22 de setembro de 2026

Presidenciáveis precisam usar evidências científicas na Segurança Pública, aponta SBPC

Apesar da defesa de um Ministério da Segurança Pública, os presidenciáveis pecam em pensar políticas públicas usando dados e evidências.
Foto: Divulgação - PM/Ceará

SBPC analisou planos de governo dos presidenciáveis sobre segurança pública, destacando propostas e convergências com a ciência.
A maioria defende criação do Ministério da Segurança Pública e uso de tecnologia, mas falha em políticas baseadas em dados.
Propostas variam de desmilitarização e combate a facções até aumento de verbas, integração policial e redução da maioridade penal.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Por Rafael Revadam, do Jornal da Ciência/SBPC

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A Segurança Pública é um dos temas com ideias mais próximas entre presidenciáveis e a comunidade científica, como a defesa de uma pasta ministerial dedicada ao tema e melhores aparatos tecnológicos, incluindo o uso da inteligência artificial. Entretanto, o distanciamento das recomendações acadêmicas aparece quando o tema sai do âmbito estrutural e as reflexões entram no entendimento entre direitos, punições e a importância de políticas construídas com evidências.

Estes diagnósticos compõem uma análise realizada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) com base nos documentos submetidos pelas candidaturas ao Tribunal Superio Eleitoral. Para a análise, a SBPC iniciou a busca pela palavra-chave “segurança pública” e averiguou as partes dos documentos dedicadas à área. Posteriormente, realizou uma leitura analítica dos planos de governo, de modo a identificar se a promoção às políticas de segurança pública estava inclusa em outros setores, como políticas sociais e de Educação.

As ações sugeridas pela comunidade científica estão no caderno “O Brasil que Queremos: Ciência, Democracia e Soberania” (acesse a íntegra aqui), que reúne 117 propostas organizadas em sete eixos temáticos, sendo o eixo IV Democracia e Segurança Pública. Quando as propostas envolvem a estruturação da área de Segurança Pública, elas se aproximam dos diagnósticos da comunidade científica. Inclusive, a primeira das recomendações dos acadêmicos é recorrente nos planos de governo: a necessidade de criação de um Ministério da Segurança Pública.

“Criar o Ministério da Segurança Pública, com especialistas da área no comando, é condição para articular segurança como política transversal, que envolve saúde, educação, urbanismo e economia. É preciso aprovar marco legal que submeta as polícias ao controle democrático efetivo, com exercício real do controle externo pelo Ministério Público e metas verificáveis para a investigação de mortes causadas por agentes do Estado, além de proibir indicadores e gratificações que premiem mortes em confronto”, explica a presidente da SBPC, Francilene Garcia.

Apesar da defesa pela pasta ministerial, os presidenciáveis pecam em um elemento crucial: pensar as políticas públicas usando dados e evidências.

“Nada disso se faz sem informação: dados de violência desagregados por raça, gênero, identidade e território são a condição para revelar os cruzamentos de vulnerabilidade que os agregados nacionais escondem. A universidade tem parte nessa construção: a Rede Universitária Segurança Pública para Todos, que articula a SBPC, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e instituições de ensino superior, existe para produzir as evidências que devem alimentar um debate hoje dominado por convicções”, complementa Garcia.

Esta análise é parte das iniciativas do Observatório das Eleições 2026, uma ação da SBPC que busca reunir candidatos de diferentes esferas públicas que se comprometam abertamente com o desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) no País, além de buscar dar visibilidade à CT&I no processo político. Confira um resumo das principais propostas de cada presidenciável, organizadas em ordem alfabética conforme seus registros no TSE:

Com um plano de governo organizado em tópicos e indicadores, a candidata do partido Democracia Cristã (DC), Clariana Barão tem uma parte dedicada à Segurança Pública. Entre as políticas, defende o combate ao narcotráfico e ao tráfico de armas, o sufocamento financeiro das facções e programas de segurança urbana orientados por dados – entretanto, não dá detalhes sobre as iniciativas que defende.

