3 de novembro de 2026

O Mercado nem Onipotente nem Onisciente, por Fernando Nogueira da Costa

A personificação de “O Mercado” como entidade dotada de vontade (poder) e conhecimento (onisciência) encobre realidade muito mais complexa.
Tarsila do Amaral

Reeleição de Lula gerou alta abrupta nos juros futuros e queda nos preços dos títulos, com forte impacto no mercado financeiro.
Movimentos especulativos pós-eleitoral mostraram dinâmica de liquidez, alavancagem e expectativas, afetando ações e câmbio.
Mercado financeiro não é onisciente; preços refletem interações complexas e expectativas coletivas, não apenas fundamentos econômicos.

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O Mercado nem Onipotente nem Onisciente

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por Fernando Nogueira da Costa

A reeleição de Lula desencadeou, no mercado financeiro, uma operação especulativa contrária após o segundo turno. O DI de janeiro de 2031 passou de 12,64% para 15,24%. Isso significa aumento de 2,60 pontos percentuais na taxa exigida pelo mercado em um único pregão. Consequentemente, os títulos prefixados anteriormente adquiridos perderam valor de mercado.

Os investidores posicionados para a continuidade da queda das taxas precisaram desfazer suas posições, em uma corrida simultânea. Esse processo é didático porque envolve uma dinâmica circular: Resultado eleitoral inesperado → Revisão das expectativas → Venda de títulos e encerramento de posições em derivativos → Queda dos preços e alta dos juros futuros → Chamadas de margem e ordens automáticas de proteção  →  Novas vendas e amplificação da queda.

É um mecanismo de retroalimentação endógena da instabilidade financeira: as decisões de vender, tomadas para reduzir riscos individuais, podem ampliar o risco coletivo.

A necessidade de recompra extraordinária de títulos pelo Tesouro evidencia a importância da liquidez e do funcionamento ordenado do mercado secundário. Isso não significa o Tesouro ter garantido a recuperação integral das perdas privadas; sua intervenção ofereceu contraparte e ajudou a restabelecer a negociação.

Há aqui uma distinção importante para a Teoria do Valor Financeiro: o choque eleitoral afetou primeiro os preços de mercado dos estoques de ativos existentes. Somente depois, dependendo de sua persistência, poderia afetar o custo efetivo de novas emissões, a rolagem da dívida e as decisões de investimento produtivo.

No caso da bolsa de valores, as duas estratégias com a análise fundamentalista ou com a especulação sobre tendência podem coexistir. Entretanto, a magnitude e a velocidade dos movimentos sugerem um papel mais importante das expectativas eleitorais, das posições previamente assumidas e das operações de tendência.

Na análise fundamentalista, o preço de uma ação depende do valor presente dos lucros ou fluxos de caixa esperados com a taxa de desconto ajustada ao risco. Uma perspectiva de juros menores pode aumentar o valor presente das empresas, especialmente das mais endividadas e dependentes do consumo doméstico. Também pode melhorar seus resultados futuros ao reduzir despesas financeiras.

Isso ajuda a explicar a forte valorização de varejistas e construtoras após o primeiro turno. O Valor registrou altas intradiárias de 26% para Magazine Luiza e 22,3% para C&A.

Mas a análise fundamentalista não explica sozinha toda a intensidade dos movimentos. A diferença está entre duas perguntas. A pergunta fundamentalista é: quanto a empresa deverá gerar de caixa ao longo de muitos anos? A pergunta especulativa é: por quanto conseguirei vender suas ações amanhã, diante da mudança das expectativas dos demais investidores?

No episódio eleitoral, a segunda pergunta ganhou importância extraordinária. Após o segundo turno, 68 das 76 ações do Ibovespa terminaram em baixa. Magazine Luiza perdeu 58,23% e Banco do Brasil, 29,33%. Por outro lado, Vale, Suzano, Embraer e WEG subiram, beneficiadas em diferentes graus pela exposição a receitas em moeda estrangeira. Essa diferenciação mostra não ter havido apenas venda indiscriminada: fatores específicos das empresas também importaram.

Quem ganhou e quem perdeu? O movimento não permite concluir como sempre os grandes investidores ganharam sistematicamente dos pequenos. Muitos investidores institucionais também perderam. O Citi encerrou posições compradas em Ibovespa futuro e NTN-F 2031 após o segundo turno.

