O cotidiano retorna ao centro da disputa eleitoral
por Carmem Leitão e Rômulo Paes de Sousa
Na última semana, as inciativas políticas do presidente Lula recolocaram no centro da disputa eleitoral o dinheiro que falta no fim do mês, a atenção à saúde que demora, o trabalho que exaure e as apostas que desorganizam famílias. O presidente voltou a falar do ponto em que a democracia interfere na vida comum. O momento que antecede o primeiro turno exigia propostas que estavam represadas e que possuem forte incidência sobre o bem-estar das famílias trabalhadoras. A prerrogativa de quem está no poder é administrar o timing das iniciativas políticas com o olho no cronômetro da disputa eleitoral. Isso vale para todos os incumbentes que buscam a reeleição ou estão efetivamente comprometidos com uma candidatura que lhe sucederá.
As pesquisas ajudam a explicar a urgência. Levantamentos recentes, realizados por métodos distintos, apontam uma disputa apertada entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, em um eventual segundo turno. Os institutos registram empates técnicos ou pequenas vantagens alternadas, indicando um pleito ainda indefinido. Torrentes de vazamentos seletivos e botinadas diversas no STF não parecem ter afetado nem o humor nem os afetos dos eleitores. Pelas iniciativas do presidente Lula, as eleições, portanto, voltaram a ser disputadas no cotidiano de quem luta pelo seu sustento e de sua família.
No começo da campanha, presidente Lula privilegiou a biografia, a defesa da soberania, a imagem de estadista e a prestação de contas dos governos que comandou. Era uma narrativa legítima, mas soava distante da incessante velocidade de transformação da vida social.
A crise envolvendo o Supremo e o Banco Master empurrou a campanha para um terreno ainda mais defensivo e institucional. Enquanto isso, o senador Flávio Bolsonaro investia em ataques diários, linguagem pessoal, humor, herança familiar e forte emulação digital[1]. Nessas abordagens antagônicas, leva vantagem o discurso oposicionista quando consegue canalizar a irritação do presente. Munda afora, o crescimento do extremismo direitista é em parte atribuído a essa particular competência.
Os movimentos mais recentes do presidente visam alterar esse equilíbrio na intenção de votos. O reajuste do Bolsa Família, a proibição das bets, a nova renegociação de dívidas, o fim da escala 6 x 1, a elevação do teto do MEI e a ampliação do acesso a tratamentos no SUS trouxeram de volta as complexas perspectivas sobre as necessidades reconhecidas[2]. Essa aproximação é estratégica porque restitui compromissos à política ao mostrar quem decide, quem financia, quem executa e quem é beneficiado.
O caso das canetas para tratamento da obesidade é exemplar. Sua eventual incorporação ao SUS ampliará o acesso a uma terapia ainda restrita, pelo alto custo, a quem pode pagar. A demanda antecede o anúncio pré-eleitoral. Desde 2025, o Ministério da Saúde atua para ampliar a oferta e, desde junho de 2026, avalia o uso da semaglutida em 250 pacientes com obesidade grave. A expiração de patentes e os novos registros abrem espaço para maior concorrência e redução de preços. Ainda sujeita à avaliação da Conitec, a oferta deverá combinar critérios clínicos, negociação de preços e produção nacional, assegurando acesso e sustentabilidade[3].
A questão do combate às bets visa enfrentar uma prática que captura renda, endivida famílias, alcançando adolescentes e crianças, produzindo doenças e sofrimento, além de oferecer alternativas para a lavagem de dinheiro. Medida provisória (MP), lançada em 25 de setembro, estabelece a proibição da atividade no Brasil com devolução imediata dos valores que estiverem depositados nas plataformas de apostas[4]. A MP deverá ser apreciada pelo Congresso em até 120 dias. Lá o governo terá que lidar com a expressiva bancada de parlamentares que apoiam as bets e com os caprichos dos presidentes das casas legislativas. O governo resolveu pagar para ver se o Congresso está disposto a assumir o ônus político de restituir uma prática que se tornou muito impopular entre a maioria dos eleitores. Certamente, várias matérias de interesse do governo poderão ser afetadas. Contudo, ao editar a MP, o governo força o Congresso a se posicionar sobre o tema e se libera do bloqueio que atrapalha a tramitação de matérias do seu interesse, mas contrariam os interesses de poderosos grupos econômicos.
Isso também vale para o Programa Bolsa Família. O reajuste de 15,04% elevou o piso de R$ 600 para R$ 691 e recompôs, pelo INPC, a inflação acumulada desde março de 2023, sem aumento real. Em decisão individual no STF, Gilmar Mendes considerou a medida compatível com a legislação eleitoral: trata-se de atualização prevista na lei do programa, sem criação de benefício, alteração dos critérios de elegibilidade ou ampliação do número de beneficiários[5]. Embora ainda existam questionamentos no TSE, a campanha ganha ao explicar a finalidade social, o fundamento jurídico e o financiamento da recomposição.
Essas decisões encontram ampla receptividade entre a população. A crítica às medidas relacionadas a esses três temas coloca os adversários na posição incômoda de explicar por que se opõem à recomposição legal do Bolsa Família, que preserva o poder de compra das famílias mais pobres; à ampliação do acesso a medicamentos para quem mais precisa; e ao enfrentamento do mercado das bets, que endivida, fragiliza e destrói famílias.
O presidente Lula tem uma vantagem que nenhum adversário pode fabricar por meio da comunicação: experiência de governo, vínculo histórico com a redução da pobreza e capacidade de formar amplas coalizões. Porém, esses atributos precisam ser permanentemente testados e revistos.
A mudança de agenda é relevante, mas não encerra a disputa. Ao recolocar renda, saúde, endividamento e proteção social no centro do debate, o governo Lula desloca parte da campanha para políticas públicas com efeitos concretos sobre a vida cotidiana. Em uma eleição marcada por forte polarização e por um cenário de empate técnico nas pesquisas recentes entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, a disputa pelo cotidiano tende a permanecer central.
Carmem Leitão é professora do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará; e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde de Saúde Coletiva (Abrasco);
Rômulo Paes de Sousa é pesquisador da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde de Saúde Coletiva (Abrasco)
[1] Folha de S.Paulo. Na primeira semana de campanha nas redes Lula reforça trajetória e Flávio soma ataques diretos. 26 ago. 2026. Acessar fonte
[2] CNN Brasil. Lula tenta virar pauta com Bolsa Família e canetas emagrecedoras. 18 set. 2026. Acessar fonte
[3] Folha de S.Paulo. Governo avalia levar ao SUS caneta emagrecedora mas oferta não seria imediata. 18 set. 2026. Acessar fonte
[4] https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/09/26/bets-e-jogo-do-tigrinho-proibidos-o-que-voce-precisa-saber.ghtml
[5] UOL. Gilmar diz que reajuste do Bolsa Família não fere regras eleitorais. 18 set. 2026. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/18/gilmar-diz-que-reajuste-do-bolsa-familia-nao-fere-regras-eleitorais.ghtm
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