20 de setembro de 2026

A Cleptocracia Trump e as Terras Raras do Brasil, por Luciana Bauer

O ouro da Venezuela, a Groenlândia da Dinamarca e as terras raras do Brasil revelam transformação na disputa por recursos estratégicos.
Donald Trump por Gage Skidmore - Flickr

EUA influenciam eleições brasileiras e negócios da família Bolsonaro, com ligações a interesses de Trump e terras raras.
Investimentos de US$ 620 mi em empresa ligada a Trump Jr. visam reduzir dependência dos EUA da China em minerais estratégicos.
Brasil é foco geopolítico por reservas de terras raras, nióbio e lítio, com disputa entre capital privado, política e segurança.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A Cleptocracia Trump e as Terras Raras do Brasil

por Luciana Bauer

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A política externa de uma grande potência nunca foi inteiramente separada de interesses econômicos. Estados sempre protegeram empresas nacionais, disputaram mercados, buscaram recursos naturais e utilizaram instrumentos financeiros para alcançar objetivos estratégicos. O que parece estar mudando durante o segundo governo Donald Trump é menos a existência dessa relação do que sua intensidade, visibilidade e forma institucional. O ouro da Venezuela, a Groenlândia da Dinamarca (uma colonizadora menor canibalizada em tempo recorde) e as terras raras do Brasil revelam, em diferentes dimensões, uma transformação na disputa internacional por recursos estratégicos.

Ao mesmo tempo, segundo informações atribuídas à agencia inteligência brasileira ABIN, o Brasil estaria sofrendo uma influência significativa dos Estados Unidos em seu processo eleitoral, enquanto interesses empresariais associados à família Bolsonaro e à Rockbridge.  A acusação veiculada pela Amado Mundo é de que a Rockbridge Network, fundada por J.D. Vance e Chris Buskirk, teria atuado em favor da campanha de Flávio, inclusive por meio de pessoas como Tallis Gomes e Pedro Sang. Tal aproximaria os interesses políticos de candidatos brasileiros especialmente Flavio Bolsonaro, em um contexto no qual também aparecem investimentos e ganhos de integrantes da família Trump relacionados ao setor de terras raras por meio da 1789 Capital e de outras empresas.

O negócio do Jair teria chances de alçar níveis recordes com a amizade nada desinteressada de Flávio e Trump prosperar em lucros pessoais para ambos.

A interpretação apresentada por Anne Applebaum na revista The Atlantic, em setembro de 2026, parte precisamente dessa transformação. Em vez de uma diplomacia na qual Estado, empresas e interesses privados possuem papéis formalmente distintos, a autora descreve um ambiente em que esses atores podem convergir em torno de redes pessoais, afinidades ideológicas e oportunidades econômicas. Tarifas, sanções, vistos, negociações diplomáticas, investimentos, plataformas digitais e acesso a autoridades passam, nessa leitura, a integrar uma mesma arquitetura de poder. Applebaum chama atenção para o fato de que essa não seria simplesmente uma política externa “isolacionista”, mas uma política externa intervencionista de natureza diferente, mais transacional e mais diretamente conectada às redes políticas e econômicas que cercam o movimento MAGA. Essa é uma interpretação da autora, e não uma descrição consensual entre especialistas; seu valor analítico, contudo, está em oferecer uma chave para observar episódios que, isoladamente, poderiam parecer desconectados.

O Brasil ocupa lugar privilegiado nessa construção argumentativa. Applebaum inicia seu exame pela crise entre Washington e Brasília e descreve como instrumentos que tradicionalmente pertenciam ao repertório da política econômica e diplomática — tarifas, sanções financeiras e restrições de visto — passaram a ser utilizados em conexão com uma disputa política e judicial brasileira envolvendo Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal. A autora chama atenção também para o enfraquecimento dos canais diplomáticos convencionais entre o governo Lula e Washington, enquanto personagens ligados ao universo político de Trump conseguiam acesso muito mais direto ao governo americano. Em sua narrativa, esse deslocamento cria espaço para intermediários privados, empresários e pessoas próximas ao círculo político de Trump, cuja capacidade de obter acesso às autoridades americanas passa a adquirir valor econômico. É nesse ponto que o Brasil deixa de aparecer apenas como um país submetido à pressão de uma potência estrangeira e passa a ser apresentado como um laboratório de uma nova forma de exercício do poder internacional, na qual a diplomacia formal convive com redes informais de influência e interesses econômicos.