Os resultados dependiam da posição e do momento:

EstratégiaApós o 1º turnoApós o 2º turno
Comprado em ações brasileirasGanho com a altaPerda com a queda
Vendido em ações ou protegido por opções de vendaPerda ou custo de proteçãoPossível ganho ou compensação
Comprado em prefixados longosGanho com queda das taxasPerda com alta das taxas
Aplicado em DI futuro, apostando na queda das taxasGanhoPerda
Tomado em DI futuro, apostando na alta das taxasPerdaGanho

O investidor com capacidade de realizar lucros após o primeiro turno e permanecer líquido antes do segundo preservou ganhos. Quem manteve posições compradas e alavancadas ficou exposto à reversão.

Isso não prova uma transferência deliberada de recursos dos investidores pequenos para os grandes. Para demonstrá-la seriam necessários dados sobre posições, volumes, contrapartes e lucros realizados por categoria de investidor. As reportagens, porém, demonstram a existência de assimetria de informação, capacidade de proteção e gestão de risco, potencialmente desfavorável aos participantes menos experientes.

A especulação cambial foi a aposta mais direta na eleição do lesa-pátria.

O câmbio apresentou uma inversão igualmente expressiva. Após o primeiro turno (R$ 4,95 foi a mínima aproximada do dólar com apreciação do real), a aposta predominante era favorável ao real: vender dólares ou manter exposição comprada em ativos brasileiros. Após o segundo turno (R$ 5,4027 foi o fechamento do dólar comercial com alta diária de 8,21%), o encerramento dessas posições aumentou a demanda por dólares e pressionou sua cotação.

Uma posição comprada em dólares se beneficia da depreciação do real; uma posição vendida em dólares se beneficia da apreciação do real. Operações com futuros e opções permitem assumir essas exposições sem necessariamente negociar o valor integral das moedas à vista, mas introduzem alavancagem e risco de chamadas de margem.

A reportagem informa o dólar ter chegado a R$ 5,6048 durante o pregão, antes de recuar com a entrada de exportadores vendendo divisas. Também registra acionamento maciço de ordens automáticas de limitação de perdas.

Isso evidencia uma diferença entre dois componentes da cotação. Os fundamentos cambiais são: comércio exterior, reservas, fluxos financeiros, diferenciais de juros e condições internacionais. A dinâmica especulativa de curto prazo acontece com apostas eleitorais, encerramento de posições, proteção cambial, liquidez e “movimentos comportamentais de manada.”

O Brasil não perdeu repentinamente suas reservas internacionais ou seu superávit comercial em 26 de outubro. O editorial do próprio Valor destacou reservas superiores a US$ 365 bilhões e superávit comercial robusto. Portanto, uma alta cambial dessa magnitude em um único pregão não deve ser confundida automaticamente com deterioração proporcional dos fundamentos externos.

A comparação mais reveladora do caráter viesado do jornalismo brasileiro é entre os textos opinativos dos dois editoriais de 6 e 27 de outubro.

6 DE OUTUBRO DE 2026: “O recado claro do rali dos ativos: mudanças estruturais” O editorial interpretou a valorização financeira como sinal de expectativa favorável a reformas e ajuste fiscal em um eventual governo Flávio Bolsonaro. Embora reconhecesse a ausência de propostas econômicas detalhadas, atribuiu importância ao entusiasmo dos investidores e defendeu compromissos com cortes estruturais de despesas.

27 DE OUTUBRO DE 2026: “Novo governo terá de fazer ajuste fiscal logo no início”. O segundo editorial reconheceu a reação negativa dos ativos refletia, em grande medida, expectativas eleitorais não fundamentadas sobre a política econômica de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, manteve a defesa de contenção de despesas e de um ajuste fiscal no governo Lula, pregando novo “estelionato eleitoral”.

É possível identificar uma assimetria discursiva: no primeiro momento, a alta dos ativos foi apresentada como um sinal relevante de confiança em mudanças econômicas; no segundo, a queda foi reconhecida em parte como consequência de expectativas equivocadas e posições financeiras concentradas.

Mas seria impreciso afirmar o editorial de 27 de outubro simplesmente ter entrado em pânico. O texto fez uma distinção explícita entre turbulência financeira e fundamentos econômicos, reconhecendo a fragilidade da aposta anterior.

A continuidade mais evidente entre os editoriais está na pregação fiscalista por uma agenda de consolidação fiscal e reformas, independentemente do resultado eleitoral. Isso constitui uma orientação editorial identificável, mas não demonstra, por si só, intenção de manipular O Mercado.

