12 de agosto de 2026

A guerra secreta de Hitler no Brasil: empresas, rádios e espionagem no Atlântico Sul

Estudo de Schnoor, Ferreira & Lacerda reconstrói parte dessa história secreta a partir de arquivos das polícias políticas brasileiras.
Reprodução

Documentos revelam que a espionagem nazista no Brasil atuou além das colônias do Sul, com centro no Rio de Janeiro.
Rede nazista infiltrou empresas, rádios e jornais, influenciando a guerra no Atlântico Sul antes da entrada oficial do Brasil.
Após 1942, Brasil combateu rede nazista; 696 pessoas foram investigadas por atividades contra a segurança nacional.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Documentos da polícia política revelam que a presença nazista no país foi muito além das colônias alemãs do Sul. Redes ligadas à Gestapo e à inteligência militar alemã penetraram empresas, meios de comunicação e círculos sociais e militares, enquanto o Brasil se transformava em peça estratégica da Batalha do Atlântico.

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A história mais conhecida da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial começa em 1942, passa pelos navios mercantes torpedeados e termina nas montanhas da Itália, com os soldados da Força Expedicionária Brasileira.

Há, porém, uma segunda guerra brasileira, muito menos conhecida.

Ela foi travada dentro do país, começou antes da entrada oficial do Brasil no conflito e envolveu agentes secretos, grandes empresas alemãs, estações clandestinas de rádio, jornalistas, jornais, empresários, militares e diplomatas.

O estudo “Eis o meu Lebensraum: o interesse da Alemanha de Hitler pelo Atlântico Sul”, dos historiadores Eduardo C. Schnoor, Fernanda Vinagre Ferreira e Rachel Wider Forjaz de Lacerda, reconstrói parte dessa história a partir principalmente dos arquivos das polícias políticas brasileiras.

A tese central muda a geografia tradicional dessa memória: o centro da espionagem nazista não estava necessariamente nas comunidades alemãs do Sul.

Estava, sobretudo, no Rio de Janeiro.

Até agosto de 1942, segundo o levantamento, a capital brasileira abrigava o centro da espionagem da Abwehr, a inteligência militar alemã, para as três Américas. Depois da declaração brasileira de guerra, o comando teria sido transferido para Buenos Aires.

Era uma estrutura estratégica. Rio e Santos concentravam movimentos portuários decisivos; Pernambuco abrigava o comando da IV Frota norte-americana e o Comando Naval do Nordeste; e o Rio Grande do Norte tinha Parnamirim Field, o chamado “Trampolim da Vitória”.

A guerra secreta acompanhava a guerra naval.

O prêmio era o Atlântico Sul

O interesse alemão pelo Brasil não pode ser explicado apenas por afinidades ideológicas.

Havia petróleo, minério de ferro, minerais estratégicos, matérias-primas e, sobretudo, geografia.

O Atlântico Sul transformara-se numa rota fundamental para o abastecimento dos Aliados. A inteligência alemã precisava saber quando os navios partiam, onde se reuniam os comboios e quais rotas utilizavam.

A documentação examinada pelos autores mostra a capilaridade da presença econômica alemã e o envolvimento de executivos e funcionários no levantamento de informações de interesse militar. O movimento portuário estava entre os principais alvos da espionagem. O estudo associa informações privilegiadas, por exemplo, ao posicionamento dos submarinos U-199 e U-170 diante da costa brasileira em 1943.

Essa interpretação encontra respaldo na historiografia especializada. O historiador Stanley Hilton dedicou um amplo estudo à espionagem militar alemã e à contraespionagem aliada no Brasil; trabalhos posteriores continuam tratando a atuação da Abwehr no país como parte importante da Batalha do Atlântico. (LSU Press⁠)

Mas os documentos reunidos por Schnoor, Vinagre e Wider acrescentam personagens e conexões especialmente reveladores.

O homem da Gestapo que distribuía publicidade

Um deles era Wilhelm Franz Koenig.

Koenig vivia no Brasil desde 1925 e dirigia o Departamento de Turismo das Estradas de Ferro Alemãs. Segundo a documentação reproduzida pelos pesquisadores, confessou sua atuação em favor da Gestapo e afirmou ter recebido instruções para preparar, antes da guerra, uma rede de relacionamentos capaz de produzir informações úteis à Alemanha.

Sua atividade mostra como propaganda, negócios e espionagem podiam ocupar o mesmo terreno.

Koenig declarou ter construído relações nos meios militares, oficiais e sociais. A rede alemã distribuía verbas publicitárias para cinco jornais, duas revistas, jornalistas e cinco emissoras de rádio do Rio de Janeiro.

Duas estações mencionadas são a Rádio Ipanema e a Rádio Mayrink Veiga.