A relevância dessa hipótese aumenta quando se observa que, no mesmo período, as investigações da ProPublica começaram a revelar uma série de situações envolvendo Donald Trump Jr., seus investimentos privados e empresas situadas em setores considerados estratégicos pelo próprio governo americano. O caso mais importante é o da Vulcan Elements, empresa dedicada à produção de materiais relacionados às terras raras e aos ímãs permanentes. Em agosto de 2025, a empresa anunciou US$ 65 milhões em investimentos, incluindo capital da 1789 Capital, empresa de venture capital à qual Trump Jr. havia se associado depois da eleição de seu pai. Cerca de três meses depois, o Pentágono anunciou um financiamento de US$ 620 milhões para a Vulcan, acompanhado de outros recursos e incentivos públicos. A ProPublica revelou, entretanto, que a solicitação para o financiamento havia sido iniciada por Peter Navarro, alto funcionário da Casa Branca e amigo de Trump Jr., e que o processo teria sido acelerado depois da intervenção da Casa Branca. Fatos que explorei no artigo O Lado B das Tarifas.

A questão institucional e ética é central porque o caso reúne, em uma mesma operação, três elementos de enorme relevância: uma empresa privada ligada ao portfólio de uma gestora associada ao filho do presidente; um setor mineral considerado estratégico para a segurança nacional; e uma intervenção originada no núcleo político da Casa Branca. Segundo a ProPublica, a avaliação da Vulcan teria passado de aproximadamente US$ 200 milhões quando a 1789 Capital investiu para cerca de US$ 2 bilhões após o acordo com o governo. O dado não significa que Trump Jr. tenha obtido pessoalmente esse ganho, mas também não exclui. Parlamentares dos EUA passaram a exigir esclarecimentos sobre a relação entre política industrial, dinheiro público e interesses privados.

A família presidencial como espaço de convergência entre política e negócios

A importância dessa questão aumenta quando se observa o conjunto de negócios associados à família Trump. Applebaum argumenta que a característica distintiva do atual momento não é simplesmente a existência de empresários próximos ao governo, algo recorrente na história política americana, mas a dificuldade crescente de estabelecer uma fronteira clara entre os interesses econômicos da família presidencial, os interesses de seus aliados e a política externa do próprio Estado. Em sua análise, empresas de tecnologia, criptomoedas, energia, defesa e mineração de terras raras encontram-se em posições estratégicas dentro da nova ordem internacional, enquanto integrantes do círculo Trump mantêm relações econômicas ou políticas com esses mesmos setores. A autora apresenta essa convergência como parte de um fenômeno que denomina, em diferentes passagens, de “cleptocrático”; trata-se, porém, de uma interpretação crítica de Applebaum, e não de uma classificação jurídica estabelecida por uma autoridade independente.

A investigação da ProPublica sobre o casamento de Donald Trump Jr. introduziu uma dimensão diferente, mas igualmente relevante, nessa discussão. Em setembro de 2026, o veículo revelou que Umar Kremlev, empresário russo ligado ao círculo de Vladimir Putin e presidente da International Boxing Association, financiou centenas de milhares de dólares em despesas relacionadas às celebrações do casamento de Trump Jr. nas Bahamas, incluindo a locação de uma ilha privada e outras despesas de grande porte. O próprio Trump Jr. e sua esposa posteriormente confirmaram que Kremlev havia pago duas noites de celebrações posteriores à cerimônia, caracterizando a contribuição como um presente de um amigo. A reportagem registrou ainda que o dinheiro passou por uma entidade sediada em Dubai ligada à organização esportiva dirigida por Kremlev, que recebeu financiamento da empresa estatal russa Gazprom.

O episódio provocou imediatamente uma nova investigação parlamentar. Robert Garcia, principal democrata do Comitê de Oversight da Câmara, solicitou documentos financeiros e comunicações relacionados à relação entre Trump Jr. e Kremlev, argumentando que a situação levantava questões de segurança nacional e corrupção pública. Novamente, é necessário preservar a distinção entre investigação e conclusão: a existência do pagamento e da relação pessoal foi documentada pela reportagem, mas a investigação parlamentar ainda precisa esclarecer sua natureza, finalidade e eventuais implicações. O interesse institucional do episódio decorre precisamente da pergunta que permanece sem resposta: por que um empresário russo ligado ao círculo de Putin decidiu financiar despesas de grande valor relacionadas ao casamento do filho do presidente dos Estados Unidos? A questão não pressupõe uma resposta; ela explica a necessidade da investigação.

