A irracionalidade de muitas análises sobre a proposta de André Lara Resende demonstra a pobreza da discussão econômica no país, amarrada por preconceitos ideológicos e pelo uso indiscriminado do economês.
Trata-se de um dialeto desenvolvido em países de ultrafinanceirização, com uma função curiosa: conferir aparência de análise ao que muitas vezes é apenas repetição de bordões. “O mercado perdeu a confiança.” “É preciso fazer a lição de casa.” “As expectativas estão desancoradas.” As expressões se sucedem, frequentemente sem identificar os agentes, demonstrar os mecanismos ou apresentar os dados que sustentariam a conclusão.
Quem perdeu a confiança? Em quê? Por qual motivo? Como essa percepção se transforma em decisões de investimento, preços ou emprego? Sem essas respostas, “confiança” vira um personagem invisível, convocado para explicar qualquer acontecimento.
Tome-se como exemplo a discussão em torno da proposta de André Lara Resende. O que diz o editorial do Estadão:
“O mal-estar do brasileiro com o aumento do custo de vida quase lhe custou a reeleição”.
O IPCA acumulado em 12 meses foi de 4,58% até setembro de 2026. O IGP-M acumulou alta de 5,24% em 12 meses até outubro de 2026.
O editorial prossegue:
“Se a tese (de que juros elevados aumenta a inflação) já era questionável à época, ela se tornou ainda mais controversa após a pandemia de covid-19, quando a inflação e os juros passaram a ser um problema nas economias desenvolvidas”.
Elevar os juros pode reduzir as compras financiadas, o investimento e a demanda por trabalhadores. Mas não produz gás, semicondutores ou capacidade portuária — problemas de oferta que marcaram a pandemia. A frase de impacto não demonstra por que a experiência daquele período refutaria a tese discutida.
Mais adiante, o editorial afirma:
“Parece, e muito, com o discurso de Lara Resende, para quem “o cerne do problema fiscal está no serviço da dívida” e “todo o resto é secundário”.
Se André propõe um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para fixar metas fiscais de quatro anos, como concluir que “todo o resto é secundário”? O editorialista sacou o bordão que tinha à mão, em vez de examinar o conjunto da proposta.
Em contraste com esse debate, merece reflexão a entrevista de Marcos Lisboa a O Globo. Lisboa é um economista que conhece bem as engrenagens da microeconomia. Quando envereda pela macroeconomia, no entanto, torna-se profundamente ideológico, como demonstra o programa “uma Ponte para o Futuro”, um programa anunciado pelo interinato de Michel Temer e que, se tivesse sido implementado, teria originado uma tragédia social inédita.
Como assessor de Antonio Palocci no primeiro governo Lula, no entanto, Lisboa participou de medidas que ajudaram a destravar o financiamento habitacional.
Em sua opinião, em O Globo, a discussão não é mais sobre acabar com o teto constitucional para as políticas públicas, mas substituir o reajuste pelo salário mínimo por indicadores de desempenho que permitam aumentar a eficácia das políticas.
Tem toda razão quanto à importância de avaliar resultados. No governo Fernando Henrique Cardoso, o então ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira deflagrou um programa de melhoria da gestão na área federal. Foi uma das poucas inovações do governo FHC, além dos fundos setoriais.
Participei como membro do júri, ao lado de expoentes dos programas de qualidade, como Jorge Gerdau, Antônio Maciel — que indiquei a Bresser — e Élcio Aníbal de Lucca, então à frente do Serasa, entre outros.
O setor privado já havia descoberto a importância de aprimorar a gestão, deixando em segundo plano a fé em planos mágicos que caracterizou o país até o Real. Empresas brasileiras como Gerdau, Vale, Petrobras, Odebrecht, Ultra, Fleury e Embraer, entre outras, tornaram-se exemplos de eficácia internacional.
Os programas de qualidade tinham na aliança entre capital e trabalho um de seus pontos essenciais. A gestão da empresa era dividida em processos, e os trabalhadores, do chão de fábrica aos escritórios, eram estimulados a buscar melhorias constantes, tendo como referência um quadro de indicadores.
Mais tarde, sob Jorge Paulo Lemann, os programas de qualidade foram reduzidos a meros instrumentos de corte de custos, copiando o padrão Jack Welch.
O programa de gestão pública mudou radicalmente a cultura interna da Polícia Federal, da Conab — uma das vencedoras — e das próprias Forças Armadas. Lembro-me de um evento em Salvador, no qual Jorge Gerdau estava emocionado após conversar com um líder japonês:
- Disse-me ele: depois dos programas de qualidade no setor privado e, agora, no público, o Brasil será uma das maiores economias do mundo.
As sementes da ultrafinanceirização, trazidas pelo Plano Real, e o exemplo deletério de gestão importado dos Estados Unidos, por meio do modelo de Jack Welch, acabaram enfraquecendo a ideia da qualidade.
O que Marcos Lisboa propõe é submeter os programas sociais brasileiros a critérios de avaliação, com indicadores de desempenho focados em resultados.
Deveria existir um Ministério de Avaliação, como o que Nelson Machado tentou introduzir na gestão Dilma Rousseff, mas que não avançou. Mas o Estado dispõe de quadros técnicos relevantes para o programa.
O Ipea e o CGCE desenvolveriam indicadores para cada área: educação, saúde, programas sociais, obras públicas, financiamentos públicos etc. A Enap (Escola Nacional de Administração Pública) prepararia os gestores para compreender os indicadores e trabalhar de acordo com os objetivos de cada política.
Um Painel de Qualidade seria disponibilizado na internet para o acompanhamento permanente dos avanços. Seria uma maneira de dar um pontapé no traseiro do viralatismo e reunir Estado e setor privado em torno de um pacto de produtividade.
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