convivência entre a civilização e a barbárie.
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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