Esses dois episódios — Vulcan e Kremlev — pertencem a campos diferentes. Um envolve investimento empresarial e financiamento público em um setor mineral estratégico; o outro envolve uma relação pessoal e financiamento privado estrangeiro de despesas familiares. Não há base suficiente para afirmar que existe uma conexão operacional entre eles. Existe, entretanto, uma conexão analítica: ambos colocam em discussão a mesma fronteira institucional, aquela que separa o poder exercido em nome do Estado dos interesses privados que orbitam a família presidencial. Essa fronteira se torna particularmente sensível quando a família do presidente atua em mercados diretamente relacionados à política externa, à segurança nacional ou a interesses de governos estrangeiros.

Do dinheiro à matéria-prima: por que as terras raras mudam a natureza da disputa

As terras raras introduzem uma dimensão que não pode ser compreendida apenas como questão comercial. Esses elementos químicos são utilizados em tecnologias civis e militares, inclusive em ímãs permanentes, eletrônicos, veículos elétricos, sistemas de defesa e equipamentos de alta tecnologia (U.S. GEOLOGICAL SURVEY, 2026; U.S. DEPARTMENT OF ENERGY, 2026a). A concentração do processamento mundial em poucos países, sobretudo na China, transformou o controle dessas cadeias em uma questão de segurança econômica para os Estados Unidos e seus aliados. É nesse contexto que o governo americano passou a direcionar recursos públicos para empresas capazes de produzir, processar e transformar minerais críticos em componentes de maior valor agregado. O caso Vulcan deve ser lido dentro dessa política mais ampla: o financiamento do Pentágono foi apresentado como parte do esforço para reduzir a dependência americana das cadeias chinesas de minerais críticos.

O Brasil ocupa posição excepcional nessa nova geografia mineral. O Mineral Commodity Summaries 2026, do U.S. Geological Survey, estima as reservas brasileiras de terras raras em aproximadamente 21 milhões de toneladas, enquanto a produção brasileira de 2025 foi estimada em cerca de 2 mil toneladas (U.S. GEOLOGICAL SURVEY, 2026). A diferença entre o tamanho das reservas e o nível atual de produção é reveladora: o Brasil possui enorme potencial geológico, mas ainda não ocupa posição proporcionalmente equivalente na cadeia industrial global de processamento e fabricação dos produtos de maior valor agregado.

É justamente nesse intervalo entre recurso natural e capacidade industrial que a geopolítica contemporânea se instala. A disputa internacional não ocorre apenas para controlar jazidas. Ela envolve financiamento das minas, tecnologia de processamento, separação química dos elementos, fabricação de ímãs permanentes, propriedade intelectual, infraestrutura logística e acesso aos grandes mercados consumidores. Um país pode conservar integralmente a propriedade jurídica de seu território e de seus recursos minerais e, ao mesmo tempo, permitir que a maior parcela do valor econômico seja capturada em outras jurisdições. A soberania mineral, portanto, não pode ser reduzida à propriedade do minério. Ela envolve a capacidade de decidir sobre a cadeia de valor integral dos minerais críticos e estratégicos e também a possibilidade de reter a inovação tecnológica associada a eles.

Essa questão é particularmente importante porque o Brasil não possui apenas terras raras. O país ocupa posição central também em minerais como nióbio e possui reservas e projetos relevantes em lítio, níquel, grafite e outros materiais considerados estratégicos para a transição energética e para tecnologias avançadas. O próprio USGS registra a presença de empresas estrangeiras na mineração brasileira de minerais estratégicos, incluindo ativos de nióbio e outros recursos (U.S. GEOLOGICAL SURVEY, 2026). O debate brasileiro, portanto, não deveria limitar-se a saber qual potência estrangeira deseja comprar determinado minério, mas a compreender como diferentes cadeias de capital, tecnologia e mercado podem determinar a distribuição internacional do valor gerado por esses recursos.

Na narrativa de Applebaum, esse esvaziamento dos canais tradicionais abriu espaço para intermediários privados. A autora relata que empresários e pessoas próximas ao círculo de Mar-a-Lago passaram a oferecer acesso a autoridades americanas e que, em determinado episódio, um investidor teria vinculado esse acesso a interesses relacionados a minerais estratégicos brasileiros. O episódio é apresentado pela autora como relato de suas fontes e não como fato judicialmente estabelecido. Sua importância analítica reside, entretanto, em mostrar como o valor de um recurso mineral pode aparecer associado ao valor do acesso político. Nesse modelo, a negociação de um recurso estratégico não ocorre necessariamente apenas entre dois Estados ou entre empresas devidamente identificadas; ela pode ser atravessada por redes pessoais e políticas capazes de aproximar o investidor do centro decisório.

