Foto: Noam Chomsky

O apanhador no campo do sentido – Vol.4
Por Gustavo Conde
[continuação]
Benveniste e Jakobson
Na França, Benveniste produziu uma teoria robusta sobre o gesto da enunciação, trazendo de volta o sujeito para o centro das atenções e cunhando novos e poderosos conceitos com o conceito de ‘embreagem’ do discurso – que nada mais é do que um sujeito que ‘embrea’ a cadeia significante para produzir o sentido de seus enunciados.
Reparem que na seara de todas essas teorias e paradigmas, decodificar um discurso real produzido por um indivíduo da espécie humana, transcende as análises superficiais de comentadores normativos de jornal impresso, como um Pasquale Cipro Neto, por exemplo. Eles circulam em uma superfície técnica completamente defasada e pobre, fazendo da leitura metalinguística uma verdadeira tortura.
A cena da pesquisa em linguagem se acelerou, na verdade, depois de Saussure. Não apenas a cena linguística, mas também a cena da pesquisa como um todo. A ruptura conceitual do Curso de Linguística Geral foi muito forte para o mundo do conhecimento – foi uma espécie de governo Lula das ciências humanas.
Nesse sentido, outro linguista que desdobou a teoria saussuriana foi o russo Roman Jakobson. Ele formulou um esquema que se tornou largamente conhecido: emissor – mensagem – receptor. Esse postulado esquemático dos anos 50 teve sua ascensão naquela década e na seguinte. Depois foi superado. O curioso é que ele foi superado no mundo todo, menos no Brasil.
Os cursos de comunicação social no Brasil até hoje estudam o esquema comunicacional de Roman Jakobson como se ele fosse a ‘última moda de Paris’ – e não como o que ele realmente é: um testemunho datado e transversal dos avanços das teorias da linguagem.
Talvez seja por isso que as escolas de jornalismo brasileiras estejam em um momento tão dramático de defasagem técnica. O poder judiciário e a magistratura em geral também parecem sofrer de um atraso técnico no que diz respeito aos estudos linguísticos, haja vista a sofreguidão que é ler – ou redigir, imagino – uma peça jurídica que ignora o caráter empírico de um depoimento de um delator, por exemplo, conferindo a ele uma credibilidade desproporcional à reputação que o levou até ali.
A gramática gerativa
Saussure, Lacan, Benveniste, Jakobson, Chomsky. Este último deslindou uma teoria linguística tão original e dotada de tanto fôlego que chegou mesmo a fazer frente a Saussure no que diz respeito a influenciar o mundo da ciência.
Noam Chomsky, que é, talvez, o ativista político mais importante do mundo, construiu uma verdadeira plataforma de codificação e análise linguística. Sua Teoria Gerativa é a ‘matemática’ da linguagem. Ele propõe, em primeiro lugar, uma língua humana universal. A tese é muito singela e fácil de entender: toda língua humana tem três elementos gramaticais fundamentais: sujeito, verbo e objeto.
A partir desta constatação, ele formula uma das teorias mais interessantes da história. Nesta teoria, a sintaxe é elemento central na compreensão de língua. É a partir da estrutura sintática básica de uma língua humana que todas as palavras e partículas linguísticas vão surgindo ao longo do discurso e do encadeamento gramatical.
Para Chomsky, a matriz do sentido é o ‘movimento’ gramatical. Em suma, o potencial de deslocamento gramatical de um lexema – ou palavra – é que lhe confere o sentido. Seu estudo fundador que identifica esse fenômeno diz respeito às sentenças interrogativas.
Chomsky propõe, basicamente, que o sentido de interrogação não tem a ver com o mito da entonação vocal. Para ele, a frase interrogativa “o que o João fez?” só é interrogativa porque o pronome relativo ‘que’ é gerado semanticamente no final da frase (‘fez o quê’) e se desloca para o início. Isso caracteriza um ‘movimento’ na sentença, movimento este que acaba por produzir uma pergunta e não uma afirmação.
Esse é apenas um preâmbulo muito simplificado do que a teoria chomskyana foi capaz de produzir em termos de análise. Chomsky, no entanto, teve várias fases em seu projeto científico. Ele construiu um imenso corpo de pesquisadores que, espalhados pelo mundo, foram aperfeiçoando a teoria.
O mais relevante em Chomsky para a nossa breve reflexão acerca dos discursos de Lula, no entanto, é que o linguista americano joga por terra um dos mitos mais opressores e preconceituosos da cena acadêmica: a tese do evoluído versus o primitivo – que se desdobra facilmente em intolerância e racismo.
Chomsky extermina toda e qualquer defesa desse tipo de formulação datada com sua teoria universal da linguagem. Para Chomsky, o que importa é que o cérebro humano é igual para todo mundo. Todos nascemos com o mesmo cérebro e com a mesma quantidade média de neurônios, não importa se negro, branco, indígena, homem ou mulher.
Assim como Saussure, Chomsky aniquila igualmente as teses preconceituosas das diferenças cognitivas de classe. O pobre não sabe menos que o rico: são apenas competências diferentes.
Tudo passa a ser, a partir de certo momento da teoria, uma questão de ‘input’ social. O cérebro é igual para todos, mas se certas áreas do cérebro não forem ‘ativadas’ durante a vida, elas possivelmente serão deslocadas para outras funções cognitivas.
[continua]
Aqui, os links do ensaio:
O apanhador no campo do sentido – Vol.1
O apanhador no campo do sentido – Vol.2
O apanhador no campo do sentido – Vol.3
O apanhador no campo do sentido – Vol.4
O apanhador no campo do sentido – Vol.5
O apanhador no campo do sentido – Vol.6
O apanhador no campo do sentido – Vol.7
O apanhador no campo do sentido – Vol.8
O apanhador no campo do sentido – Vol.9
O apanhador no campo do sentido – Vol.10
O apanhador no campo do sentido – Vol.11
O apanhador no campo do sentido – Vol.12
O apanhador no campo do sentido – Vol.13
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