Um documento anônimo entregue em um envelope fechado no gabinete do então senador Antonio “Tony” Barrios teria sido o ponto de partida de uma iniciativa parlamentar que ajudou a desencadear a crise política envolvendo o Ueno Bank e o presidente paraguaio Santiago Peña.
A revelação foi feita pelo próprio Barrios, agora novo vice-presidente da República, em entrevista na qual atribuiu ao ex-presidente Horacio Cartes papel central na articulação do pedido de informações ao Banco Central do Paraguai (BCP).
Segundo Barrios, o documento descrevia supostas irregularidades na instituição financeira. Depois de receber o material, ele procurou especialistas do setor bancário para avaliar a consistência das informações.
Pelo seu relato, os consultados afirmaram que as suspeitas apresentadas no texto já eram conhecidas no meio financeiro. “Quando lemos aquele relatório, ficamos muito assustados”, afirmou.
O documento não tinha assinatura nem identificação de seu autor. Barrios disse que, após tomar conhecimento do conteúdo, decidiu conversar com Cartes, que também tem atuação no setor bancário. O ex-presidente teria reagido com surpresa e preocupação diante das informações.
A partir dessas conversas, foi formado um grupo técnico para elaborar o pedido de informações ao Banco Central. A iniciativa foi apresentada por Barrios e pelos senadores governistas Basilio “Bachi” Núñez e Natalicio Chase, todos ligados ao movimento Honor Colorado.
Cartes teria sido um dos principais articuladores
Na entrevista, Barrios atribuiu a Cartes participação direta na iniciativa parlamentar. Segundo ele, o ex-presidente foi um dos primeiros a conhecer o conteúdo do documento e um dos principais incentivadores do pedido de esclarecimentos ao Banco Central. “Cartes foi um dos grandes impulsores disso”, declarou.
O pedido de informações foi apresentado em 7 de setembro e buscava esclarecer as operações do Ueno Bank, instituição que concentra recursos públicos e valores do Instituto de Previdência Social (IPS). Os parlamentares queriam verificar se o banco havia ultrapassado limites legais em operações com empresas vinculadas, além de avaliar a atuação dos mecanismos de fiscalização do Banco Central.
A iniciativa acabou se inserindo no processo que levou ao procedimento de resolução do Ueno Bank e ao posterior julgamento político de Santiago Peña.
Barrios afirmou que a resposta enviada pelo Banco Central foi insuficiente e criticou a atuação da autoridade monetária. Para ele, houve falhas de supervisão que contribuíram para a crise. “No BCP aconteceram coisas que nunca deveriam ter acontecido”, disse.
O novo vice-presidente responsabilizou a instituição pela falta de atenção aos problemas apontados, mas as declarações apresentadas na entrevista não constituem, por si só, comprovação das irregularidades mencionadas no documento anônimo.
Questionado sobre as suspeitas envolvendo Santiago Peña e sua eventual responsabilidade na situação do banco, Barrios evitou fazer acusações diretas. Disse que cabe à Justiça esclarecer os fatos e afirmou estar surpreso com as denúncias contra o presidente, com quem trabalhou durante dez anos em um projeto de governo.
O vice-presidente também relatou que não voltou a conversar com Peña durante o processo de julgamento político. O último encontro teria ocorrido em uma reunião com representantes da Associação de Bancos do Paraguai (Asoban), depois da divulgação do relatório elaborado por Fernando Rivarola, ex-auditor do Banco Central, que alertava para a situação da instituição financeira.
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