A aproximação entre Washington e Brasília descrita por Applebaum também teria envolvido canais empresariais. A autora destaca a atuação de Joesley Batista, empresário da JBS, e menciona a contribuição de US$ 5 milhões feita por uma subsidiária americana da empresa para a posse de Trump. Segundo sua narrativa, Batista ajudou a estabelecer canais que contribuíram para encontros entre Lula e Trump e, posteriormente, para uma redução parcial das tarifas. Independentemente da avaliação política desse episódio, sua relevância para o argumento do artigo está na substituição parcial da diplomacia tradicional por redes de acesso privado. O empresário passa a exercer uma função que se aproxima da intermediação diplomática, enquanto o valor de suas relações pessoais com o governo americano pode coincidir com seus próprios interesses empresariais.

A questão dos minerais se torna inseparável da questão democrática. Se o acesso ao governo pode ser obtido por meio de relações privadas, e se os recursos minerais estratégicos representam ativos econômicos cada vez mais valiosos, a capacidade de intermediar essas relações torna-se também uma forma de poder. O problema não é que empresários participem da diplomacia econômica — isso é comum em democracias. O problema surge quando os canais privados começam a substituir, em escala significativa, os mecanismos públicos de transparência, responsabilização e representação institucional.

A eleição brasileira e a dimensão ideológica da nova política externa

Applebaum amplia sua análise ao observar que a relação de Washington com o Brasil não se restringiria às questões comerciais e minerais. Em sua interpretação, existe também uma dimensão ideológica: o governo Trump estaria disposto a favorecer movimentos e políticos estrangeiros considerados alinhados ao MAGA. O caso brasileiro aparece, nessa perspectiva, associado à família Bolsonaro. A autora menciona a candidatura de Flávio Bolsonaro, a atuação internacional de Eduardo Bolsonaro e a reação do Departamento de Estado à condenação judicial deste último, além de relatar que o governo americano teria planejado enviar representantes ao Brasil para contatos com grupos que contestam o sistema eleitoral. A possibilidade de que plataformas digitais americanas pudessem favorecer determinado grupo político é apresentada por Applebaum como hipótese de um interlocutor brasileiro. E se lembrarmos a pressão que as Big Techs fazem para não serem submetidas a lei no Brasil isso se torna patente.

Essa dimensão ideológica é importante porque completa o triângulo que estrutura a hipótese deste artigo. De um lado está o poder político, que utiliza tarifas, sanções, vistos e diplomacia para pressionar governos. De outro está o capital privado, que encontra oportunidades em setores como tecnologia, energia, defesa e mineração. No terceiro vértice estão as redes ideológicas transnacionais, que aproximam partidos, movimentos e lideranças estrangeiras do núcleo político americano. Applebaum argumenta que esses três elementos não são necessariamente coordenados por uma única organização; eles podem convergir porque seus interesses são compatíveis. É justamente essa convergência que produz o que ela descreve como uma política externa mais permeável a interesses privados e a alianças ideológicas.

O resultado é uma forma de internacionalização da política doméstica americana. Em vez de simplesmente representar os interesses institucionais dos Estados Unidos perante outros governos, a política externa passa a interagir diretamente com as disputas políticas internas de outros países. O Brasil aparece como exemplo especialmente sensível porque a disputa em torno de Bolsonaro, do Supremo Tribunal Federal e das eleições brasileiras se combina, na mesma narrativa, com a disputa por tarifas, comércio e minerais estratégicos. O recurso natural deixa de ser apenas uma questão econômica e passa a coexistir com uma disputa sobre quem terá acesso ao poder político brasileiro e sobre quais grupos serão considerados aliados de Washington.

A Groenlândia e o limite territorial dessa nova geopolítica

A Groenlândia representa o caso em que essa lógica alcança sua dimensão territorial mais explícita. Durante o segundo governo Trump, a possibilidade de aquisição da Groenlândia pelos Estados Unidos deixou de ser uma especulação marginal e tornou-se uma questão central da relação entre Washington, Copenhague e Nuuk. O interesse americano não pode ser reduzido a uma única variável: a ilha possui localização estratégica no Ártico, relevância militar, recursos minerais e importância crescente na competição entre Estados Unidos, Rússia e China. Applebaum descreve a presença de empresários, enviados informais e interesses privados no debate groenlandês como parte de um ambiente em que se tornou difícil separar completamente segurança nacional, diplomacia e oportunidades econômicas.

