Entre o sol da liberdade e a sombra alheia
por por André Augusto Araújo Oliveira, Cesar Vieira, Isabela Walter, Ísis Detomi e Vivane Almeida
Em um país acostumado a se enxergar pela régua dos outros, soberania também é recuperar o direito de escolher seus próprios caminhos
“Você tem o direito de permanecer em silêncio. Tudo o que disser poderá e será usado contra você em um tribunal.” Se essas frases lhe parecem familiares, não é por acaso. É bastante provável que você tenha passado algum tempo diante de filmes e séries produzidos nos Estados Unidos, repetidos à exaustão nas telas de todo o mundo. Máquina Mortífera (1987), Bad Boys (1995), MIB: Homens de Preto (1997), The Rookie (2018): muda o elenco, muda a história, muda a década, mas a frase continua lá, quase como uma senha de acesso ao país onde a Justiça funciona, a polícia conhece seus procedimentos e a democracia parece vir de fábrica.
Nem tudo o que aprendemos sobre os Estados Unidos estava escrito na lei. Muita coisa estava escrita no roteiro. Um roteiro que, durante décadas, nos apresentou um país onde quase tudo parecia funcionar melhor do que aqui. As escolas eram melhores, os carros eram maiores, os tribunais eram eficientes, a polícia conhecia seus procedimentos e os cidadãos pareciam saber exatamente quais eram os seus direitos. Não era apenas entretenimento. Aos poucos, fomos aprendendo uma espécie de gramática do país perfeito.
Talvez seja aí que Nelson Rodrigues tenha encontrado a expressão perfeita para uma certa maneira brasileira de olhar para o mundo: o complexo de vira-latas. Quando se passa tempo suficiente diante de um país em que tudo parece funcionar, é fácil começar a imaginar que o problema está sempre do nosso lado da tela. O país que aparece ali parece pronto; o nosso, eternamente em obras.
O problema é que essa fantasia de ordem e cidadania universal acaba funcionando por aqui como uma cortina de fumaça. Ao projetarmos essa imagem quase asséptica sobre a nossa realidade, mascaramos a trama concreta da vida nas nossas periferias, onde a exceção sempre foi a regra e o Estado nunca precisou de aviso prévio para suspender direitos. Esse roteiro importado não apenas vende uma ilusão externa; ele nos ensina a naturalizar a nossa própria precariedade, fazendo com que a violência cotidiana, o controle social e a segregação pareçam desvios individuais, e não engrenagens estruturadas da nossa formação.
Só que existe uma pequena inconveniência chamada realidade. E ela, às vezes, tem um senso de humor que Hollywood não prevê. Em 2026, o Democracy Report, do V-Dem Institute, colocou o Brasil à frente dos Estados Unidos em quatro de seus principais indicadores democráticos. Isso não faz do Brasil uma democracia perfeita — e ainda bem que não precisamos fingir que faz. Mas talvez seja um bom momento para desconfiar um pouco das imagens que aprendemos a admirar. Desconfiar delas não significa virar as costas para o mundo. Significa, antes de tudo, perguntar quem escolhe as nossas prioridades. O que fazemos porque precisamos fazer e o que fazemos apenas porque parece bonito quando visto de fora? Talvez a soberania começa justamente aí: na liberdade de olhar para os próprios problemas antes de procurar no espelho dos outros a imagem de um país que deveríamos ser.
Essa soberania passa, obrigatoriamente, por enxergar que a imposição desses modelos nunca foi desinteressada. Ela faz parte de um projeto histórico de dominação que articula poder econômico, controle ideológico e a subordinação do nosso planejamento político. Nossas cidades e territórios sempre foram tratados pelas potências centrais como espaços de extração e consumo, moldados de acordo com cartilhas externas de “boa governança” que despolitizam o debate, apagam o conflito real e tiram da nossa própria sociedade o direito fundamental de decidir os rumos do seu desenvolvimento.
Nunca houve uma intervenção tão explícita e declarada de um país dominante como no processo eleitoral deste ano. Assim, é importante relembrar que a dependência no Brasil vai além dos efeitos do balanço de pagamento, das diferenças de importação e exportação. Diz também sobre um passado colonial que não superamos e que nos diferencia de outras experiências nacionais.
Nosso territorio foi organizado como um espaço mercantil voltado para fora, cujo sentido sempre foi a submissão externa e a segregação racial. A soberania é também superar questões estruturais e ter força própria capaz de controlar o seu destino histórico.
É parar de fazer coisas para inglês ver e começar a fazer coisas para quem vive aqui.
André Augusto Araújo Oliveira é mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela UCSAL e doutorando em Arquitetura e Urbanismo pelo IAU-USP. Atua nas áreas de desigualdade social, direito à cidade, habitação de interesse social e estudos territoriais, com enfoque em práticas antirracistas. Integra e coordena o Núcleo de Serviço Social da Maitá ATHIS e é membro da Rede BrCidades.
Cesar Vieira é jornalista, documentarista e membro da equipe de comunicação da Rede BrCidades.
Isabela Walter é arquiteta e urbanista, doutoranda em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da UNICAMP e colaboradora da Rede BrCidades.
Ísis Detomi é Arquiteta e urbanista, doutoranda no NPGAU-UFMG, integrante da Trama Coletiva e faz parte da Coordenação de Comunicação Nacional da Rede BrCidades
Viviane Almeida Mulher negra, aracajuana, arquiteta e urbanista, mestranda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Coordena a Secretaria Executiva da Rede BrCidades.
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