12 de agosto de 2026

Crise da Apex expõe conexões com famílias que comandam a política do Espírito Santo

Filhos de ex-governador e governador são sócios da instituição afetada por rombo milionário; cronologia aproxima Apex, Rogério Salume e Fundo Soberano do ES
Victor e Renato Casagrande, ex-governador do Espírito Santo e líder na disputa por uma vaga ao Senado Federal. Foto: Reprodução Redes Sociais

O mercado financeiro capixaba enfrenta um colapso sem precedentes com a crise da Apex Partners, instituição que geria um ecossistema de R$17,5 bilhões em ativos. O caso, apelidado nos bastidores de “Master Capixaba” e classificado por interlocutores como um cenário de “Compliance Zero”, atingiu seu ponto mais crítico com a revelação de um rombo financeiro que escalou de R$500 milhões para estimativas de R$1,4 bilhão. 

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A gravidade da situação resultou em uma demissão em massa de cerca de 80% do quadro de colaboradores e no afastamento da cúpula diretiva, após a própria empresa identificar graves inconsistências financeiras.

O impacto transcende os extratos bancários: a presença de herdeiros das principais linhagens políticas do Estado no quadro societário transforma o rombo financeiro em uma crise de influência no alto escalão do poder.

Quem são os Parentes de Políticos na Apex

A estrutura acionária da Apex Partners revela uma intrincada rede de conexões com o governo estadual.

Documentos da companhia e atas de assembleias confirmam que filhos do atual e do ex-governador ocupam postos de relevância na instituição.

Nome do EnvolvidoParentesco PolíticoFunção/Relação com a Apex
Victor CasagrandeFilho de Renato Casagrande (Ex-governador)Sócio e Diretor Institucional
Pedro ChieppeFilho de Ricardo Ferraço (Governador)Sócio e Acionista

Em meio ao avanço das investigações internas e do desgaste público, Victor Casagrande manifestou-se no Dia dos Pais através das redes sociais. O empresário adotou um tom emocional para blindar a imagem de seu pai, Renato Casagrande, separando a crise corporativa da honra familiar. “O caráter não se revela nos dias fáceis, mas justamente quando somos colocados à prova.”

Victor afirmou que o ex-governador está sendo “atacado e envolvido” em uma situação pela qual não possui qualquer responsabilidade direta. O empresário destacou que escolheu enfrentar o momento “trabalhando e assumindo as responsabilidades” que lhe cabem como executivo da Apex, buscando soluções para os investidores.

Victor Casagrande também ressaltou que o apoio da família é seu maior suporte e que sua conduta na empresa visa honrar os valores que recebeu dentro de casa.

A Conexão com o Governo: O Caso Rogério Salume

A cronologia dos fatos sugere uma ponte estreita entre operações privadas da Apex e nomeações estratégicas no Governo do Estado, centrada na figura do empresário Rogério Salume.

  1. Fevereiro de 2024: Rogério Salume vende 100% da Wine em uma operação sigilosa liderada por Fernando Cinelli (Apex) via Carbyne Mercados Regionais.
  2. Maio de 2024: Três meses após a venda, Salume é anunciado por Renato Casagrande como o primeiro presidente da Invest-ES.
  3. Julho de 2025: Salume ascende à Secretaria de Estado do Desenvolvimento (Sedes) e assume a presidência do Conselho Gestor do Fundo Soberano (Funses).
  4. Janeiro de 2026: Sob a supervisão do conselho presidido por Salume, o BTG Pactual (parceiro histórico da Apex) passa a operar o Fundo de Descarbonização, que conta com R$500 milhões em recursos do Funses.

O Impacto nas Eleições de 2026

O desdobramento do “Caso Apex” ocorre sob a sombra do calendário eleitoral. O risco reputacional é latente para as lideranças políticas cujos filhos figuram na estrutura da empresa. 

Com Ricardo Ferraço buscando a reeleição ao governo e Renato Casagrande pleiteando uma vaga no Senado, a associação das famílias a um rombo bilionário e ao termo “Compliance Zero” torna-se um flanco aberto para os adversários. A capacidade de isolar o desgaste da iniciativa privada da gestão pública será determinante para a viabilidade dessas candidaturas.

O que dizem os Envolvidos e o Governo do Estado

As defesas e o Poder Executivo têm buscado estabelecer linhas claras de demarcação sobre as responsabilidades:

  • Governo do ES: Nega veementemente qualquer aporte de recursos públicos na Apex Partners. O Estado afirma que não há ativos do Tesouro ou do Fundo Soberano (incluindo os R$500 milhões do Fundo de Descarbonização) investidos diretamente na plataforma.
  • Victor Casagrande: Reitera que seu pai não possui qualquer responsabilidade sobre as operações da empresa de investimentos.
  • Defesa de Fernando Cinelli: O fundador, afastado da presidência, afirma em nota estar comprometido em colaborar com a preservação da companhia e esclarecer os fatos com total transparência e idoneidade.
  • Direção Interina (Marcelo Murad): Foca na continuidade operacional e na contratação de auditoria independente para dimensionar o impacto real das inconsistências.

O Próximo Passo para o Investidor e para a Política

O destino da Apex Partners e de seus investidores — muitos deles empresários locais que aportaram cerca de R$300 milhões — depende agora da auditoria externa e do rigor das instâncias judiciais. A obtenção de uma liminar cautelar para blindar o patrimônio da empresa e evitar execuções imediatas oferece um fôlego temporário de 60 dias. 

No entanto, para o cenário político capixaba, o relógio corre de forma diferente. A transparência absoluta sobre as relações entre o Fundo Soberano e os parceiros da Apex será a única forma de evitar que o terremoto financeiro de Vitória se transforme em um naufrágio eleitoral em 2026.

Com ES Hoje, A Gazeta e Times Brasil

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Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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