Em 18 de setembro de 2026, contudo, a disputa entrou em uma nova fase. Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia chegaram a um acordo de segurança que amplia a presença e o acesso militar americano na ilha, sem transferir formalmente a soberania. O acordo preserva o status territorial da Groenlândia, ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades americanas de utilização de instalações e infraestrutura militar e estabelece restrições à presença de investimentos e instalações de potências adversárias.

A Groenlândia é relevante para o Brasil não porque os dois casos sejam juridicamente comparáveis, mas justamente porque não são. A Groenlândia é um território autônomo dentro do Reino da Dinamarca; o Brasil é um Estado soberano. Não existe fundamento para afirmar que Washington esteja buscando repetir no Brasil qualquer fórmula territorial semelhante à discutida para a Groenlândia. A comparação relevante é outra: em ambos os casos, recursos naturais estratégicos adquirem valor extraordinário em um momento de reorganização das cadeias globais e de intensificação da competição entre grandes potências. A diferença é que, no Brasil, a disputa ocorre principalmente no terreno econômico, tecnológico, financeiro e diplomático.

O Brasil como próxima fronteira mineral

Neste contexto de expansão da atuação internacional dos Estados Unidos, o Brasil passa a ocupar uma posição particularmente sensível. A questão não pode ser analisada apenas à luz da tradição constitucional e dos valores historicamente associados à política externa americana, mas também a partir da transformação contemporânea das relações entre segurança nacional, recursos estratégicos, capital privado e competição entre grandes potências.

O Brasil aparece em vários pensadores ligados ao Vale do Silício, principalmente em torno de figuras como Peter Thiel. James Dale Davidson, autor de Brazil Is the New America: How Brazil Offers Upward Mobility in a Collapsing World, apresenta como tese central a ideia de que oBrasil poderia se beneficiar da deterioração relativa das economias desenvolvidas, especialmente dos Estados Unidos. Para ele, o Brasil reuniria características que poderiam favorecer sua ascensão: vastos recursos naturais, território, agricultura, energia, população relativamente jovem, mercado interno grande e espaço para aumento da produtividade. O país teria, portanto, uma espécie de “opção de crescimento” que economias maduras já não possuem na mesma escala. Essa combinação de território, recursos naturais e possibilidade de absorção de tecnologia torna o Brasil particularmente atraente para setores tecnológicos e financeiros interessados em novas fronteiras de investimento.

À medida que Washington procura reduzir sua dependência das cadeias chinesas de minerais críticos, países capazes de oferecer alternativas passam a adquirir importância crescente. O Brasil, com suas reservas de terras raras e sua posição em outros minerais estratégicos, naturalmente entra nesse cálculo.

É justamente nesse ponto que o caso Vulcan ganha significado para o Brasil. A importância do episódio não está apenas nos US$ 620 milhões envolvidos, mas no fato de que o governo americano identificou uma empresa privada de terras raras como peça de uma estratégia nacional destinada a reduzir a dependência da China. O financiamento público tornou-se instrumento de política industrial e de segurança nacional. Se esse modelo se expandir internacionalmente, o próximo passo lógico será a busca de cadeias minerais fora do território americano. O Brasil estará necessariamente entre os países observados por investidores, governos e empresas interessados em diversificar essas cadeias. E segundo Trump devera vender seus minérios para EUA por bem ou por mal.

É nesse sentido que o Brasil pode constituir uma nova fronteira dessa geopolítica — não porque esteja demonstrado que os Estados Unidos pretendam “tomar” o Brasil, e muito menos porque exista evidência de uma repetição do caso groenlandês, mas porque o país reúne uma combinação excepcional de território, escala econômica, biodiversidade e recursos minerais estratégicos. As estimativas do USGS de 21 milhões de toneladas de reservas brasileiras de terras raras (U.S. GEOLOGICAL SURVEY, 2026) colocam o país em posição de enorme relevância potencial na reorganização das cadeias globais de minerais críticos.

O desafio brasileiro será, por isso, muito mais complexo do que decidir entre Estados Unidos e China. Será decidir se o país conseguirá transformar seus recursos minerais em capacidade tecnológica própria ou se permanecerá predominantemente na posição de fornecedor de matéria-prima para cadeias produtivas controladas por terceiros. A soberania do século XXI não se mede apenas pela capacidade de impedir que outro Estado atravesse uma fronteira. Mede-se também pela capacidade de decidir o destino econômico dos recursos existentes dentro dessa fronteira.

