Uma comitiva de 15 pessoas ligada ao bilionário estadunidense Peter Thiel esteve reunida em São Paulo em maio deste ano, em um movimento que antecede as eleições de outubro. A informação foi revelada pelo jornalista Paulo Motoryn, na newsletter Noites Húngaras, em parceria com a newsletter CTRL+Z | Parem as máquinas, ca partir de registros internos do hotel de luxo Rosewood obtidos por uma fonte do estabelecimento.
O documento registra a estada sob a identificação “Thiel Capital & Presidio One”. A primeira empresa administra a fortuna pessoal do empresário, enquanto a segunda compartilha o mesmo endereço em Los Angeles. Entre os hóspedes identificados estavam Hanna Leeke, assistente executiva pessoal de Thiel, Andrew Dias, diretor de tecnologia da gestora, e a funcionária Kaitlin Leard. A permanência do grupo ocorreu em quartos com diárias estimadas entre R$ 15 mil e R$ 20 mil.
A justificativa oficial para o desembarque do cofundador do PayPal e da Palantir Technologies foi a participação em um encontro da Enter, startup brasileira de inteligência artificial aplicada ao setor jurídico, avaliada em mais de US$ 1 bilhão e que conta com investimento do empresário. A dimensão da comitiva e o tempo de permanência na capital paulista, contudo, levantaram alertas sobre a presença do grupo no país a poucos meses do pleito.
“Às vésperas da campanha eleitoral, é importante a gente analisar essa visita e entender quem é Peter Thiel para entender o que está em jogo agora no mês de outubro”, afirmou Motoryn ao ICL Notícias.
Avanço na América Latina e uso de dados
Peter Thiel é uma das figuras mais influentes da extrema-direita nos Estados Unidos. O empresário foi um dos primeiros nomes do Vale do Silício a apoiar Donald Trump, financiou a ascensão política do atual vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, e é cofundador da Rockbridge Network, rede conservadora voltada para influenciar campanhas e mobilização política. Em 2009, o investidor declarou publicamente não acreditar mais que liberdade e democracia fossem compatíveis.
O braço operacional e tecnológico dessa atuação é a Palantir, empresa cofundada por Thiel e especializada na integração e análise de grandes volumes de dados. A companhia, que recebeu aportes iniciais da In-Q-Tel — fundo de venture capital ligado à CIA —, presta serviços para órgãos de inteligência e defesa, como o serviço de imigração dos EUA (ICE) e o governo de Israel.
Na Argentina, o bilionário aproximou-se do presidente Javier Milei, comprou um imóvel em Buenos Aires e adquiriu, por meio da Thiel Macro, cerca de US$ 76 milhões em ações da produtora de petróleo Vista Energy, com atuação na jazida de Vaca Muerta. A presença do empresário gerou protestos de rua e motivou audiências no Congresso argentino.
“A presença de Peter Thiel na Argentina e sua relação com o governo Milei foram motivo de escândalo por lá, levaram a protestos de rua porque o Thiel não é só mais um bilionário do Vale do Silício que se alinha à ultradireita americana, ele talvez seja o mais perigoso deles. A sua principal empresa tem uma tecnologia superpoderosa de cruzamento de dados e que se coloca a serviço sobretudo do Estado norte-americano, mas também de Israel, fazendo uma espécie de espionagem das populações a partir desse cruzamento massivo de dados que tem em sua empresa”, declarou o jornalista.
No Brasil, a Palantir opera no setor privado, onde mantém contrato com a TV Globo desde 2019 para integração de mais de 2 petabytes de dados. Na esfera governamental, a ferramenta Foundry foi utilizada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), via Serpro, até ser descontinuada em julho deste ano, sob a alegação de operar apenas dados públicos. A presença do sistema no governo federal motivou pedidos de informação apresentados no Congresso Nacional pelo deputado Rui Falcão (PT-SP).
Conexão política e cenários para outubro
Ao analisar o cenário brasileiro, Motoryn enfatizou a necessidade de acompanhar a movimentação do grupo antes da ida dos eleitores às urnas.
“É essa turma que desembarcou em uma comitiva de peso em um hotel de ultraluxo em maio, faltando poucos meses para o início da campanha eleitoral, em um contexto em que a interferência dos EUA na eleição brasileira não é mais uma hipótese, algo escondido. A gente precisa ficar muito atento à presença dessas figuras aqui”, apontou.
“A possibilidade de interferência não é o simple fato de Trump reconhecer ou não uma vitória do presidente Lula, faz parte de todo esse ecossistema dos empresários e aristocratas ligados à sua gestão que interferem por meio de suas empresas e atividades aqui no Brasil”, completou o jornalista.
A Thiel Capital e a Enter foram procuradas para prestar esclarecimentos sobre a agenda e os objetivos da comitiva no país, mas não se manifestaram.
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