O Mercado não é onisciente. Na verdade, é um sistema adaptativo de expectativas. A personificação de “O Mercado” como entidade dotada de vontade (poder) e conhecimento (onisciência) próprios encobre uma realidade muito mais complexa.

O mercado financeiro é constituído por gente: operadores de bancos, fundos, seguradoras, investidores estrangeiros, famílias, empresas, especuladores de derivativos e intermediários, cujas estratégias podem ser conflitantes. Os preços resultam das transações entre esses agentes, e não de uma decisão unificada.

O episódio eleitoral é especialmente ilustrativo: uma parcela relevante dos investidores tratou como altamente provável um resultado sem ele se concretizar pela reação de mais da metade do eleitorado. A reeleição de Lula, confirmada pelo TSE com 51,79% dos votos válidos, mostrou a diferença entre expectativas financeiras e decisões eleitorais efetivas.

A dinâmica pode ser interpretada por três correntes teóricas complementares:

  1. Keynes: o investidor não tenta apenas estimar o valor de um ativo, mas antecipar a opinião dos demais participantes — a conhecida “metáfora do concurso de beleza”: qual será escolhida como mais bela pela opinião dos outros.
  2. Minsky: posições alavancadas podem transformar uma surpresa relativamente localizada em instabilidade sistêmica, por meio de vendas forçadas e deterioração da liquidez.
  3. Abordagem da Complexidade: expectativas compartilhadas produzem comportamentos coletivos e eles retroagem sobre os preços, reforçando temporariamente a própria crença inicial.

Assim, a sequência pode ser resumida: crença em vitória eleitoral → compras de ativos → valorização → reforço da crença → novas compras → resultado inesperado → liquidação de posições → desvalorização → novas vendas.

Não é necessário supor uma conspiração ou um agente onipotente para explicar a dinâmica. Ela pode emergir da interação descentralizada de investidores: observam uns aos outros e respondem aos mesmos incentivos.

O caso permite formular quatro proposições para a Teoria do Valor Financeiro.

Primeira: o valor financeiro é prospectivo. Seu preço depende de fluxos esperados, taxas de desconto, riscos e convenções coletivas, não apenas dos rendimentos correntes.

Segunda: a valorização patrimonial pode ocorrer sem correspondente aumento imediato do valor adicionado. Os R$ 410 bilhões de valorização após o primeiro turno não representaram produção adicional equivalente naquele pregão. Tampouco os R$ 660 bilhões perdidos após o segundo turno significaram destruição física de capacidade produtiva.

Terceira: a liquidez transforma expectativas em preços. Quando muitos investidores tentam desfazer posições simultaneamente, a liquidez disponível pode ser insuficiente, provocando movimentos de preços desproporcionais à informação nova.

Quarta: a política econômica futura pode ser afetada pela própria especulação presente. Se uma elevação transitória dos juros futuros persistir, poderá encarecer a rolagem da dívida e o financiamento empresarial, criando consequências reais a partir de uma reavaliação inicialmente financeira. O Mercado não apenas antecipa a realidade econômica; suas decisões também podem contribuir para modificá-la.

A leitura dos acontecimentos financeiros pós-eleitorais permite uma interpretação mais precisa em lugar da oposição simples entre euforia e pânico. Após o primeiro turno, investidores compraram ativos brasileiros antecipando juros menores, valorização do real e um cenário fiscal considerado favorável. Após o segundo, o resultado eleitoral inesperado obrigou muitos deles a desmontar posições, produzindo queda das ações, alta do dólar, disparada dos juros futuros e intervenção do Tesouro.

A mudança de preços não comprova os fundamentos econômicos terem se transformado na mesma proporção. Revela, sobretudo, a força das expectativas, da alavancagem, da liquidez e das convenções coletivas.

Para a Teoria do Valor Financeiro, a principal lição é os preços dos estoques de riqueza serem continuamente recriados pelas expectativas de rendimento futuro e pelas interações dos investidores. A pressuposta “racionalidade do mercado” pode produzir tanto valorização autocumulativa quanto desvalorização igualmente autocumulativa. É curioso a “racionalidade” não ser única, não?

O episódio de outubro de 2026 oferece, portanto, um estudo de caso de como expectativas políticas se convertem em preços financeiros — e de como a confiança coletiva pode ser rapidamente substituída pela necessidade de vender.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]. 

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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