Segundo Koenig, a embaixada alemã exercia ainda controle sobre os jornais Meio Dia e Gazeta de Notícias.

É provavelmente uma das revelações jornalisticamente mais importantes do estudo.

A máquina de influência alemã não dependia apenas de militantes ideológicos. Ela penetrava o sistema de comunicação por meio de publicidade e relações comerciais.

E a Rádio Ipanema teria uma função ainda mais delicada.

Telegramas da agência alemã Transocean eram transmitidos em determinados horários. Segundo o depoimento de Koenig reproduzido no estudo, essas comunicações podiam ser captadas por embarcações alemãs que estivessem dentro do alcance da emissora. Mensagens também podiam ser disfarçadas em textos aparentemente comerciais.

Era a espionagem escondida dentro da rotina da comunicação de massa.

Grandes empresas e uma rede subterrânea

A investigação chega então ao mundo empresarial.

Uma denúncia formalizada em novembro de 1942 contra a Stahlunion, empresa pertencente à Krupp, relacionava funcionários da companhia à rede de espionagem alemã e atribuía importância ao consulado alemão em Belo Horizonte.

A documentação menciona ainda uma organização denominada Schlaraffia, descrita nos documentos policiais como uma sociedade formada por grandes comerciantes alemães que procuravam manter relações com autoridades do governo, Exército, Marinha e arsenais.

A Stahlunion tinha uma posição econômica particularmente sensível: fornecia carvão para a Central do Brasil e exportava minério de ferro.

Quando autoridades brasileiras investigaram propriedades relacionadas à empresa no Quadrilátero Ferrífero, localizaram transmissores.

Um deles ficava na fazenda Córrego do Feijão, em Mello Franco.

Segundo o estudo, Theodor Friedrich Schlegel, Karl Thielen e o barão Nicolaus Eduard von Dellinghausen acabaram presos e condenados pelo Tribunal de Segurança Nacional.

A rede empresarial não era periférica ao sistema de espionagem.

Era parte de sua infraestrutura.

O banqueiro sob suspeita

Outra pista passa pelo sistema financeiro.

Em Petrópolis, documentos policiais colocaram sob suspeita Herman Wilhelm Sthamer, ex-diretor do Banco Transatlântico Alemão e presidente da Câmara Teuto-Brasileira de Comércio.

O banco aparece na documentação examinada pelos pesquisadores como uma das instituições relacionadas aos pagamentos da rede de espionagem no Brasil.

Um ofício policial de 1943 também acusava Sthamer de dispensar empregados que não aderissem às ideias nazistas. No ano seguinte, a polícia registrou a apreensão de materiais em sua residência, sem que o documento citado pelo estudo detalhasse seu conteúdo.

É uma pista importante, mas também um exemplo da cautela necessária ao interpretar arquivos policiais: ser citado como suspeito em um documento não equivale automaticamente a comprovação judicial de espionagem.

Essa distinção é fundamental para separar documentação histórica de sentença.

O agente “Alfredo”

No topo de outra estrutura estava Albrecht Gustav Engels, alto executivo da AEG-Telefunken.

Seu codinome era “Alfredo”.

Segundo o estudo, Engels controlava a Rede Bolívar, composta por estações clandestinas de rádio e utilizada também para comunicações entre representantes diplomáticos alemães e Berlim.

A importância de “Alfredo” aparece numa história digna de romance de espionagem — mas documentada pela historiografia.

Em 1941, o agente duplo Dusko Popov, conhecido como “Ivan”, esteve no Brasil e encontrou Engels.

Entre as preocupações da espionagem alemã estava algo que naquele momento pouquíssimas pessoas compreenderiam plenamente: urânio.

Popov relataria que Engels procurava informações sobre empresas que pesquisavam jazidas sul-americanas, processos de beneficiamento, grau de pureza e estoques do minério.

A guerra do futuro já começava a aparecer dentro da guerra presente.

O problema dentro do Estado brasileiro

A questão mais incômoda levantada pelo estudo não está apenas na eficiência alemã.

Está na demora brasileira em combatê-la.

A pesquisa cita a avaliação de Stanley Hilton segundo a qual a relativa tolerância dos órgãos de segurança do Rio poderia estar relacionada às simpatias ideológicas existentes dentro do próprio aparato estatal.

Dutra e Góes Monteiro eram considerados por contemporâneos excessivamente germanófilos. Hilton também registra simpatias de Francisco Campos e Filinto Müller pelo nacional-socialismo.

O anticomunismo funcionava como importante ponte ideológica.

Depois da Intentona Comunista de 1935, setores das elites brasileiras enxergavam a Alemanha hitlerista como uma barreira contra a expansão comunista. O estudo recorda inclusive que Hitler propôs colaboração entre a polícia política comandada por Filinto Müller e a Gestapo.