Nesse quadro, a disputa pelos recursos estratégicos brasileiros não pode ser dissociada da disputa pelo poder político. A hipótese que emerge da convergência entre os elementos examinados é a de que interesses econômicos associados à cleptocracia e interesses geopolíticos podem se retroalimentar: a influência sobre processos eleitorais e sobre grupos políticos pode ampliar o acesso a decisões de Estado, enquanto o controle ou a influência sobre recursos estratégicos pode produzir novos interesses econômicos capazes de reforçar essas mesmas redes políticas.

É nessa interseção entre dinheiro, poder, eleições e recursos naturais que se torna necessário compreender a atuação dos Estados Unidos no Brasil e as formas pelas quais Washington procura alterar ou influenciar o ambiente político-eleitoral brasileiro. Com interesse de estado e particulares de seu governante.

REFERÊNCIAS

AMADO MUNDO. Rockbridge: tem dinheiro estrangeiro na campanha do Flávio? Amado Mundo, set. 2026. Disponível em: https://amadomundo.com/dinheiro-estrangeiro-campanha-flavio-rockbridge/. Acesso em: 19 set. 2026

APPLEBAUM, Anne. MAGA Is Making the World Safe for Corruption. The Atlantic, 2026. Disponível em: https://www.theatlantic.com/magazine/2026/10/maga-foreign-policy/688352/. Acesso em: 19 set. 2026.

BAUER, Luciana. O lado B das tarifas dos Estados Unidos ao Brasil. ICL Notícias, 30 out. 2025.

FATURECHI, Robert. The White House Intervened to Get a $620 Million Deal for a Company Tied to Donald Trump Jr. ProPublica, 28 maio 2026. Disponível em: https://www.propublica.org/article/donald-trump-jr-vulcan-deal-white-house. Acesso em: 19 set. 2026.

FATURECHI, Robert. Lawmakers Demand Answers After White House Intervened in $620M Deal. ProPublica, 3 jun. 2026. Disponível em: https://www.propublica.org/article/donald-trump-jr-vulcan-lawmakers-letter. Acesso em: 19 set. 2026.

PROPUBLICA. Donald Trump Jr.’s Bahamas Wedding Was Secretly Bankrolled by Russian Oligarch Close to Putin. ProPublica, 14 set. 2026. Disponível em: https://www.propublica.org/article/donald-trump-jr-wedding-bankrolled-russian-oligarch-umar-kremlev-putin. Acesso em: 19 set. 2026.

PROPUBLICA. Top Oversight Dem Opens Investigation of Donald Trump Jr.’s Russian Oligarch-Funded Wedding. ProPublica, 15 set. 2026. Disponível em: https://www.propublica.org/article/donald-trump-jr-wedding-umar-kremlev-payments-investigation. Acesso em: 19 set. 2026.

U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths. Reston: U.S. Geological Survey, 2026. Disponível em: https://pubs.usgs.gov/periodicals/mcs2026/mcs2026-rare-earths_ver.1.2.pdf. Acesso em: 19 set. 2026.

U.S. DEPARTMENT OF ENERGY. DOE’s Office of Critical Minerals and Energy Innovation Announces Over $45 Million To Support Reliable and Affordable Domestic Critical Mineral and Material Supply Chains. Washington, D.C., 19 maio 2026. Disponível em: https://www.energy.gov/cmei/articles/does-office-critical-minerals-and-energy-innovation-announces-over-45-million-support. Acesso em: 19 set. 2026.

U.S. HOUSE JUDICIARY COMMITTEE DEMOCRATS. Ranking Member Raskin Demands Answers from Donald Trump Jr.’s 1789 Capital on Corrupt Insider Deals. Washington, D.C., 27 ago. 2026. Disponível em: https://democrats-judiciary.house.gov/media-center/press-releases/ranking-member-raskin-demands-answers-from-donald-trump-jr-s-1789-capital-on-corrupt-insider-deals. Acesso em: 19 set. 2026.

THE ATLANTIC. The Greenland Fiasco Stumbles to an End. The Atlantic, 2026. Disponível em: https://www.theatlantic.com/national-security/2026/09/greenland-denmark-trump-military-deal/688717/. Acesso em: 19 set. 2026.

Luciana Bauer é advogada e fundadora do coletivo climático Jusclima e professora de Filosofia do Direito e Direitos Climáticos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados