24 de outubro de 2026

Brasil sob disputa: os riscos de uma presidência Flávio Bolsonaro para a soberania nacional, por Ussumane Embalo

A eleição que decidirá a autonomia estratégica, o controle dos recursos críticos e o futuro do Brasil e da América Latina.
Flávio Bolsonaro em foto de Joédson Alves - Agência Brasil

Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno das eleições de 2026 com 47,03%, superando Lula, em cenário de intensa disputa geopolítica.
EUA e China disputam influência no Brasil, com interesses estratégicos em minerais críticos, tecnologia e soberania nacional.
Eleger Bolsonaro pode ameaçar autonomia brasileira, fortalecendo interferências externas e fragilizando instituições democráticas.

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Brasil sob disputa: os riscos de uma presidência Flávio Bolsonaro para a soberania nacional

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por Ussumane Embalo[1]

No dia 04 de outubro de 2026, o povo brasileiro surpreendeu o mundo ao desmentir todas as pesquisas eleitorais que previam que o candidato a reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva do Partidos dos Trabalhadores (PT) lideraria os resultados do primeiro turno, e que no eventual segundo turno, Lula disputaria com o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro da extrema direita brasileira, suportado pelo Partido Liberal (PL). Ou seja, ao contrário das previsões das pesquisas de intenção de voto, Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno registrando 47,03% (56.104.503 votos), enquanto o líder da esquerda brasileira registrava 45,16% (53.879.538 votos).

Entretanto, apesar de vários fatores envolvidos na desaprovação do Lula, tais como o desenrolar do escândalo do Banco Master, tensões entre integrantes do Supremo Tribunal Federal e problemas econômicos, existe todo um cenário político que o país tem tentado a sobreviver desde que o Donald Trump, aliado da extrema direita brasileira e apoiante da família Bolsonaro assumiu o poder nos EUA. Que tem tentado interferir no destino político e econômico do Brasil, da América Latina e do mundo, exemplo de Venezuela, Panamá, Groelândia, África do Sul, Irã, Colômbia, Cuba, etc.

É sabido que Brasil é o país mais importante política, econômica e estrategicamente da América Latina, e que neste momento está sob fogo cruzado entre duas superpotências imperialistas. Por estas e outras razões que desta vez, a eleição brasileira é bastante atípica, por isso, não deve ser lida e analisada apenas como uma disputa entre Esquerda e Direita, muito menos como uma simples escolha de quem deve administrar o país. Isto porque a disputa ocorre dentro de uma disputa maior pela autonomia e pelo domínio estratégico da América Latina.

Decidir quem irá governar o Brasil pelos próximos quatro anos é também decidir se o país será capaz de escolher seus parceiros, proteger suas riquezas e definir autonomamente a sua política externa sem se que Washington ou Pequim ou qualquer outra superpotência venha a transformar o país em uma plataforma de segurança, exportação de matérias-primas ou contenção de rivais. Diante disso, questiona-se: Como Washington, Pequim e os interesses econômicos globais disputam o rumo político, as riquezas estratégicas e a autonomia do Brasil? Quão perigoso é eleger Flávio Bolsonaro diante de um Brasil sob disputa e ataques contra a sua soberania?

Antes de aprofundar sobre essas questões, gostaríamos de destacar uma outra questão que tem sido bastante comentada. A possível interferência do governo marginal, imperialista, pirata, bélico do Donald Trump nas eleições brasileiras de 2026. Enquanto os extremistas da direita brasileira clamam pelos ataques do governo Trump à soberania brasileira para esconder e proteger seus interesses maquiavélicos, onde “os fins justificam os meios”, o povo mal informado e acima de tudo insatisfeito e exaustivamente decepcionado com os escândalos de corrupções que dominaram o país, se perde e escolhe desesperadamente a própria autoaniquilação/destruição que na verdade começou desde 2018 quando elegeu o Jair Messias Bolsonaro e agora, preste a eleger o filho no pior momento da história do Brasil, perante uma nova Guerra Fria entre Pequim e Washington. 

Diante disso, é necessário apontar que a interferência externa contemporânea raramente assume a forma de golpe clássico nos dias atuais, porém, ela opera por meio de sanções, pressão diplomática, política, econômica (tarifas e bloqueios), guerra de narrativas, financiamento político indireto (difícil de rastrear), dependência tecnológica, acordos comerciais e controle das cadeias de minerais críticos. Portanto, na eleição brasileira, o ponto que está em causa é quem terá poder para decidir o destino dos recursos nacionais, a soberania, a autonomia política, e o lugar do Brasil na nova Guerra Fria entre Estados Unidos e a China.

Para defender esta tese, nos apoiamo-nos em fatos documentados, em declarações públicas, em incentivos geopolíticos observáveis e em literatura teórica que discute o tema (United States, s.d.-b; United States, s.d.-c; Pettus, 2023; De Bolle, 2026). É importante ressalvar que, a influência externa não é necessariamente fraude eleitoral, e a existência de interesses dos EUA na eleição do Flávio Bolsonaro ou interesses da China na eleição de Lula da Silva não justifica que qualquer um dos candidatos seja agente de um ou de outro país. O real perigo está na capacidade de quem vai governar o país nos próximos anos, de manter um poder autônomo, decisivo, proteger os recursos, a soberania, autonomia política, econômica e institucional do país sem se subordinar ao padrinho da campanha.

Washington, Pequim e os interesses econômicos globais: rumo político, riquezas estratégicas e a autonomia do Brasil

Recentemente, durante discurso de abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, o presidente do Brasil solta seguinte frase: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.Uma frase que muito repercutiu, Lula enfrenta o governo Trump e no mesmo discurso o estadista também antecipa possível tentativa de interferência dos EUA nas eleições brasileiras e na sua soberania nacional. A frase a cima citada vem na sequência de vários ataques da administração Trump contra as instituições soberanas do Brasil em apoio direto a família Bolsonaro e a extrema direita brasileira, aliados dos interesses americanos, desde a entrega das terras raras, privatizações das empresas estatais que favorecem os Estados Unidos, até a alienação da soberania e segurança do Estado brasileiros ao rotular Comando Vermelho e PCC como grupos terroristas.

Mas os interesses políticos e econômicos dos EUA sobre o Brasil e a América Latina são muito maiores que eleger um presidente da extrema direita que favorece tais interesses geopolíticos, econômicos e estratégicos. A ambição da administração Trump é imensurável e absolutamente além do limite, que desrespeita qualquer integridade soberana de um país e/ou de um povo. Que, portanto, para alcançar e salvaguardar tais interesses na visão norte-americana, “os fins justificam os meios”, exemplo disso são os casos da Venezuela (rapto do presidente Nicolás Maduro), pressão econômica sobre a Cuba, guerra e pirataria no Irã e entre outros casos.

Entretanto, desde que o atual secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio colocou a América Latina no centro das prioridades estratégicas dos Estados Unidos, tendo a sua política externa apontada por muitos analistas como uma clara retomada da “Doutrina Monroe” anunciada em 1823 pelo ex-presidente norte-americano James Monroe[2], que usurpou o direito de policiar a América Latina rotulando a como o seu “quintal”. Doutrina Monroe é uma ideologia que nasceu como advertência contra expansões coloniais europeias no continente americano.

Em 06 de dezembro de 1904, o significado político da Doutrina Monroe mudou quando os Estados Unidos passaram a tratá-la como uma autorização para definir o que seria ordem no Hemisfério Ocidental (United States, s.d.a; United States, 2022). Ou seja, com o anúncio do Corolário Roosevelt tornou essa mudança explícita, quando o governo norte-americano afirmou que poderia exercer um poder policial internacional em casos de “irregularidade crônica ou impotência dos governos latino-americanos”. O próprio Departamento de Estado dos EUA chegou a justificar que o Corolário Roosevelt serviu para justificar as suas intervenções em Cuba, Nicarágua, Haiti e República Dominicana (United States, s.d.a).

Para compreender o cenário atual é importante voltar brevemente para o passado remoto da história quando os EUA se deram o direito de policiar e comandar o continente americano. O arquivo nacional dos EUA ainda preserva a linguagem original do Corolário por meio do qual Washington ainda pode intervir para “proteger a ordem”, “a vida”, a propriedade e os interesses dos credores (United States, 2022). Todavia, os episódios intervencionistas atuais não significam que a política policialesca dos EUA continua idêntica durante dois séculos, porém a lógica intervencionista continua presente.

Os EUA continuam considerando a América Latina uma área de segurança privilegiada, onde a presença de potências rivais como a China (atualmente), a Rússia é vista como hostil aos interesses americanos ou surgimento de um projeto econômico e de segurança autônomos (ideias fortemente alimentadas nos governos de Lula) podem ser tratadas como ameaça á ordem regional e a segurança nacional dos EUA pelos oligarcas políticos norte-americanos (Pettus, 2023).

Ao longo da Guerra Fria, a mesma lógica intervencionista foi aplicada contra países e governos que Washington classificava como comunistas ou aliados da antiga União Soviética, por exemplo, na Guatemala. Os documentos oficiais da série Foreign Relations of the United States apresentam a operação da CIA conhecida como PBSUCCESS, que levou ao golpe de 1954 contra o presidente Jacobo Árbenz. No Chile, a documentação registra financiamento encoberto de partidos, esforços para influenciar a situação política e um programa de ação clandestina iniciado antes do golpe de 1973 (United States, s.d.a). É óbvio que não se pode fazer uma leitura mecânica de hoje a partir das realidades dos anos 1954, 1973, quando respectivamente ocorreram tais episódios. Não obstante, eles ajudam a compreender que a interferência política dos EUA em países soberanos não é uma fantasia sem precedente.

Não se pode ignorar o fato de que, quando interesses econômicos e ideológicos dos EUA são considerados ameaçados, Washington utiliza, já utilizou e continua a utilizar instrumentos clandestinos, de pressão econômica e de alianças com setores internos para alterar o rumo político e econômico de países latino-americanos, igual está fazendo com Brasil novamente. Embora a América Latina esteja vivenciando a segunda fase da “Onda Azul” [3] também conhecida como “Giro à Direita”, o cenário não é suficiente para explicar toda a dinâmica atual (Brum, 2025). Entretanto, apesar da interferência dos EUA não significa necessariamente controlar todos os resultados, a tentativa de influenciar o ambiente político regional pode de certa forma condicionar parte dos resultados, que ocorre através de seleção de parceiros, apoio diplomático a determinados setores, sanções, pressão econômica e política, cooperação militar e policial, guerra de narrativas e disputa de informações, financiamentos clandestinos aos aliados. Portanto, efeito dessas formas de interferência depende da capacidade institucional, econômica e de mobilização da sociedade (civil).    

Não é de hoje que Washington acompanha, pressiona, interfere e tenta moldar os custos e benefícios das escolhas latino-americanas. Casos mais recentes são: depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, a política hemisférica dos EUA passou a relacionar terrorismo, narcotráfico, fronteiras, migração e segurança interna (Muller, 2020). O combate antidroga antes apresentado principalmente como política criminal, passou a ser cada vez mais incorporado a uma linguagem de segurança nacional, como forma de legitimar as intervenções de Washington (Muller, 2020). Contudo, a administração Trump ampliou essa tendencia dentro da sua agenda para América Latina ao combinar migração, comércio e segurança. Por exemplo, o Conselho das Américas documenta que, Marco Rubio, secretário de Estado, elegeu como centro de sua atuação externa, a contenção da influência da China e os casos de México, Venezuela e Cuba.

De um lado, o governo de Trump apresenta uma arquitetura de segurança regional o “Shield of the Americas” ou “Escudo das Américas”, lida como como tentativa de reorganizar o hemisfério ao redor de prioridades dos EUA. Para consolidar efetivamente esta arquitetura de segurança, o risco político tende a ser transformação de temas legítimos, como o combate ao crime organizado em justificativa para a militarização da política externa. Portanto, o Brasil será atingido por meio dessa estratégia que rotula grupos criminosos de terroristas, após Flavio Bolsonaro subtrair relatórios de segurança do Estado e compartilha-los com o governo norte americano (segundo ele), dando brecha para que EUA pudessem legitimar a sua interferência na soberania brasileira em nome da segurança nacional.

Lembrando que, quando um governo estrangeiro é classificado como ameaça à segurança nacional dos EUA, abre-se espaço para sanções, isolamento diplomático, operações de informação e pressão sobre elites econômicas. Isto porque a linguagem de segurança possui o poder de deslocar o debate: em vez de perguntar quem controla os recursos e quais são os interesses sociais envolvidos, passa-se apenas a questionar quem está com ou contra Washington (EUA).

A Cuba e a Venezuela ocupam o lugar central desse tipo de estratégia. A pressão sobre a Cuba tem longa história, e a Venezuela é tratada por Washington como problema de segurança, energia, migração e influencia internacional desde meados de 2001/2002, quando ex-presidente Hugo Chaves declarou que era contrário do “combate ao terrorismo com terrorismo”, fazendo referência as reações do governo Bush após ataque ao Capitolio, marcada por uma sequência de ataques militares a vários países árabes do oriente médio. Diante desses cenários, o Brasil aparece como peça diferente: não é um Estado isolado nem um país pequeno, mas a maior economia e o maior território da América do Sul (Americas Society/Council of the Americas, s.d.; United States, s.d.-b; United States, s.d.-c). Por estas razões, a sua posição pode definir o equilíbrio regional.

No dia 29 de setembro, na véspera do primeiro turno das eleições brasileiras (04 de outubro), o ex-presidente da Colômbia Gustavo Petro (2022/2026) publicou no X, a seguinte frase: “El futuro de latinoamérica está en manos del pueblo brasileño” – “O futuro da América Latina está nas mãos do povo brasileiro”. A frase de Petro reconhece o valor do Brasil como potência regional capaz de alterar o equilíbrio regional e do continente americano como um todo. Portanto, se o país aceitar uma posição subordinada, os demais países da região terão menos espaço para negociar, ao contrário, se o Brasil defender uma política externa autônoma, a integração regional e o controle público sobre minerais críticos poderá ampliar a margem de manobra de toda a América Latina.

China, contenção e a disputa pelos minerais críticos

A política de contenção da China é o eixo que conecta segurança, tecnologia e recursos naturais. Um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA afirma que as prioridades econômicas chinesas na América Latina incluem acesso a petróleo, soja, lítio e outros minerais, além de infraestrutura, tecnologia e mercados. O mesmo relatório relata que a China é o maior parceiro comercial do Brasil e que entidades chinesas investiram cerca de US$ 66 bilhões no país entre 2005 e 2022. O Comando Sul dos EUA apresenta a presença chinesa em termos ainda mais estratégicos: portos, redes digitais, instalações espaciais, infraestrutura crítica e minerais que podem gerar influência econômica e potencial uso dual, civil e militar. Essa leitura é a justificativa oficial para ampliar a competição dos EUA na região latino-americana (Congressional Research Service, 2023). 

É justamente nesse ponto que as terras raras e os minerais críticos brasileiros deixam de ser um assunto apenas minerário. Eles são insumos para ímãs de alto desempenho, baterias, equipamentos eletrônicos, inteligência artificial, robótica, energias renováveis e sistemas militares. Quem controla a extração, o processamento, a tecnologia e os contratos de longo prazo controla uma parte relevante da transição energética e da indústria de defesa do século XXI (United States, 2026; Pettus, 2023). Ex-presidenciável derrotado no primeiro turno, Renan Santos foi incisivo durante a sua campanha denunciando possível apoio do governo Trump para a eleição do Flávio Bolsonaro em troca de acordos favoráveis aos EUA sobre os minerais crítico do Brasil, denúncia que merece preocupação além da retórica eleitoral.

Em fevereiro de 2026, O Departamento de Estado dos EUA declarou que Washington pretende remodelar o mercado global de minerais críticos e terras raras. O documento menciona a participação do Brasil no encontro ministerial e anuncia US$ 565 milhões para extração de terras raras pesadas e leves no país (United States, 2026). A cifra e o desenho do programa necessitam de acompanhamentos atentos e cuidadosos: investimento pode trazer tecnologia e empregos, mas também pode consolidar dependência, visto que, a exportação de minério sem processamento interno leva a perda de controle sobre decisões estratégicas (De Bolle, 2026).

Uma análise do Peterson Institute for International Economics descreve a aquisição da brasileira, Serra Verde pela USA Rare Earth e relaciona a operação a mecanismos de investimento apoiados pelo governo dos EUA. O texto também observa que o negócio provocou debate sobre soberania e que uma nova legislação brasileira poderia permitir sua revisão. Análise válida para interpretação, já que não foi uma decisão oficial do Estado brasileiro. De qualquer forma, o argumento político é incontornável sobre o tema:a pressão para alinhar o Brasil à cadeia mineral norte-americana existe e é pública(United States, 2026; De Bolle, 2026).

Assim sendo, o debate eleitoral precisa perguntar se o país venderá concentrados ou desenvolverá capacidade de refino, pesquisa, fabricação e reciclagem. Precisa perguntar quais cláusulas de controle nacional existirão nos contratos. Precisa saber quem assume o risco ambiental e quem ficará com a renda. Será que haverá tempo para esse tipo de debate antes do fim do segundo turno? É óbvio que não, mas pode servir para debate de vários segmentos políticos e civis independentemente de quem conquistar a cadeira de chefe do executivo.

Quão perigoso é eleger Flávio Bolsonaro diante de um Brasil sob disputa e ataques contra a sua soberania?

Para compreender um pouco de quão perigoso é eleger mais um da família Bolsonaro ou governo de extrema direita, é fundamental que compreendamos o que realmente está em causa nesta eleição. Entre várias razões que não cabem nesta análise, escolhi trazer uma breve leitura a partir de Wendy Brown, em “nas ruinas de neoliberalismo: em que analisa “a ascensão da política antidemocrática no Ocidente”, e mostra que o movimento não surgiu do nada. Segundo Wendy, a extrema direita contemporânea combina elementos que parecem contraditórios: defesa radical do mercado, desmonte das políticas sociais, nacionalismo, conservadorismo religioso, racismo, masculinismo e hostilidade às instituições democráticas. Essa combinação é especialmente perigosa porque transforma frustrações reais da população em ressentimento contra grupos vulneráveis e contra a própria ideia de igualdade (Brown, 2019).

A partir deste ponto de vista, sem perder de vista o que foi governo Bolsonaro e observando o passo-a-passo do Flavio Bolsonaro, suas relações com Milei e Trump, destaco a razão social como primeira razão para o Brasil não eleger um governo de extrema direita. Brown explica que o neoliberalismo reduz a sociedade a indivíduos, famílias e empresas responsáveis isoladamente por seu destino. Quando direitos sociais são tratados como privilégios e a pobreza é apresentada como fracasso pessoal, desaparecem as responsabilidades coletivas. Saúde, educação, moradia, proteção trabalhista e assistência deixam de ser direitos e passam a ser vistos como custos ou favores. No Brasil, um país marcado por desigualdade, racismo estrutural e pobreza, essa lógica ampliaria a exclusão e enfraqueceria os mecanismos capazes de proteger quem mais precisa.

A extrema direita também costuma mobilizar a moralidade privada para ocupar o espaço deixado pelo enfraquecimento da política. Em vez de discutir emprego, distribuição de renda e serviços públicos, ela apresenta inimigos culturais: mulheres, pessoas LGBTQIA+, imigrantes, movimentos sociais, universidades, jornalistas ou defensores dos direitos humanos. Brown sustenta que a aliança entre neoliberalismo e conservadorismo moral procura transformar a família tradicional e a religião em substitutos da responsabilidade pública (Brown, 2019). O resultado é uma sociedade mais punitiva, menos solidária e mais disposta a aceitar a violência contra aqueles definidos como ameaça.

A segunda razão é democrática. Para Brown, a extrema direita não apenas critica governos, ela deslegitima a política, o conhecimento, a ciência, a imprensa e as instituições que limitam o poder. Ao mesmo tempo, afirma falar em nome de um “povo verdadeiro” contra inimigos internos. Essa estratégia permite que derrotas eleitorais sejam apresentadas como fraude, que decisões judiciais sejam tratadas como perseguição e que a oposição seja acusada de traição. Uma democracia não depende somente de eleições. Depende também da aceitação de regras, direitos, pluralidade e alternância de poder.

Por isso, o eleitor brasileiro deve avaliar mais do que promessas de ordem, eficiência ou defesa da família. Deve perguntar se o candidato respeita adversários, instituições, minorias, ciência e resultados eleitorais. A advertência de Wendy Brown é clara: quando a liberdade é reduzida à liberdade de mercado e a igualdade é tratada como ameaça, a democracia pode permanecer formalmente de pé enquanto perde seu conteúdo social. Não eleger a extrema direita é, portanto, defender a possibilidade de uma sociedade em que direitos não dependam da renda, da religião, da cor ou da identidade de cada pessoa.

O que neste em causa na eleição brasileira?

Aqui vão 5 decisões para uma escolha concreta neste segundo turno da eleição: primeira, é a escolha entre alinhamento automático e autonomia ativa. A autonomia não significa hostilidade aos EUA nem submissão à China. Significa tomar decisão soberana de poder negocial com ambos, diversificar parceiros e recusar que a política externa seja definida por uma potência externa. Segunda,receber capital estrangeiro e ainda assim exigir processamento nacional, transferência tecnológica, participação brasileira, proteção ambiental e cláusulas de revisão. A questão não é fechar a economia, é impedir que a abertura transforme o Brasil em fornecedor barato de insumos estratégicos. Terceira é a relação entre democracia e segurança. Combater o crime é necessário, mas não se pode permitir que a linguagem antiterrorista dissolva garantias constitucionais, criminalize movimentos sociais ou legitime tutelas estrangeiras. Quarta é a disputa peloimaginário político. A narrativa de que o Brasil deve escolher entre “civilização ocidental” e “ameaça chinesa” reduz uma sociedade complexa a um plebiscito geopolítico. O Brasil deve defender democracia, direitos humanos e liberdade de imprensa, mas sem aceitar que esses valores sejam usados seletivamente para punir governos que defendem interesses nacionais. Quinta e última é a preservação da capacidade de decisão do Estado brasileiro. Uma democracia soberana não é aquela que nunca sofre pressão. É aquela que torna a pressão transparente, submete contratos ao escrutínio público e impede que empresas, governos estrangeiros ou grupos internos decidam sozinhos sobre patrimônio estratégico.

Considerações finais

Que fique evidente para cada brasileira(o) que o segundo turno desta eleição não decide apenas quem administrará Brasília, decide se o Brasil será sujeito ou objeto da nova disputa internacional por segurança, tecnologia e recursos naturais. O eleitor não está escolhendo somente um programa econômico. Está escolhendo quem terá autoridade para negociar com Trump, Rubio, Pequim, grandes mineradoras e instituições financeiras e em nome de quais interesses.

A nova interferência externa não chega necessariamente em ataques. Ela chega em sanções, aplicações arbitrárias de tarifas, contratos, plataformas digitais, acordos de segurança, empréstimos, campanhas de medo e promessas de investimento. No Brasil, a disputa eleitoral de 2026 deve ser entendida como uma disputa sobre soberania: quem controlará as decisões nacionais quando petróleo, terras raras, lítio, nióbio, água, território e tecnologia passarem a valer tanto quanto ou mais que o petróleo do século XX? É sobre isso. É sobre cada eleitor ser capaz de se perguntar: quais contratos foram/serão assinados? Quem financia/financiará cada projeto? Há/haverá processamento dos recursos no Brasil? Quem controla a tecnologia? Quais são/serão as cláusulas de arbitragem? O governo estrangeiro condicionou cooperação a mudanças políticas? O discurso de segurança está sendo usado para retirar o tema do controle democrático?

Fazendo essas perguntas, o rumo do debate deixa de ser uma guerra de rótulos e passa a tratar do essencial, como: democracia com soberania, abertura sem submissão e desenvolvimento que transforme recursos naturais em capacidade nacional. Antes de votar no segundo turno, lembre-se que é uma fase decisiva na vida do Brasil, em que uma decisão errada pode levar a um retrocesso de quatro a cinco décadas. Portanto, não baseie o seu voto em apenas medo, ódio, rejeição ou propaganda manipulada e fake news. Antes de votar, compare os dois projetos a partir de perguntas objetivas: qual candidatura defende a autonomia brasileira de forma concreta? Qual apresenta regras transparentes para os recursos críticos? Qual explica como pretende atrair investimentos sem entregar o controle estratégico do país? Qual respeita as instituições democráticas quando perde? E qual política externa amplia as opções do Brasil, em vez de subordiná-lo a Washington, Pequim ou qualquer outra potência?

Objetivo destas perguntas guiadoras para uma escolha consciente não é substituir o julgamento do eleitorado brasileiro por palavras de ordem. A finalidade é de apresentar critérios claros e racionais para que cada pessoa examine promessas, alianças, contratos, históricos e compromisso. Votar bem no segundo turno é escolher com consciência de que a decisão terá consequências não apenas para o próximo governo, mas para a soberania brasileira e para o futuro da América Latina. Vale a pena apreender com os erros dos argentinos desde que elegeram Javier Milei e dos americanos ao elegerem Trump.