A aproximação militar também deixou símbolos constrangedores.

Dutra e Góes Monteiro receberam condecorações alemãs antes da entrada do Brasil na guerra. Outros oficiais brasileiros também foram agraciados. Em 1945, o Correio da Manhã ainda criticava o fato de as condecorações não terem sido devolvidas depois de o país ter passado a combater Hitler.

Isso não significa que o governo Vargas tenha sido simplesmente “nazista” ou aliado de Hitler.

A realidade era mais complexa.

O Brasil oscilava entre duas potências que disputavam mercados, influência política e posição estratégica. Em 1938, segundo os dados reproduzidos no estudo, Alemanha e Estados Unidos praticamente se igualavam na participação nas importações brasileiras: 25% para a Alemanha e 24,2% para os Estados Unidos. Poucos anos depois, a balança havia mudado radicalmente em favor dos norte-americanos.

Oswaldo Aranha representava dentro do governo uma das principais forças favoráveis à aproximação com Washington. O financiamento norte-americano à siderurgia brasileira também pesaria decisivamente na escolha.

Petrópolis: a outra capital da espionagem

Uma das maiores contribuições da pesquisa está em Petrópolis.

A cidade tinha uma comunidade alemã antiga e numerosa. Em 1933, segundo os pesquisadores, a unidade local do Partido Nazista contava com 410 filiados.

Os documentos da 67ª Delegacia de Polícia revelam uma rede de suspeitas, investigações, rádios clandestinos e organizações alemãs.

Um personagem especialmente intrigante é Ricardo Lodders.

A polícia apreendeu em sua residência um potente equipamento de rádio e correspondências que seriam enviadas aos Estados Unidos para análise. Lodders foi preso em agosto de 1942.

Mas sua história produziria uma coincidência histórica perturbadora.

Ao final da guerra, Lodders foi libertado e recuperou seus bens. A propriedade passou posteriormente para seu filho, Mário Lodders.

Décadas depois, a mesma propriedade seria cedida aos órgãos da repressão da ditadura militar e ficaria conhecida como Casa da Morte de Petrópolis, centro clandestino utilizado pela repressão.

O estudo não demonstra uma continuidade institucional entre a espionagem nazista e a repressão da ditadura. O que documenta é a extraordinária continuidade física e familiar daquele endereço através de dois capítulos sombrios da história brasileira.

Quando a caça começou

A mudança decisiva veio em 1942.

Depois do rompimento das relações diplomáticas com o Eixo e, sobretudo, da entrada do Brasil na guerra, a tolerância terminou.

Serviços de inteligência britânicos e norte-americanos passaram a colaborar no rastreamento das comunicações alemãs. Equipamentos mais modernos permitiram interceptar transmissões, identificar operadores e localizar estações clandestinas.

O resultado foi uma ampla ofensiva.

Segundo os dados reunidos pelos autores, 696 pessoas responderam a inquéritos criminais no Tribunal de Segurança Nacional, acusadas de envolvimento em atividades contra a segurança nacional.

Mas houve também arbitrariedades.

A repressão atingiu pessoas simplesmente por falarem alemão, possuírem objetos de origem germânica ou pertencerem às comunidades de imigrantes. Os próprios pesquisadores fazem questão de distinguir os agentes efetivamente envolvidos em espionagem da perseguição indiscriminada contra alemães e descendentes.

É uma distinção essencial.

A existência comprovada de uma rede nazista não transforma toda a comunidade alemã brasileira em quinta-coluna.

Uma guerra que ocorreu diante dos brasileiros

O documento permite, enfim, reinterpretar o papel brasileiro na Segunda Guerra Mundial.

Antes de os pracinhas desembarcarem na Itália, o Brasil já ocupava posição central numa disputa geopolítica entre Alemanha e Estados Unidos.

A guerra passava pelos portos.

Pelas mineradoras.

Pelos bancos.

Pelas emissoras de rádio.

Pelos anúncios de jornal.

Pelos gabinetes militares.

E pelas estações clandestinas escondidas em casas e propriedades rurais.

A Alemanha nazista não precisava conquistar militarmente o Brasil para considerá-lo estratégico. Precisava de influência política, acesso econômico, matérias-primas e informações capazes de orientar sua guerra submarina no Atlântico.

O Brasil, por sua vez, demorou a perceber que já estava dentro da guerra.

Quando percebeu, descobriu que parte dela estava sendo travada dentro de suas próprias fronteiras.

E que alguns dos soldados daquela guerra secreta não usavam uniforme.

Usavam terno, dirigiam empresas, frequentavam salões, compravam publicidade, administravam bancos e transmitiam mensagens pelo rádio.

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