O Congresso do Paraguai destituiu o presidente Santiago Peña nesta sexta-feira (6), após um processo de impeachment motivado pela crise envolvendo o Ueno Bank.
Com votação próxima da unanimidade nas duas casas legislativas, Peña se tornou o segundo presidente eleito democraticamente no período posterior à ditadura de Alfredo Stroessner a ser afastado por julgamento político. O primeiro foi Fernando Lugo, em junho de 2012.
A destituição encerra antecipadamente um mandato iniciado em 15 de agosto de 2023. Peña permaneceu no cargo por três anos, três meses e 19 dias e deixa a Presidência com um ano, oito meses e nove dias ainda pela frente, segundo levantamento do jornal paraguaio ABC Color.
Na Câmara dos Deputados, os 78 parlamentares em exercício votaram a favor do afastamento. No Senado, 44 dos 45 integrantes participaram da votação, com apenas uma abstenção: a do senador governista Silvio “Beto” Ovelar, que alegou ter o direito de não justificar sua posição. O resultado contrasta com o processo contra Lugo, que teve votação mais dividida.
Renúncia rejeitada e crise política
Peña tentou deixar o cargo por meio de uma renúncia, apresentada em meio ao avanço do processo de impeachment. A estratégia, porém, não prosperou. O Congresso não aceitou a saída voluntária, e a sessão conjunta convocada para analisar o pedido terminou sem quórum, depois que parlamentares governistas deixaram o plenário.
A rejeição à renúncia tinha uma consequência política e jurídica importante: se deixasse a Presidência dessa maneira, Peña poderia assumir uma vaga de senador vitalício, condição que lhe garantiria foro e exigiria um procedimento de desaforamento para responder a eventual processo penal. Com a destituição por julgamento político, ele não terá esse benefício.
O caso que levou à queda do presidente está ligado ao Ueno Bank. O Banco Central do Paraguai determinou a resolução da instituição após identificar que seu índice de solvência havia caído abaixo do mínimo exigido. A medida provocou uma crise que atingiu milhões de clientes e levantou questionamentos sobre os recursos públicos e previdenciários depositados no banco.
Peña havia sido acionista do Ueno Holding, conglomerado que reúne empresas do grupo financeiro, e vendeu suas participações em março de 2025. A acusação política apontou conflito de interesses e questionou a relação entre o presidente e a instituição financeira.
A destituição também representa um episódio incomum na história recente do Paraguai. Peña tinha amplo respaldo no Congresso, com maioria governista nas duas casas, e era considerado um dos presidentes com maior apoio parlamentar desde o fim da ditadura.
Ele é o segundo presidente do Partido Colorado a não concluir o mandato na atual era democrática. O anterior foi Raúl Cubas Grau, que renunciou em março de 1999, após as manifestações e a crise política conhecidas como Março Paraguaio, desencadeadas pelo assassinato do vice-presidente Luis María Argaña.
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