Já o candidato Edmilson Costa, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), defende a completa desmilitarização da segurança pública e a criação de uma política de segurança dos direitos humanos: “no lugar da segurança pública baseada na repressão à classe trabalhadora, à população pobre e aos moradores das periferias”. Também defende a revogação completa da lei antiterrorismo (12.850/2013), além do reforço às políticas de combate ao machismo, à misoginia, ao racismo, à lgbtfobia e ao capacitismo.

Para o candidato Escritor Augusto Cury, do partido Avante, uma reforma administrativa é necessária no âmbito da Segurança Pública com o objetivo de tornar o Estado mais eficiente, moderno e orientado a resultados. Cury tem, entre suas promessas, a recriação do Ministério da Segurança Pública, cujo foco será a redução da criminalidade. Também promete a criação da polícia FOCO (Força de Combate Preventivo), que será composta pela integração entre Polícia Federal, Polícias Civis, Polícias Militares e Guardas Municipais. A integração entre União, estados e municípios também é defendida para o combate às facções criminosas, além de iniciativas de modernização tecnológica e de uso da inteligência artificial (IA) no combate a crimes. Sobre o atual sistema prisional, afirma que o foco será em educação, trabalho e ressocialização efetiva, “combatendo a superlotação e a ação das facções dentro dos presídios”.

O candidato do Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, tem um dos maiores planos dedicados à Segurança Pública, prometendo dobrar a verba federal à área. Inicia seu programa afirmando que PCC (Primeiro Comando da Capital), CV (Comando Vermelho), milícias e outras facções serão declaradas organizações narcoterroristas. Afirma, ainda, que seu governo vai apoiar e sancionar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, além de garantir punições para maiores de 14 anos que cometerem crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato. Entre os destaques estaria a construção de cinco novos presídios de segurança máxima, o fim da progressão de regime a presos que cometeram crimes hediondos, a castração química de condenados a violências a mulheres e crianças e a criação do programa Muralha Brasileira, um sistema nacional de reconhecimento facial integrado a bancos de dados criminais – inspirado nos programas Smart Sampa, da Prefeitura de São Paulo, Muralha Paulista, do Governo do Estado paulista – e que busca, além de localizar foragidos e prevenir crimes, vigiar portos, aeroportos e áreas públicas com mais de 1 milhão de novas câmeras.

O candidato Hertz Dias, do Partido Socialista Dos Trabalhadores Unificado (PSTU), dedica um capítulo inteiro de seu plano de governo à Segurança Pública. Assim como demais presidenciáveis, defende o combate ao crime organizado, máfias, milícias,  facções e demais organizações criminosas por meio de técnicas de inteligência e desarticulação de negócios. Também defende o confisco dos bens obtidos por atividades criminosas, a descriminalização das drogas e revogação da Lei Antidrogas – que afirma ser necessária para o combate ao narcotráfico –, além da implantação de câmeras corporais para todos os agentes de segurança pública e o fim da Justiça Militar.

Candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Lula defende que as ações de Segurança Pública devem ser coordenadas com integração de dados, inteligência, prevenção, repressão qualificada e políticas baseadas em evidências. Afirma que vai aprimorar dois mecanismos sancionados em 2026: a Lei Antifacção e o Programa Brasil Contra o Crime Organizado, que visam ações coordenadas com estados e municípios. Promete, ainda, a consolidação do Sistema de Inteligência de Segurança Pública e Justiça Criminal, a modernização do SINESP (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas) e a ampliação das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs). Por fim, destaca a revogação dos decretos editados no governo anterior que facilitavam o acesso a armas de fogo, necessário para manter “uma política de controle de armas e munições”, e promete a criação de um Ministério da Segurança Pública, necessário para a execução das políticas nacionais de segurança pública na área.

Candidato do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), Pablo Marçal – que está com a candidatura em julgamento na Justiça Federal – tem uma das maiores partes de seu plano dedicada à Segurança Pública. Entre as propostas, propõe a criação de um Plano Nacional de Combate às Facções, o confisco ampliado de patrimônio criminoso, um Sistema Integrado de Vigilância para as fronteiras do País, a modernização das leis penais

contra organizações criminosas, além da transformação de presídios em centros de ressocialização.

Já o candidato do partido Missão, Renan Santos, alega que o maior problema do Brasil de hoje é a violência. Para isso, criou o lema “Prendeu, Matou”, que não se trata da eliminação de presos, mas permitir que “forças de segurança tratem como inimigos aqueles que ameaçam a segurança dos cidadãos e a soberania do Estado Brasileiro. Policiais devem capturar todos os líderes desses grupos anômalos e, quando houver perigo ou resistência, neutralizá-los da maneira mais eficiente”. Entre suas políticas, o candidato defende a retirada de direitos políticos, civis e a restrição de liberdade de locomoção para indivíduos comprovadamente associados a facções; a criação de uma Comissão Nacional de Classificação composta por agências federais com poder administrativo imediato e a instituição de um Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) com estrutura colegiada no Ministério Público; além de intervenção federal em estados com controle territorial faccional, e emprego das Forças Armadas via Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com autorização para uso de força pesada em territórios classificados como dominados.

Candidato do Partido Social Democrático (PSD), Ronaldo Caiado defende, em seu plano de governo, a criação do Ministério da Segurança Pública e do Sistema Integrado de Proteção à Soberania Nacional. Também defende uma atualização nas legislações que regem o País, de modo a reconhecer as organizações criminosas como organizações que desafiam o Estado Democrático de Direito, além da criação de um Sistema Nacional de Inteligência Criminal, que integre os bancos de dados da União, dos estados, do Distrito Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Assim como os demais presidenciáveis, também ressalta a necessidade de modernização nos sistemas de investigação criminal com inteligência artificial e demais avanços tecnológicos. Defende, ainda, a redução da maioridade penal para 18 anos e o enfrentamento a jogos de aposta online, entendendo estes como ameaça econômica, social e de saúde pública.

O candidato Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária (PCO), não menciona em seu plano de governo ações de Segurança Pública e não apresenta projetos que se encaixem ao tema.

Candidata pelo partido Unidade Popular (UP), Samara defende a desmilitarização e unificação das políticas, e o fim da política que chama de “Guerra nas Periferias”, que, segundo ela, são operações policiais truculentas e sem inteligência preventiva que acabam corroborando com o genocídio da juventude negra e periférica. Neste ponto, defende a fiscalização e o controle das armas e munições em posse do governo. Defende também o fim de políticas punitivas no combate às drogas – alegando que o tema deve ser tratado no âmbito da saúde pública –, a reformulação dos atuais CCS (Conselhos Comunitários de Segurança) em assembleias populares e a articulação das políticas de segurança com emprego, educação, cultura, esporte, assistência social, moradia e urbanização das periferias.

Já pelo partido Democrata, o presidenciável registrado no TSE como Veterinário Wilson Grassi também segue na linha de combate ao crime organizado e defende a aprovação da PEC 18/2025, conhecida como PEC da Segurança Pública, que busca alterar a Constituição Federal para redefinir regras sobre segurança pública, defesa social, sistema penitenciário e atividade de inteligência. Também defende a modernização do SINESP, como o candidato Lula, e uma consulta popular sobre o modelo penitenciário de segurança máxima.

Por fim, o candidato Zema, do Partido Novo, também defende classificar, nacional e internacionalmente, as facções criminosas como organizações terroristas, além de mais aparato às Forças Armadas e a construção de mais presídios de segurança máxima – dessa vez, dedicados aos presos de facções. Zema também integra o time de presidenciáveis a favor da redução da maioridade penal para 16 anos, além de prometer uma reforma no Código Penal para garantir penas duras e proporcionais à gravidade de crimes violentos, hediondos e patrimoniais. Como diferencial, defende que os estados tenham autonomia para definir seus próprios crimes e penas, adicionalmente às regras federais.

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