4 de junho de 2026

O apanhador no campo do sentido – Vol.11, por Gustavo Conde


Foto: Ricardo Stuckert

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O apanhador no campo do sentido – Vol.11

Por Gustavo Conde

[Continuação]

O regime dos afetos

Para quem acompanhou os discursos de Lula como este humilde missivista ao longo de praticamente toda uma vida leitora, infância inclusa, o regime dos afetos brota como a orquídea delicada que acaricia os limoeiros espinhosos. O discurso de Lula é, para mim, uma região de competência e codificação inatas. Há ali afeto, densidade, amor e mergulhos primordiais no universo simbólico de si.

Não estou só, evidentemente, neste trançado significante que recobre boa parte da população brasileira. Eis que o relato pessoal é também técnico: o discurso de Lula ocupa um lugar psíquico do imaginário familiar, tão presente que esteve em todos os momentos da história do país.

Como evocado no limiar das teorias da linguagem, o sentido das palavras e dos enunciados não depende apenas das palavras e dos enunciados. Depende de todo um imaginário que subjaz à sua própria emergência, desde o tempo histórico e as pressões institucionais até as plataformas irradiadoras que, no caso de Lula, são os aparelhos de televisão e o rádio.

A voz de Lula se confunde, portanto, com o próprio sentido de Brasil. É algo muito forte, muito estabelecido, muito assentado nas terras desapropriadas do enunciado político.

A competência discursiva de Lula

O uso do verbo ‘resmungar’, como vimos, é poderoso e mesmo ambíguo, porque, a rigor, o termo popular deveria ser algo como ‘chiar’. São essas nuances lexicais – que invadem até o campo das regionalidades dialetais do português brasileiro – que caracterizam uma competência discursiva alguns degraus acima do repertório compartilhado pela imensa maioria dos falantes de uma língua humana.

A competência oral de Lula se assemelha muito a uma competência escrita. São domínios precisos da construção do discurso somado a um acabamento formal em tempo real – Lula revisa sua fala como quem revisa um texto e incorpora essa revisão como elemento persuasivo e reiterativo.

Essa competência limítrofe entre fala e escrita se explica facilmente. Ao lidar com tantos tipos de modos enunciativos diferentes entre si, Lula foi obrigado a construir uma estratégia de enunciação geral, heterogênea, que vai forjar sua singularidade em outras dimensões da expressão, como o próprio timbre (a voz rouca) e o regime de pausas (para aplausos e catarses especulares subscritas em palavras de ordem e riffs linguísticos).

O adensamento passional de sua fala é um recurso extremamente técnico. Lula chama os aplausos e a catarse diante de sua plateia. Ele acelera o sentido, encaminhando finais de períodos prontos para serem ovacionados. É daí que vem sua tendência ao uso dos paralelismos sintáticos como no trecho abaixo:

“Vamos mostrar a essas autoridades, vamos mostrar à opinião pública brasileira que nós, trabalhadores, que os intelectuais, que os pequenos empresários, que os profissionais liberais, e que os estudantes, e que as donas de casa, e que o movimento sindical, e que milhões de desempregados desse país, e que milhões de boias-frias, são muito mais fortes do que a força das metralhadoras, do que a força dos canhões.”

Lula repete o verbo ‘vamos’ para mobilizar retoricamente dois tipos de co-enunciadores de seu discurso (‘autoridades’ e ‘opinião pública’) e prepara o ataque persuasivo com um arsenal de repetições reiterativas dotadas de ritmo semântico e, evidentemente, prosódico, não sem antes costurar o mais sofisticado dos artifícios discursivos, a saber, a nomeação coletiva para um hiperenunciador coletivo: o ‘nós’.

Definido esse ‘nós’ que irá embrear o discurso (Lula nunca está ‘só’ enquanto fala; seu gesto enunciativo repele o uso do ‘eu’, como em algumas nações indígenas e suas respectivas línguas soberanas que sequer ostentam pronomes possessivos), Lula lança, mão de sua harmonia sintática, regida inicialmente pelo pronome relativo ‘que’: ‘que nós, trabalhadores / que os intelectuais / que os pequenos empresários / que os profissionais liberais’, para depois introduzir mais um elemento realçador de sentido: a preposição ‘e’, encadeada ao pronome ‘que’ de maneira a ‘massagear’ a escuta com imensa virtuosidade no gerenciamento semântico: ‘e que os estudantes / e que as donas de casa / e que o movimento sindical / e que milhões de desempregados deste país / e que milhões de boias-frias’.

É uma regência discursiva digna de um Pierre Boulez ou de um Gustav Mahler – ou mesmo de um Heitor Villa-Lobos, como provavelmente ele mesmo gostaria de frisar, em defesa da soberania nacional. 

[Continua]

Aqui, os links do ensaio:

O apanhador no campo do sentido – Vol.1

O apanhador no campo do sentido – Vol.2

O apanhador no campo do sentido – Vol.3

O apanhador no campo do sentido – Vol.4

O apanhador no campo do sentido – Vol.5

O apanhador no campo do sentido – Vol.6

O apanhador no campo do sentido – Vol.7

O apanhador no campo do sentido – Vol.8

O apanhador no campo do sentido – Vol.9

O apanhador no campo do sentido – Vol.10

O apanhador no campo do sentido – Vol.11

O apanhador no campo do sentido – Vol.12

O apanhador no campo do sentido – Vol.13

 

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  1. ze sergio

    30 de setembro de 2018 2:16 pm

    O FASCISMO DE ESQUERDA RUINDO….(PODE CENSURAR O QUANTO QUISER)

    Então as tais Forças Progressistas usam como exemplo um Criminosos Condenado. Agora é a Justiça que é corrupta e errada? Mas não foi esta Justiça que norteou 40 anos Redemocráticos? Instituída por tais Redemocratas? Esta Esquerdopatia que usou deste expediente para minar Paulo Maluf e inventar esta farsa a partir de SP? Serve para uns e não para outros? Democrático este Estado que foi erguido. Redemocracia, ConstiuiçãoEscárnioCaricaturaCidadã, toda estrutura do Poder Judiciário empossada entre os tais Progressistas. E agora Fux é um Agente do Golpismo? A Censura corre descarada, entre Aqueles que diziam tê-la combatido? Progresistas e Socialistas condenam o Estado que reinventaram? É Conversa de Lunáticos !!! 1974 : Orestes Quércia é o Senador mais votado e mais jovem do Brasil pelo Movimento DEMOCRÁTICO Brasileiro. (Então existiam Eleições no regime Militar?!) 1978: Fundação do PT. 1979: Anistia. QUE BRASIL VOCÊ QUER PRO FUTURO? Saneamento Básico, Segurança, Água Potável, Escolas, Ensino de Qualidade, Seguridade Social, Infraestrutra, Empregos Qualificados, Transporte Público, Segurança,…Que Brasil você quer pro futuro em 2018? Tudo aquilo que a Farsante Redemocracia e toda sua Estrutura Política não trouxe?! E conseguirá isto mantendo Corruptos, Mentirosos e Farsantes? O Brasil é de muito fácil explicação

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