Notas sobre as peculiaridades das eleições pelo mundo, por Heba Ayyad
Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato presidencial no Brasil, o país mais populoso da América Latina e o quinto maior do mundo em extensão territorial.
Sua vitória representou um tapa na cara do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de Israel, do poderoso lobby sionista no Brasil e dos movimentos de direita em ascensão na América Latina.
Esses grupos pretendiam punir Lula por ter classificado os acontecimentos em Gaza como genocídio, congelado as relações com Israel e criticado duramente Netanyahu. Para isso, a oposição mobilizou todos os recursos disponíveis na tentativa de derrotá-lo.
No entanto, parece que Lula teve a sorte de enfrentar um adversário notadamente corrupto, filho de um político igualmente cheio de pendências com a justiça brasileira. Seu oponente foi o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Donald Trump também entrou na disputa, utilizando sua influência política, seus recursos financeiros e suas ameaças para apoiar Flávio. Entretanto, no segundo turno decisivo, o povo brasileiro concedeu a Lula uma vantagem de mais de 10,4 milhões de votos, garantindo sua vitória e provocando comemorações em todo o país.
Essas eleições demonstram que o dinheiro estadunidense, as pressões de Trump e suas ameaças não são suficientes para influenciar os rumos de uma nação que se respeita e valoriza sua soberania, como o Brasil.
O resultado contrasta com a crescente tendência de alinhamento de movimentos de direita latino-americanos a Donald Trump, observada em países como Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, El Salvador e Peru.
Mudanças no Parlamento de Israel
Com a derrota de Netaniahu, a Palestina surge sendo a segunda maior beneficiada por essa vitória. Isso significa planejar o crescimento das cidades e vilas árabes e garantir uma distribuição justa dos recursos orçamentários aos municípios árabes. Mais importante ainda, significa rejeitar a ocupação e a violência dos colonos, além de apoiar o direito do povo palestino à autodeterminação, incluindo a criação de seu Estado independente.
É evidente que as condições são muito diferentes e que superar essa lacuna não é uma tarefa fácil. No entanto, o mais importante é que a presença árabe-palestina demonstrou ser parte integrante desta terra, e não uma anomalia, uma presença de convidados ou um fardo demográfico.
Após essas eleições, ninguém poderá tratar os árabes apenas como uma forma de manter as aparências, com o objetivo de apresentar Israel como um Estado democrático, para depois encerrar essa participação sem que ela produza qualquer impacto nas políticas públicas.
A dimensão desse resultado aterrorizou os sionistas, especialmente Netanyahu, que, inicialmente, tentou levantar suspeitas de fraude eleitoral. Em seguida, acusou o Catar de financiar a campanha e, posteriormente, responsabilizou a Autoridade Palestina por incentivar a participação dos eleitores árabes.
Eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, 3 de novembro – Entre Abdul e Trump
O que aconteceu em 3 de novembro nos Estados Unidos foi um verdadeiro terremoto político. As eleições de meio de mandato representaram um referendo sobre o desempenho de Donald Trump nos últimos dois anos, e os resultados refletiram a dimensão da rejeição às suas políticas imprudentes, impulsivas e erráticas.
O Partido Democrata conquistou o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado.
Essas eleições também foram marcadas por acontecimentos sem precedentes, entre os quais se destacou a vitória de Abdul Rahman El-Sayed sobre seu adversário, Mike Rogers, apesar dos milhões de dólares investidos na campanha e dos ataques racistas sem precedentes dirigidos contra ele. Esses ataques exploraram sua origem e sua religião, além de submetê-lo a acusações de todos os tipos.
Outro acontecimento histórico foi a reviravolta eleitoral do Partido Democrata no Texas, onde conquistou tanto a vaga no Senado quanto o governo estadual.
O partido também garantiu cadeiras em estados que tradicionalmente votam nos republicanos ou apresentam disputas equilibradas entre os dois partidos, como Carolina do Norte, Carolina do Sul, Iowa, Maine e Kansas. Este último, inclusive, não elegia um senador democrata desde 1932. A análise das razões que levaram às derrotas exige um artigo à parte. No entanto, gostaria de destacar quatro pontos que abordarei mais detalhadamente em um texto separado.
Primeiro, a guerra contra o Irã e a consequente alta acentuada dos preços, especialmente do petróleo, dos imóveis e dos alimentos.
Segundo, a guerra em Gaza e o apoio de Trump a Netanyahu, que conseguiu envolvê-lo em suas guerras regionais.
Terceiro, os motivos que levaram à mobilização da numerosa comunidade latina, que buscou punir Trump pelo tratamento dispensado aos imigrantes latino-americanos e pelas intimidações sofridas por parte do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
Por fim, a personalidade volátil e narcisista de Trump, o uso recorrente de mentiras descaradas e sua linguagem vulgar, considerada inadequada para um presidente e mais semelhante àquela utilizada por bandidos e gangsteres de rua.
Diante desses fatores, o Partido Republicano pagou um preço elevado e talvez seja levado a reavaliar o desempenho do presidente e a forma como exerce seu poder, começando pela decisão de encerrar a guerra e abandonar as ameaças de retomá-la.
Heba Ayyad – Jornalista internacional. Escritora Palestina Brasileira
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