Referências

AMERICAS SOCIETY/COUNCIL OF THE AMERICAS. The Trump Administration on Latin America. New York, [s.d.]. Disponível em: https://www.as-coa.org/content/trump-administration-latin-america. Acesso em: 08 out. 2026.

Brown, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. Tradução de Mario Antunes Marino e Eduardo Altheman C. Santos. São Paulo: Editora Filosófica Politeia, 2019.

Brum, Matheus. Surfing the Latin American Pink Tide: Secular Trends or Political Cycles? London: London School of Economics and Political Science, 2025. Disponível em: https://economia.lse.ac.uk/articles/10.31389/eco.496. Acesso em: 08 out. 2026.

Congressional Research Service. China’s Engagement with Latin America and the Caribbean. Washington, D.C., 23 jun. 2023. Disponível em: https://www.congress.gov/crs-product/IF10982. Acesso em: 07 out. 2026.

De Bolle, Monica. Are Brazil’s critical minerals next in line for Trump’s quest to commandeer resources? Washington, D.C.: Peterson Institute for International Economics, 15 set. 2026. Disponível em: https://www.piie.com/blogs/realtime-economics/2026/are-brazils-critical-minerals-next-line-trumps-quest-commandeer. Acesso em: 05 out. 2026.

Müller, Markus-Michael. Enter 9/11: Latin America and the global war on terror. Journal of Latin American Studies, [S. l.], v. 52, n. 3, p. 545–573, 2020.

Petro, Gustavo. El futuro de latinoamérica está en manos del pueblo brasileño. X, 29 set. 2026. Disponível em: https://x.com/petrogustavo/status/2105070421162832163. Acesso em: 05 out. 2026.

Pettus, Evan L. The Expanding Leverage of the People’s Republic of China in Latin America: Implications for US National Security and Global Order. [S.l.]: U.S. Southern Command, 5 out. 2023. Disponível em: https://www.southcom.mil/MEDIA/NEWS-ARTICLES/Article/3553735/the-expanding-leverage-of-the-peoples-republic-of-china-in-latin-america-implic/. Acesso em: 07 out. 2026.

United States. Department of State. Office of the Historian. Foreign Relations of the United States, 1952–1954, Guatemala: Sources for the Foreign Relations Series. Washington, D.C., [s.d.]. Disponível em: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1952-54Guat/sources. Acesso em: 06 out. 2026.

United States. Department of State. Office of the Historian. Roosevelt Corollary to the Monroe Doctrine, 1904. Washington, D.C., [s.d.]. Disponível em: https://history.state.gov/milestones/1899-1913/roosevelt-and-monroe-doctrine. Acesso em: 05 out. 2026.

United States. Department of State. Office of the Historian. The Downfall of Salvador Allende, January–September 1973. Washington, D.C., [s.d.]. Disponível em: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve16/ch5. Acesso em: 07 out. 2026.

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United States. National Archives. Theodore Roosevelt’s Corollary to the Monroe Doctrine. Washington, D.C., 2022. Disponível em: https://www.archives.gov/milestone-documents/roosevelt-corollary. Acesso em: 06 out. 2026.


[1] Mestrando em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UNB). MBA – Especializando em Gestão de Projetos pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/Universidade de São Paulo (ESALQ/USP). Possui Bacharel em Humanidades pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).

[2] A anuncio foi feito por James na sua mensagem anual ao Congresso americano, no dia 02 de dezembro de 1823. Embora a doutrina tenha sido proclamada por Monroe, o texto e os princípios foram idealizados principalmente por seu Secretário de Estado e futuro presidente, John Quincy Adams. O objetivo original era impedir novas tentativas de colonização e a interferência de potências europeias na região.

[3] A onda azul foi impulsionada por inflação, insegurança, escândalos de corrupção, fadiga com governos progressistas e mudanças reais nas preferências dos eleitores.

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  1. Carlos

    23 de outubro de 2026 3:05 pm

    O cara é um despreparado, um zero a esquerda, o que seria gerenciavel se não existisse o lado fascista e o claro relacionamento/submissão com a banda podre do mercado, com a banda podre das forças de segurança (que pilotam milícias), sem contar a incapacidade de defender a soberania do pais ante avanços do seu dono, trump.
    Por fim um alerta:
    Lula está reagindo contra forças ocultas (nem sempre muito ocultas) big techs e stf. Mas ganhando, trump vai interferir.

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