O primeiro debate do segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), promovido pela TV Band na noite de domingo (18) em parceria com Estadão, TV Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan, foi pautado por uma estratégia constante do parlamentar: evitar respostas diretas sobre seu patrimônio, investigações e a condução do governo de Jair Bolsonaro na pandemia de Covid-19. Diante das esquivas e do direcionamento de ataques à sua família, o petista desafiou o adversário a autorizar a quebra dos sigilos bancário e telefônico de ambos antes do pleito.
O confronto concentrou cobranças de Lula sobre a compra de uma mansão de R$ 10 milhões no Distrito Federal por Flávio e sobre o pedido de R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para produzir um filme biográfico de seu pai. Em vez de esclarecer os valores e a origem dos recursos, o candidato do PL preferiu levantar acusações sobre familiares do presidente.
“Eu desafio você, os Bolsonaro e eu, amanhã, abrirmos nossa conta bancária, abrirmos nosso sigilo para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão nesse país“, declarou Lula no estúdio. Flávio rechaçou o compromisso e ironizou a fala: “Eu não tenho absolutamente nada a esconder. Só que a questão, Lula, é que o seu dinheiro é por fora sempre. Não está na sua conta, está em algum outro lugar.“
A movimentação no palco também gerou atritos. O senador circulou por trás de Lula enquanto o rival discursava, o que exigiu intervenção da jornalista Adriana Araújo no encerramento para assegurar o tempo de fala do presidente e conter os ânimos no estúdio.
Divergências em segurança e na gestão da saúde pública
Apesar do clima tenso, os dois candidatos expuseram propostas. Na área da segurança, Lula defendeu a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública para articular a atuação federal com estados e municípios, além de confirmar a criação do Ministério da Segurança Pública.
Flávio focou na linha punitiva, prometendo enquadrar facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na categoria de organizações narcoterroristas, criar 500 mil vagas no sistema prisional e implementar o projeto “Smart Brasil” para monitoramento por câmeras. O parlamentar defendeu ainda a redução da maioridade penal para 14 anos em crimes hediondos e a castração química para estupradores.
Na saúde, o retrospecto da crise sanitária voltou à pauta. Lula criticou o atraso no fornecimento de vacinas pelo governo anterior, levando Flávio a fazer um mea-culpa sobre a gestão de seu pai. Como alternativa, o senador prometeu o “Padrão Einstein” no SUS, prevendo a integração de prontuários eletrônicos via CPF e expansão da telemedicina. Lula rebateu sustentando que o modelo pode sugerir privatização, além de reafirmar a expansão do programa Mais Médicos e metas de atendimento oncológico.
Propostas econômicas e a disputa pelo eleitorado trabalhador
A escala de trabalho 6×1 e as medidas de renda pautaram as discussões sociais. Lula provocou o rival pelo recente recuo sobre a jornada de trabalho e afirmou que o senador não tem proximidade com o cotidiano popular: “Conhece ônibus por literatura, porque nunca entrou no ônibus“.
Em contrapartida, Flávio apresentou a promessa de criar o “Ministério da Prosperidade“, voltado à facilitação de crédito e ao perdão temporário de dívidas. Lula destacou as rodadas do programa Desenrola, a valorização do salário mínimo acima da inflação e investimentos em transição ecológica.
O encontro marcou o único embate direto entre os dois postulantes na TV aberta a uma semana do segundo turno.
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