A vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição presidencial expôs a força alcançada pelo bolsonarismo na sociedade brasileira e colocou o campo progressista diante de um cenário de disputa mais complexo para o segundo turno.
Em análise publicada pelo The Guardian, especialistas apontaram uma combinação de fatores para o desempenho do candidato: a expansão da influência evangélica, a preocupação com a violência urbana, a insatisfação de parte do eleitorado com o governo Luiz Inácio Lula da Silva, questões relacionadas à idade do presidente e o avanço internacional da extrema direita.
Para o colunista Bernardo Mello Franco, de O Globo, o resultado demonstra que o bolsonarismo se consolidou como um movimento de extrema direita com raízes profundas no país. Segundo ele, mesmo com Jair Bolsonaro condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, seus aliados conseguiram manter força eleitoral em diferentes regiões e seu filho chegou ao segundo turno na liderança.
Evangélicos e segurança pública
Um dos principais fatores apontados pelos especialistas é a expansão da influência política das igrejas evangélicas. O segmento, que cresceu significativamente desde os anos 1980 e hoje representa parcela expressiva da população brasileira, tornou-se uma importante base eleitoral do bolsonarismo.
Mello Franco destacou a existência de uma estrutura religiosa que reúne pastores com milhões de seguidores nas redes sociais, grandes igrejas e presença na televisão. Durante o governo Jair Bolsonaro, essa aproximação foi reforçada por alianças com líderes de grandes denominações.
A violência urbana também aparece como elemento central. Segundo o analista, propostas de endurecimento da segurança pública, ampliação da atuação policial e aumento das punições encontram receptividade entre eleitores preocupados com criminalidade.
Nesse ambiente, propostas defendidas por Bolsonaro e seus aliados, como o combate ao que classificam como “narcoterrorismo” e medidas de endurecimento penal, ganharam espaço durante a campanha.
Insatisfação com Lula e avanço global da direita
Para os especialistas ouvidos pelo jornal britânico, entretanto, o resultado não pode ser explicado apenas pelo crescimento da extrema direita. A própria campanha de Lula teria deixado em segundo plano problemas cotidianos que pesam sobre o eleitorado, como custo de vida, endividamento e segurança.
O analista político Thomas Traumann avaliou que o governo também teria subestimado uma parcela de eleitores insatisfeitos com sua gestão e com controvérsias envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Para ele, nem todo eleitor que rejeita o governo pode ser classificado como fascista ou elitista: existe também um grupo que simplesmente esperava mais da administração petista e decidiu puni-la nas urnas.
A idade de Lula, que completará 81 anos poucos dias antes do segundo turno, também foi explorada por críticos. Os especialistas ouvidos pelo Guardian, porém, rejeitaram comparações diretas com Joe Biden e não apontaram sinais de comprometimento físico ou cognitivo do presidente.
O fenômeno brasileiro ainda está inserido em uma transformação política mais ampla. O cientista político Miguel Lagos relacionou a ascensão de Bolsonaro ao avanço da extrema direita em diferentes partes do mundo, impulsionado pelas redes sociais e por uma reação contra elites políticas, jornalistas e intelectuais.
Apesar da vantagem conquistada no primeiro turno, Mello Franco ponderou que a disputa presidencial ainda está aberta. Para ele, a política brasileira tem demonstrado repetidamente que reviravoltas fazem parte do processo eleitoral.
Deixe um comentário